BÖLÜM 2: TÜRK KÜLTÜRÜNDE EKMEK ĐLE ĐLGĐLĐ ĐNANIŞLAR
2.4. Kurban, Adak, Saçı Törenlerinde Ekmek
A agressividade estaria presente em todos, seria o fator que perturba nossos relacionamentos com o próximo, representando uma ameaça de desintegração da sociedade pela não convivência entre os homens. O “[...]temor a uma revolta por parte dos elementos oprimidos conduz à utilização de precauções mais estritas.” (FREUD,1996, p.109).
Freud destaca uma máxima conhecida pelo cristianismo ao falar sobre o amor e a agressividade nascentes no homem civilizado: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”, discordando veementemente desta, já que, há sim, no homem, uma poderosa cota de agressividade, não acreditando que sejam apenas criaturas gentis sedentas por amor, mesmo que vistam este semblante. (p.116).
Tais apontamentos remetem inevitavelmente ao que refletimos em nossa introdução acerca da visão romântica da Educação e a visão idealizada da criança e do trabalho do professor, pois o que Freud salienta é que essa máxima vai contra a natureza original do homem, ou seja, não pode ser que consiga viver em comunidade apenas por amar a seu próximo, deve, sim, ajustar essas relações. Portanto, crer que todos se amarão e viverão em harmonia passa a ser um pensamento utópico.
Sendo a agressividade uma realidade da natureza humana, a civilização estabelece limites para esses instintos agressivos, este seria um dos fatores que perturbaria nossos relacionamentos. Por isso, a sociedade civilizada se vê ameaçada de desintegração, pois algumas vezes não consegue controlar esses instintos. “A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem[...]” (FREUD, 1996, p.117).
Os métodos para estabelecer limites seriam: o incentivo a relacionamentos amorosos inibidos (amizade), restrições à vida sexual e amar ao próximo como a si mesmo. É de se esperar que não se consiga muito com esses incentivos, pois “a lei não é capaz de deitar mão sobre as manifestações mais cautelosas e refinadas da agressividade humana” (FREUD, 1996, p.117). Agressividade pode ser entendida como as formas de manifestações “instintivas”, aquelas que não são possíveis de serem controladas pelas leis e incentivos civilizadores. Algo sempre resta apesar do controle da civilização.
Sobre o controle da sociedade, Freud (1996) dá o exemplo dos comunistas, que acreditam que o homem é bom, mas a instituição da propriedade privada corrompeu sua natureza boa, logo, uma vez abolida a propriedade privada, toda essa inclinação do homem à agressividade estaria solucionada. “A propriedade da riqueza privada confere poder ao indivíduo e, com ele, a tentação de maltratar o próximo [...]” (p.117), porém Freud alerta que “abolindo a propriedade privada, privamos o amor humano da agressão de um de seus instrumentos [...]” e ainda lembra que a agressividade já existia desde os tempos primitivos, portanto não poderia ter surgido com a propriedade privada.
Freud critica veementemente esta visão como sendo uma “ilusão insustentável” (p.118), dizendo que a agressividade não foi criada pela propriedade privada, pois esta reina desde os tempos primitivos, quando havia muito pouco dela. Poderíamos concluir que Freud estaria pensando a agressividade do homem como de sua natureza, criada talvez pela civilização, pois só é possível na convivência de uns com os outros. Ele diz ainda que a agressividade “constitui a base de toda relação de afeto e amor entre pessoas” (p118) “se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também a
sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização” (p.119).
Ao contrário do homem primitivo, que não tinha restrições ao instinto – contudo não desfrutava dessa liberdade instintiva (apenas seu chefe o podia) – o homem civilizado “trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança” (FREUD, 1996, p.119)
Freud vê com bons olhos a crítica ao estado da civilização atual, como sendo o exercício de um direito justo dos que fazem parte dela e não como ataques inimigos à civilização. Acredita também que poderia haver, futuramente, alterações na civilização que contribuiriam para satisfazer melhor as necessidades dos que vivem nela.
O autor pondera, por outro lado, a possibilidade de se “familiarizar com a ideia de existirem dificuldades, ligadas a natureza da civilização, que não se submeterão a qualquer tentativa de reforma” (p.120). Esse trecho é muito importante para pensarmos o mal-estar estrutural na civilização, que, como concluímos baseados em Freud, é impossível não existir na convivência entre os homens, ou seja, está intrínseco a nossa forma de vida.
Ao afirmarmos que o mal-estar é estrutural, não estamos chancelando que não há espaço para o variável. É preciso perceber que as circunstâncias e a causalidade sempre terão espaço apesar da estrutura do mal-estar. É este motivo que faz o estudo de Freud permanecer sempre vivo e atual.
Freud chama-nos a atenção nesse momento para o perigo iminente de um estado de pobreza psicológica dos grupos. Esse estado seria a consequência de uma sociedade na qual os vínculos se comporiam pelas identificações dos sujeitos uns com os outros, deixando de lado a importância ou o destaque do líder na comunidade, ou seja, esse vai perdendo espaço dentro do grupo (p.120).
É possível compararmos este perigo alertado por Freud com a perda da autoridade na civilização moderna, quando um líder não tem mais importância frente ao grupo ou quando a tradição já não sustenta mais uma ordem sobre a qual podemos falar em nome de. Esses ajustes e alterações na civilização que o autor apresenta como possíveis de nos tornar mais felizes nesse ambiente, teria também seu outro lado, o perigo do estado de pobreza psicológica dos grupos, o que a nosso ver seria a crise pontual moderna vivida a partir do mal- estar estrutural da civilização.
Freud adianta parte do que vemos acontecer hoje em sua noção de estado de pobreza psicológica dos grupos. A nosso ver, essa hipótese é completamente cabível no modo de funcionar hoje o laço social contemporâneo, sendo, sob esta visão, o declínio da autoridade o
ponto de partida das mudanças causadas pela modernidade. Esse estado nada mais é do que o resultado do modo de operar que a modernidade inaugurou, ou seja, não havendo mais líder ou autoridade com atestada importância na formação do grupo, os vínculos são feitos apenas pelas identificações de uns com outros, igualando os pesos tanto de suas opiniões quanto de seus poderes na sociedade. Tal movimento acometeu também os professores e, por consequência, a Educação e é sobre isso que iremos tratar no subcapítulo seguinte.
Ainda desenvolvendo a ideia de Freud, parece-nos que a modernidade tardia inaugurou o “sem limites”, mas o que isso pode significar, já que, segundo Freud, é isso que buscamos em nossa miserável condição humana. Será essa liberdade sem limites que nos aproximará da felicidade?
Alain Touraine (1998) embarca nos questionamentos da empreitada moderna em seu livro Poderemos viver juntos? no qual, logo no início, já nos dá como resposta que, sim, já vivemos juntos “[...] bilhões de indivíduos veem os mesmos programas de televisão, bebem as mesmas bebidas, usam as mesmas roupas e, para se comunicar de um país a outro, usam também a mesma língua.” (p.9). Porém, segundo ele, isso não seria suficiente para afirmar que pertencemos a uma mesma sociedade ou cultura, pois a própria globalização por estar presente em todas as partes não pertence a lugar nenhum. Estaríamos nós pertencendo e construindo um mundo utópico, do qual acreditamos estar cada vez mais próximos e com isso nos distanciando cada vez mais em relações artificiais?
Touraine (1998) aponta para uma dessocialização na cultura de massa que “[...]faz com que vivamos juntos apenas à medida que fazemos os mesmos gestos e utilizamos os mesmos objetos, mas sem sermos capazes de nos comunicar além da troca dos signos da modernidade” (p.10). Segundo ele, ocorre, na contemporaneidade, um funcionamento inverso ao do século passado, durante a industrialização do mundo ocidental. Naquela época, as comunidades, fechadas em sua identidade global, estavam evoluindo para sociedades nas quais as funções entre os sujeitos se diferenciavam e se racionalizavam. Nesse ponto, corrobora com Freud, que afirma que a evolução da vida em sociedade seria pautada por um controle cada vez maior do mundo externo pelos próprios sujeitos, indicando, no entanto, que a vida moderna seria muito mais complexa. Hoje essa evolução é praticamente inversa, diz Touraine. Cada vez mais vemos grupos e associações que se juntam para restringir aqueles que querem viver sob uma mesma crença. “[...]as sociedades voltam a ser comunidades reunindo estreitamente, num mesmo território, a sociedade, a cultura e o poder sob uma autoridade religiosa cultural, étnica ou política[...]” (1998, p.10-11).
Nesse funcionamento, assistimos a um apelo à igualdade, ou seja, um incentivo para que todos vivam juntos e iguais. O autor alerta para a falsa sensação de que a globalização beneficia um mundo unido, o que nos faz mais uma vez conversar com Freud, considerando que ele já alertava para a ineficácia da máxima “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”, como uma tentativa de aproximar os sujeitos. Touraine (1998) reforça: “[...]quanto mais uma mensagem é transmitida massivamente, e sem ligação com o social, menos ela modifica comportamentos” (p.11).
Tendo esse cenário em mente, partiremos para a formação de um panorama da crise na Educação, continuando a desvendar as vicissitudes da vida moderna e seus sujeitos.