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Günümüzde Ekmeğin Yeri

BÖLÜM 2: TÜRK KÜLTÜRÜNDE EKMEK ĐLE ĐLGĐLĐ ĐNANIŞLAR

2.7. Günümüzde Ekmeğin Yeri

Diante do exposto, não há mais como não colocar em dúvida o modo como enxergamos a autoridade nos dias que se seguem hoje, afirmamos isso a partir da própria conclusão de Pereira:

[...] não restam dúvidas que a autoridade docente nos dias de hoje vem sendo radicalmente deslocada, que professores não mais encontram apoio num passado supostamente estável para o exercício de seu governo e nem modos sacralizados institucionalmente para evitarem seu desamparo. (PEREIRA, 2009, p.15).

Quase todos os ensaios que tratam de assuntos relacionados à vida moderna caem no mal necessário de se discutir a autoridade. Nosso caso não será diferente. Pensamos ser inevitável tornar um pouco mais visível a discussão sobre o campo da autoridade em uma reflexão trazida pelas áreas da Psicanálise e da Educação para que se edifique mais clara e consistentemente nossa construção posterior acerca da autoridade da palavra.

A palavra autoridade capta em seus sinônimos algo de sua posição na sociedade e nos dá indícios de sua importância, visto o intenso debate sobre seu declínio. São alguns de seus sinônimos: competência, prestígio, ascendência e influência14. É interessante notar que tais sinônimos definem sempre algo relacionado ao agente da autoridade e não aos que estão sujeitos a ela. Quando falamos em autoridade também nos vem à memória, as formas de poder, posicionamentos superiores na sociedade, na família, no poder público e até como uma forma de organizar a sociedade, enfim, exercer um comando. A palavra autoridade deriva do

latim auctoritas, que vem por sua vez de autor, que deriva de augere, fazer crescer15. Autoria também nos remete ao sentido de estar ali presente naquele momento como autor de algo.

É possível que, com tantos trabalhos já feitos sobre autoridade, ela poucas vezes hoje possa ser confundida com poder, violência ou autoritarismo, por esse motivo partimos para uma reflexão psicanalítica sobre o lugar que a autoridade ocupa no discurso pedagógico.

A palavra autoridade modificou-se com relação ao seu jeito de estar no mundo. Ao mesmo tempo em que é velada nas escolas e no discurso pedagógico, muitas vezes é chamada a ocupar o lugar vazio da causa dos problemas escolares, ou seja, quando os alunos não aprendem a justificativa é a falta de autoridade do professor.

A perda da autoridade deu-se em todos os campos da sociedade e tem sua forma mais extrema e mais crítica no âmbito da educação escolar e familiar, na perda da autoridade do professor sobre seus alunos. O discurso corrente é o de que já que a autoridade está perdida, ou devem os professores dar um jeito de retomá-la, pois só assim os alunos aprenderão ou a culpa recai mesmo nos professores, que não têm controle sobre a classe e que são deixados sozinhos com seus artigos sobre “como retomar a autoridade em sala de aula”. Girando, deste modo, em torno da nostalgia da autoridade de outrora que nunca saberemos se foi mesmo imprescindível e benéfica para seus discípulos.

Assumir a responsabilidade sobre crianças é se importar com elas e com o mundo, é querer transmitir uma cultura, um legado, ou nas palavras de Arendt (2013) é uma “responsabilidade que ele assume por este mundo” (p.239). “Ele” neste caso, seria o adulto, o mais velho e na escola, o professor.

Com relação a esse legado como renovação do mundo, Carvalho (2013b) alega que

[...] é em diálogo com esse legado que um indivíduo pode chegar a se constituir como sujeito: como alguém capaz de, ao mesmo tempo, pertencer a uma comunidade cultural e dela se distanciar, criticamente; alguém capaz de deitar raízes em um passado compartilhado, mas manter viva a faculdade humana de romper com suas amarras e criar o novo. (p.26).

Para Arendt chega a ser difícil definir o que é autoridade, já que não podemos “[...]recorrer a experiências autênticas e incontestes comuns a todos[...]” (2013, p.127), sendo assim, o termo perde algo de seu próprio lugar no mundo, dificultando sua explicação e até sua determinação.

Apesar da autora afirmar que a autoridade não existe mais, poderemos pensar que ela existe, mas de forma diferente. Assim, que forma teria tomado? Como poderia estar tão em

15 Disponível em: http://www.anthropos.com.br/280-textos-de-motivacao-e-sucesso/1099-a-autoridade-do-

foco, falar-se tanto de algo que já não existe mais? Por isso, abrimos a possibilidade de que a autoridade não exista mais da mesma forma, mas algo dela restou em nossos tempos: se ela ressoa no discurso é porque algo dela ainda (não) queremos saber. Tais apontamentos nos levam a pensar que ela talvez tenha se tornado uma autoridade sintomática.

Se não mais podemos recorrer a algo além de nós mesmos, nos agarrar a um discurso que nos marque e que seja comum – para que então possamos nos diferenciar – faz-nos pensar, qual palavra está sendo dirigida dos mais velhos aos mais novos?

Melman (2008) contribui para a reflexão sobre autoridade ao dizer que “Não há mais autoridade, nem referência, menos ainda saber que se sustente [...]” (p.17). É desse “saber que se sustente” que se trata quando estamos investigando sobre autoridade. Voltolini (2011, p.67) assevera que o termo autorização deriva de autoria, não à toa aqui lembrado, pois é disso que falamos, de estarem ali (os professores), presentes com sua autoria para que sejam autorizados em sua fala.

Kupfer (2007a) também se ocupou dessa temática ao tratar da psicanálise no campo social e no discurso da educação, esclarecendo que, caso faltem “[...]redes de sustentação que possam remeter os sujeitos a uma tradição, a um passado, a significações capazes de orientar as ressignificações do futuro, estamos jogados em um mundo fragmentado” (p.143). Ao dizer isso, a autora alerta para uma fragmentação do mundo em imagens que têm sentido absoluto, sentidos que começam e terminam ali naquela imagem, naquele momento, ou seja, promovem um saber totalizante, sem a inserção de um enigma, sendo que o enigma por sua vez é aquilo que permite a aprendizagem.

A autora faz essa reflexão na esfera da educação ao dizer que o professor de nosso país está sozinho, pois “[...] não encontra mais uma rede de sustentação social para o exercício de seu mandato” (KUPFER, 2007a, p.143), ele é deixado a mercê das expectativas ambíguas tanto do professor mestre, aquele que tudo sabe, quanto do professor moderador da aprendizagem, aquele que deve igualar-se aos seus alunos. Para ela, tal fenômeno não ocorre porque os professores não têm a quem se associar ou programas de melhoria do ensino – como as formações continuadas. Deve-se, sim, ao fato de que “[...] o professor não representa mais nada, não fala em nome de uma ordem trans-histórica que o supera, e está jogado à sua imediata e trágica particularidade.” (KUPFER, 2007a, p.143).

Sendo o trans-histórico, segundo a autora, aquilo mesmo que sustenta a ordem, a tradição, a herança, aquilo que ultrapassa as barreiras da história para que não precisemos “[...]sustentar em nome próprio a cultura” (KUPFER, 2007a, p.144).

Neste ponto, chamamos a atenção para o tom nostálgico que aparece, pois, apesar de não podermos deixar de notar que algo não vai bem com a educação contemporânea, não seria cabível supor que é de uma retomada da autoridade que necessitamos, pois, conforme já nos alertou Arendt, a crise serve para repensar conceitos e dar-lhes respostas novas ou velhas, ou seja, reformular, tecer novas posições dos sujeitos contemporâneos na sociedade. Apesar da trágica particularidade na qual o professor se vê jogado, ele terá que se haver com essa posição (tentando mudá-la ou não) e de seus alunos. Por esse motivo, nossas reflexões acerca da autoridade da palavra são necessárias para entendermos os efeitos do que chamaremos de esvaziamento.

A desautorização docente já é tema recorrente nos estudos sobre educação e nas falas dos professores. Pereira(2009) resumiu a discussão em uma pergunta que estamos tentando desvendar: Será que a profissão docente sofre mesmo da desautorização ou é a própria autoridade que está sendo modificada em nossos tempos? (p.15). Para ilustrar, citaremos um trecho de uma reportagem sobre autoridade na revista Nova Escola: “Ficar irritado, gritar e castigar os que não se comportam como você quer – atitudes autoritárias e retrógradas - não adianta nada. Quando se tenta impor disciplina, a submissão e a revolta aparecem. Hoje, isso não se sustenta mais. O mundo é outro.” (MOÇO, 2009)16.

Consideramos que a profissão docente vem passando por diversas mudanças no imaginário social, no mercado e nas suas posições de trabalho, assim como vimos no decorrer da história das revoluções liberais. Porém, o que se verifica é uma transformação da autoridade para todos os âmbitos da sociedade de forma a estremecer todo tipo de relação na contemporaneidade. A reflexão que nos permitimos é que já não nos comunicamos mais da mesma forma, não nos vestimos mais da mesma forma, não acreditamos mais nas mesmas coisas; nossas relações mudaram. Portanto, não há nada mais cabível do que a autoridade ter sido modificada. Não afirmamos tal coisa a ermo; Charles Melman, a esse respeito conclui que: “há uma nova forma de pensar, de julgar, de comer, de transar, de se casar ou não, de viver em família, a pátria, os ideais, de viver-se. A emergência de uma nova economia psíquica é evidente[...]” (MELMAN, 2008, p.15). Com uma nova economia psíquica organizando os sujeitos, a autoridade estaria também comprometida, assim também afirma o mesmo autor. Para ele, a autoridade foi eliminada, pois com o desaparecimento do limite não poderia existir mais o lugar de onde este se legitima e se sustenta. (p.25).

16

O que parece incomodar é que, ao contrário de algumas profissões, que aparentemente conseguem dar conta desse novo sujeito contemporâneo, a docência não se encaixa nesse circuito. Ou seja, por maiores que sejam os esforços debruçados sobre a educação, ela ao que nos parece não funciona da mesma forma, ela não é eficiente sob a ótica de mercado e do discurso da ciência (ainda bem, diga-se de passagem). Atribuímos essa diferenciação exatamente pela educação ser um âmbito que trata da fala, da palavra e consequentemente de seu impossível, como já tratamos anteriormente.

É fato, porém, que a profissão docente foi acometida de considerável desgaste intelectual, cultural e econômico e que, no imaginário social, a saudosa noção de mestria, harmônica e sem conflito, cedeu lugar a um profissional sucumbido à massificação industrial, comunicacional e tecnológica de hoje. (PEREIRA, 2009, p.16).

Desastroso é pensar que mesmo passando por toda sorte de inovações e pesquisas a escola não alcançou prestígio e excelência no imaginário social. O autor define um desgaste do ofício docente. Ao dizer que o professor é agora um profissional que sucumbiu à massificação, retomamos a ideia de Touraine (1998) de que “[...]quanto mais uma mensagem é transmitida massivamente, e sem ligação com o social, menos ela modifica comportamentos” (p.11). Ou seja, a escola atingiu a maioria das ambições da empreitada moderna: torná-la laica, pública, gratuita e para todos, porém, a modernidade tardia cobrou seu preço pela transmissão em massa de ideias sem ligação com o social, como apontou Touraine.

Não podemos deixar de lembrar que esse professor de outrora, teoricamente autorizado em sua função, querido pelos alunos, que reverberava prestígio social, existiu primeiramente na medida do imaginário social da época e também no momento em que a escola limitava-se a ensinar uma pequena parte da população. Não estamos querendo dizer com isto que a má educação de nossos tempos possa ser justificada apenas por estes pontos, mas acreditamos ser importante ressaltá-los para que a comparação seja menos desigual. Enfim, o foco desta pesquisa não é comparar ou confirmar um momento ou outro da educação, é, sim, discutir e refletir sobre o sujeito contemporâneo na escola que é “desautorizada” em suas palavras.

Concordamos que há um sintoma educacional contemporâneo (PEREIRA, 2009), na medida em que é um discurso que se repete, mas ao mesmo tempo nada se quer saber dele, apenas descobrir formas de fugir da crise.

Sobre o professor, Moser define “Era seu saber e experiência acumulada que lhe permitia ser visto como representante de um discurso constituído – da Razão e da Cultura – ao qual cabia responsabilizar-se e apresentar aos alunos” (MOSER, 2012, p.29). A partir dessa colocação de Moser, sobre a função que o professor tinha em Roma, nos perguntamos por que esta fórmula não é mais eficaz e também se os professores ainda se utilizam desse lugar para transmitir algo.

A autora explica que esse professor transmitia não somente saberes, mas sim visões de mundo a partir do ensino da disciplina com a qual tinha íntima filiação (p.29). Em outras palavras, as disciplinas eram pretextos para o aluno enganchar no saber. É a partir da história do Brasil, por exemplo, que o aluno pode tecer laços com um mundo comum, com a vontade de saber mais sobre aquele assunto, assim, ele pode identificar-se fora de si e sair do engodo de si mesmo. Relembramos, nesta ocasião, a frase de Durkheim (1978) “É a sociedade que nos lança fora de nós mesmos, que nos obriga a considerar outros interesses que não os nossos[...]” (p. 45). Transportando esta locução de Durkheim para a educação, é possível supormos que a educação também deve-se prestar a nos lançar fora de nós mesmos, a educação poderia ser pensada, neste caso, como descentramento17, ou seja, como uma palavra que ao fazer laço nos tire de um circuito ensimesmado e permita buscar novos enfrentamentos.

Benzer Belgeler