1. GİRİŞ
1.1. Kuramsal Yaklaşımlar ve Kapsam
As últimas décadas do século XX foram marcadas por um amplo desmantelamento de direitos sociais e trabalhistas, protagonizado por poderoso lobby empresarial e apoio parlamentar nas democracias liberais do centro capitalista, mas que se espraiaram, com suas particularidades, por toda a periferia do capitalismo. De forma avassaladora, um profundo processo de expropriação de direitos foi levado a cabo, assegurando, por outro lado, a sobrevivência legal e a permanência das instituições democráticas liberais, conservando, ainda, os processos eleitorais, os quais contavam com a forte sustentação midiática e parlamentar (FONTES, 2010).
Ainda de acordo com Fontes (2010), os ataques aos direitos sociais ocorreram a partir de um duplo movimento de coerção: o primeiro se deu pela ameaça de demissões, de deslocamentos de empresas, de eliminação de postos de trabalho em geral; o segundo, pela coerção efetivada, por meio da imposição de tais ameaças ou pelo enfrentamento de reminiscentes resistências sindicais. Desse modo, aprofundaram-se as formas de convencimento,
Em geral lastreadas em táticas comuns empregadas em diferentes países, evidenciando não apenas a imposição de políticas formuladas em polos comuns de dominação [...] mas também como um aprendizado comum, uma vez que tais táticas foram também utilizadas no interior dos países predominantes, seja nos Estados Unidos ou nos países europeus. (FONTES, 2010, p. 55).
Na América Latina, desde o final da década de 1940 os interesses norte- americanos foram paulatinamente se afirmando em todo o continente como forma de consolidar o capitalismo. O ingresso das megacorporações marcou a entrada do capital financeiro, responsável pela desnacionalização das indústrias latinas, configurando um quadro de subserviência do capital interno às economias do centro. Assim, as indústrias nacionais foram absorvidas pelo capital estrangeiro dominante, que passou a contar, ainda, com a atuação incisiva dos organismos multilaterais de crédito, tais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, que, por intermédio do sistema da dívida pública impôs uma condição de extrema dependência e subalternidade às economias latinas.
Desse modo, é neste cenário marcado por aspectos históricos que remontam aos investimentos diretos de capital externo em forte atuação com seus braços institucionais (organismos multilaterais de financiamento, corporações e governos locais) — articulado com as burguesias nacionais latinas posicionadas de modo dependente e subserviente, com inclinações parasitária e burocrática, em descompasso com as condições materiais de vida da própria população latino-americana — que o neoliberalismo se processou após os anos de 1980 e estendeu seus efeitos desertificantes por toda a década de 1990 (ANTUNES, 2004).
As políticas econômicas de ajustes neoliberais implementadas na América Latina, de forma geral, objetivaram a ampliação da integração dependente das economias latinas na divisão internacional do trabalho — este cada vez mais globalizado —, a racionalização da participação do Estado na economia de forma articulada com os interesses financeiros forâneos e a liberalização dos mercados mediante a desregulamentação e desoneração das movimentações financeiras, preços e das atividades produtivas em nome de uma suposta competividade no mercado global.
Assim, como forma de tornarem-se cada vez mais atrativos para o capital financeirizado, os governos locais promoveram forte reorientação dos marcos legais de regulamentação das relações econômicas, políticas e sociais destes países, por meio de ampliações de incentivos fiscais e de desregulamentações trabalhistas, privatizações e
endividamento externo, operando uma espécie de ―[...] simbiose entre a proposição política
De acordo com Behring (2008), as reformas neoliberais se expressaram principalmente na dívida pública dos países latinos, sendo este o principal mecanismo de pressão das economias centrais sobre os governos locais, alterando, assim, as condições em que os Estados-nações articulavam os compromissos institucionais e arbitravam os conflitos entre os grupos sociais no espaço nacional. Esta prática possui estreita ligação com as operações destinadas, por exemplo, aos salvamentos bancários.
Tais operações deslocam os fundos públicos de modo a injetar ainda mais recursos no sistema da dívida pública, por meio da transferência direta de recursos. Outra
engrenagem utilizada para drenar recursos para o sistema da dívida é a ―[...] criação de fundos
financeiros destinados a acumular recursos públicos para solucionar os problemas do setor
financeiro ou para o pagamento de dívidas‖ (FATTORELLI, 2013, p. 63). Desse modo,
operou-se profundo fracionamento social e territorial, vez que, ao seguir o modelo econômico estabelecido pelos organismos multilaterais e economias centrais, viu em risco sua própria soberania, demarcando ainda mais o terreno político, econômico e ideológico dessas reformas.
É possível apontar que houve importantes transformações no cenário político latino-americano a partir do momento em que forças políticas de esquerda e centro-esquerda, após os anos 2000, começaram a ocupar os governos em diferentes países, tais como Venezuela, Brasil, Argentina, Equador, Uruguai e Bolívia. Pode-se anotar, ainda, que se observou certo refluxo das políticas de cunho neoliberal no período, prevalecendo uma agenda de maior integração política e econômica entre esses países, maiores esforços no combate à pobreza e às desigualdades sociais. Entretanto não se pode apontar que aconteceu um rompimento efetivo com a lógica neoliberal.
A rigor, os setores que continuaram recebendo os maiores aportes de recursos encontram-se no interior da plutocracia nacional e internacional. No Brasil, os setores rentistas responsáveis pela criação dos valores fictícios nos balanços contábeis — que superexploram a força de trabalho nos mais variados ramos da indústria e serviços e operam intensos processos de expropriação no campo e na cidade —continuaram atraindo a grande parte das riquezas nacionais (FONTES, 2010).
Após o ano de 2008, o mundo parece cada vez mais em dúvida em relação ao que fazer para debelar a crise que se abateu sobre as economias globais. Não bastassem os imensos desafios econômicos que se apresentam, paira certo mal-estar sociológico e intelectual (LÉVY; DUMÉNIL, 2014, p. 192), que parece bloquear a força criativa de formas
diferenciadas de superação do atual quadro. Para Levy e Duménil (2014), o atual estágio do neoliberalismo somente pode ser apreendido na medida em que o tomamos como expressão de uma nova fase na evolução do capitalismo, quando consideradas as reminiscências de sua
grande crise estrutural da década de 1970, pois ―[...] expressa a estratégia das classes
capitalistas aliadas aos administradores de alto escalão, especificamente no setor financeiro, de reforçar sua hegemonia e expandi-la globalmente‖ (LÉVY; DUMÉNIL, 2014, p. 11).
Suas características passam por uma poderosa concentração do poder econômico nas instituições financeiras, resultante da combinação de transformações no âmbito da arquitetura corporativa e financeira. Nesse estágio de desenvolvimento do capital em nível global, é possível observar a articulação de padrões mais complexos de classes e suas frações, combinada com a ascensão de uma camada estreitamente gerencial, em geral pertencente aos extratos médios da população e responsável pela manifestação de uma contradição entre a propriedade (posse do capital) e sua gestão.
A atual crise tornou mais evidente os limites do atual sistema sociometabólico (MÉSZÁROS, 2002), suas contradições e a perversa arquitetura financeira global, permitindo que se vislumbre as fissuras de um modelo de acumulação que se pretende sem fim, na forma de um crescimento composto indefinido — crise que revela seu caráter cada vez mais
―insustentável‖. Para que se construa uma alternativa viável, mostra-se cada vez mais
necessário que se rompa o bloqueio que parece impedir a formação de um movimento global anticapitalista. Este acontecimento, por sua vez, deve integrar uma dupla dimensão: ―[...] a relação entre a visão do que fazer e por que e a formação de um movimento político em determinados lugares tem de ser transformada em uma espiral. Uma tem de reforçar a outra, para que algo possa ser feito‖ (HARVEY, 2011, p. 184).
Entretanto, rastrear quais atores sociais são capazes de viabilizar uma alternativa anticapitalista não é tarefa fácil. Harvey (2011) aponta para a possibilidade histórica de uma ampla aliança entre os descontentes/alienados e destituídos/sem posses. Trata-se de uma espécie de tipologia dos agentes da transformação social capazes de possibilitar a efetivação da construção de uma frente anticapitalista, segundo o geógrafo. A fim de melhor caracterizar esses tipos, Harvey (2011) aponta que o primeiro grupo, os descontentes e alienados, ―[...] são constituídos por todos aqueles que, por qualquer razão, veem o atual caminho de desenvolvimento capitalista como uma via que leva a um beco sem saída, se não a uma catástrofe da humanidade‖ (HARVEY, 2011, p. 194).
Muitas seriam as razões que alimentariam a descrença e a indignação dos descontentes e alienados com o atual estado de coisas, envolvendo desde preocupações com a crescente predação do meio ambiente e uma possível catástrofe ambiental que nos assombra até sentimentos políticos ou morais de repúdio à pobreza de massa e às desigualdades crescentes. Em relação aos intelectuais pertencentes a este grupo social, caberia aprofundar, de modo crítico, o debate sobre as formas de mudar o curso do desenvolvimento humano, enfatizando o modo de desenvolvimento capitalista, sua dinâmica e seus problemas sistêmicos decorrentes de seu crescimento composto, de forma a contribuir com a definição mais ampla dos quadros e contextos em que podem ocorrer mudanças revolucionárias.
Por outro lado, Harvey (2011, p. 195) adverte que ―[...] não é o papel dos alienados e descontentes instruir os destituídos e despossuídos sobre o que devem ou não fazer. Mas o que nós, que constituímos os alienados e descontentes, podemos e devemos fazer
é identificar as causas subjacentes aos problemas que enfrentamos‖. Para isso, é necessário que esses se aproximem ―[...] àqueles cujas condições de trabalho e vida são mais
imediatamente afetadas por sua inserção na circulação e acumulação de capital‖ (HARVEY, 2011, p. 195).
Em relação aos destituídos e despossuídos, Harvey (2011) identifica dois grandes grupos: enquanto alguns são atacados em sua capacidade criativa por meio de um processo de trabalho comandado pelo capital — ou Estado capitalista —, outros são privados de seus bens, impedidos de ter acesso aos meios materiais de sobrevivência ou mesmo privados de bens imateriais como história, memória social, cultura e formas de sociabilidade, tudo em nome da acumulação do capital.
A primeira categoria pode ser associada à figura clássica dos trabalhadores operários que atuavam nas fábricas e nas minas do capitalismo industrial, combatendo as condições de exploração que se mostravam muito evidentes entre meados do século XIX e a primeira metade do século XX. Nos dias de hoje, após as profundas mudanças ocorridas no sistema capitalista e contrariando o pensamento de certas correntes de vanguarda da esquerda, devem ser incluídos neste grupo o conjunto dos trabalhadores das florestas e do campo, aqueles que atuam no setor informal, nos limites da urbanização, e que se ocupam de atividades intermitentes em diversos setores da economia — como no de serviços em geral e
na construção civil, convivendo, ainda, com baixos salários e trabalhos temporários e precários67.
A segunda categoria dos despossuídos é mais complexa e de difícil caracterização. Trata-se do conjunto de indivíduos aglutinados pelo processo que o autor denomina
―acumulação por espoliação‖. Embora longa, vale a pena registrar as palavras de Harvey
(2011) na citação a seguir:
A lista dos destituídos e despossuídos é tão imponente como longa. Inclui todas as populações camponesas e indígenas expulsas da terra, privadas de acesso a seus bens naturais e modos de vida por meios ilegais e legais (ou seja, sancionados pelo Estado), coloniais, neocoloniais e neoimperialistas, e forçosamente integrados ao mercado comercial (em oposição ao escambo e outras formas costumeiras de troca) pela monetização e tributação violenta. A conversão de direitos de bem comum em direitos de propriedade privada da terra conclui o processo. A terra se transforma em mercadoria. Essas formas de expropriação, ainda existentes, mas mais fortemente representadas nas fases iniciais do desenvolvimento capitalista, têm muitos equivalentes modernos. Capitalistas abrem espaços para a reabilitação urbana, por exemplo, ao desapropriar populações de baixa renda de espaços de elevado valor com menor custo possível. Em locais sem direitos de propriedade privada assegurados, como na China ou ocupações na Ásia e América Latina, expulsões violentas das populações de baixa renda por parte das autoridades estaduais muitas vezes dão o tom com ou sem acordos de compensações modestas. Em países com direitos de propriedade privada firmemente estabelecidos, expropriações públicas sob a égide de leis que ditam os usos da terra podem ser orquestradas pelo Estado em nome do capital privado. Por meios legais e ilegais as pressões financeiras (isto é, impostos sobre a propriedade e as rendas crescentes) são exercidas sobre as populações vulneráveis. Parece, por vezes, como se houvesse um plano sistemático para expulsar as populações de baixa renda e indesejáveis da face da terra. (HARVEY, 2011, p. 197, grifo nosso).
Harvey (2011) faz referência a um longo processo de expropriação e exploração de populações que possuem graus de profunda vulnerabilidade social, cuja fragilidade se mostra ainda maior nos momentos em que frações de classe que dominam economicamente a sociedade, muitas vezes aliadas ao Estado, exercem seu poder ao promover a ampliação da reprodução de suas riquezas mediante a corrosão dos direitos sociais básicos de cidadania de extensas parcelas da população.
67―Muitas vezes referido, hoje em dia, como precariado (para enfatizar o caráter flutuante e instável de seus
empregos e estilo de vida), esses trabalhadores têm sempre representado um grande segmento da força de trabalho total. No mundo capitalista avançado se tornaram cada vez mais proeminentes nos últimos trinta anos devido a mudanças nas relações de trabalho impostas pela reestruturação societária neoliberal e pela desindustrialização.‖ (HARVEY, 2011, p. 196).