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Taranan Haber Sayıları

4. Bulgular

4.1. Taranan Haber Sayıları

O cenário político revolucionário e a eclosão da Revolução Russa em 1917 levou à fundação do Partido Comunista Chinês (PCC) em 1921. Formado principalmente por intelectuais (Chen Duxiu, Mao Tsé-tung, Wang Jinmei e outros), nele ficou estabelecido o apoio à revolução operário-camponesa, a ideia de libertação nacional e a aliança com o Kuomintang. A raiz do movimento político comunista na China estava o movimento de 4 de Maio, que carregava um sentimento de autodeterminação que alimentou a fundação do PCC.

40 A referência à democracia na China não está relacionada, como no Ocidente, à ocorrência de eleições livres pelo voto em pleitos com o objetivo de escolher representantes políticos, mas a uma perspectiva baseada em princípios de respeito e igualdade na busca de harmonia social.

41 POMAR, Wladimir. A Revolução Chinesa. São Paulo: Editora UNESP, 2003, p. 43.

42 CHENG, Anne. Confucionismo. In: SANJUAN, Thierry (Org.). China contemporânea. São Paulo: Edições 70, 2010, p. 126.

A República governada pelo Kuomintang não conseguiu superar as estruturas de poder de subordinação da China ao capital imperialista devido principalmente aos vínculos produtivos entre a liderança política composta pela burguesia chinesa que buscou preservar as correntes de negocio com as potências estrangeiras, o nacionalismo presente no Estado não se realiza efetivamente, apenas serviu como justificativa ideológica para romper com o Estado monárquico em 1911.

A manutenção do quadro de descontentamento social continuava, os movimentos nacionalistas questionavam o instável governo republicano e a influência das potências imperialistas nele. A situação de desestruturação do tecido social chinês, caracterizado pela grande desigualdade social, disseminação do ópio, prostituição e jogos, motivavam grupos intelectuais a resistir à presença estrangeira. Cada vez mais o nacionalismo libertador transformava-se em bandeira comunista. A própria fundação do Partido Comunista Chinês em Xangai não ocorreu por acaso, porque essa cidade estava dividida territorialmente pelas potências imperialistas, que eram denominadas concessões estrangeiras. Além disso, a cidade era o principal centro comercial e financeiro, conhecida como sede principal dos interesses estrangeiros na China.

Lenin43, atento à questão nacional, apontou a condição da Ásia, a situação colonial da região, subordinada às grandes potências capitalistas, e destacou ainda o Japão como sendo, naquela conjuntura, um Estado nacional independente burguês, daí sua ação imperialista. O movimento do capitalismo acionado por potências industriais na Ásia levou à eclosão de movimentos nacionais, cuja tendência é a formação de Estados nacionais na região. Os movimentos nacionais estão ligados ao processo de transição do feudalismo para o capitalismo; a formação de Estados nacionais representava um processo histórico do mundo civilizado, que, devido a fatores econômicos, adequava-se à necessidade do capitalismo moderno. Nesse sentido, a compreensão do significado da autodeterminação das nações, entendida como a separação estatal das coletividades nacionais estrangeiras, é fruto das condições histórico-econômicas.

Nesse sentido podemos compreender que, embora o ideal nacional se relacione com o campo burguês, a luta pelo Estado-nação na China na esfera do direito à autodeterminação relaciona-se também com as classes populares e com a situação de região oprimida, porque representava uma superação de estruturas retrógradas. Dessa forma, a construção de uma nova

43 LENIN, Vladimir. Sobre o direito das nações a auto-determinação. In: Obras Escolhidas V. I. Lisboa: Avante, 1977, p. 255-320.

consciência no âmbito da questão nacional representava uma porta política de unidade que deveria ser acionada como condição de libertação de forças estrangeiras.

Na formação social chinesa, a fetichização da comunidade nacional não representou um produto ideológico simplesmente da dominação da classe burguesa, mas sim um anseio ideológico formado por um complexo entrelaçamento de revoltas populares, de intelectuais e de setores sociais, inclusive de uma parte da burguesia descontente com a presença estrangeira. A apropriação da ideologia nacional do movimento representava um anseio de libertação, em que havia um processo vinculado a interesses de classes sociais descontentes com as condições histórica e material.

Devido ao cenário de crise de governo da República e de legitimidade de poder que não se realizou efetivamente desde a tomada de poder em 1911, na década de 1920 a China mergulha em guerra civil: de um lado, os nacionalistas do Kuomintang e os comunistas, num grupo que, embora heterogêneo, formava uma coalização que reunia a vontade de novas forças políticas; do outro lado, o grupo conservador, liderado pelos senhores da guerra, que dominavam territórios principalmente no norte do país, camada herdeira da velha China apoiada no latifúndio e marcada pela exploração do trabalho do camponês.

No decorrer da guerra civil contra os senhores da guerra, a aliança entre nacionalistas e comunistas foi efêmera, porque as alianças de base dos dois partidos com as forças sociais eram divergentes essencialmente entre os dois grupos. Os quadros revolucionários do PCC perceberam o movimento de interesse de preservação das estruturas de poder por parte dos dirigentes do Kuomintang, devido ao relacionamento desse partido com o capital estrangeiro, o que era inconcebível para os comunistas. Ao mesmo tempo, no decorrer da guerra civil, os membros do PCC detectaram a importância dos camponeses como força revolucionária. Para Mao Tsé-tung, para a realidade social chinesa, a luta revolucionária cabia às associações de trabalhadores rurais.

Durante a guerra civil, as associações de camponeses sob orientação comunista formaram movimentos na defesa da reforma agrária, através do combate aos chefes latifundiários e seus exércitos privados. O movimento instituía uma nova organização nas comunidades, baseada em novas categorias: os honestos e os bandidos. Essa nomenclatura demonstra o caráter revolucionário com que as associações enxergavam a guerra civil, não limitado a uma disputa política pelo poder, mas como uma necessidade de reestruturar a organização socioeconômica da China. Do ponto de vista político, as associações rurais passaram a constituir uma nova base política nas regiões, com poder de determinar novos

costumes, estabelecer leis que descentralizavam a autoridade central em favor de cooperativas de camponeses.

O radicalismo político das associações camponesas influenciava o movimento operário. Obviamente, esse processo de crescimento do poder popular causava cada vez mais um estranhamento na aliança entre nacionalistas e comunistas, já que os nacionalistas governistas representavam os interesses da burguesia local, que mantinha laços com o capital estrangeiro. Em 1925, após a morte de Sun Yat-sen, o Kuomintang nomeou como novo chefe de governo o conservador Chiang Kai-shek, fato que provocou um estranhamento ainda maior entre os partidos.

Dessa forma, a divisão partidária profunda impedia a construção de um país unificado, porque os interesses sociais eram conflitantes em termos de projeto político. Em 1927, ocorre o rompimento definitivo entre as forças nacionalista e comunista, após a conquista de Nanquim e Xangai pelo exército revolucionário formado pelo operariado de Xangai. Com a participação de aproximadamente 800 mil trabalhadores e organizado por comunistas, este conseguiu libertar as cidades dos senhores da guerra e entregou-as aos nacionalistas. No entanto, Chiang Kai-shek ordenou um massacre às organizações operárias na região.44

Esse acontecimento fortaleceu a direção de Mao Tsé-tung no interior do PCC, porque Mao defendia a tese segundo a qual o movimento revolucionário deve ter como base os camponeses. Historicamente, Mao é identificado como um revolucionário de luta camponesa no campo do marxismo45. A estratégia de combate do “timoneiro” percebia que as condições de subordinação e dominação estrangeira da China tenderiam a alargar a adesão no decorrer do processo revolucionário, que alcançaria outras classes sociais em situação de exploração.

Com isso, uma nova guerra civil se cristalizou na China entre nacionalistas, que na prática não tinham aspirações efetivamente nacionais, e comunistas, que passaram a se identificar de fato com o ideal nacional. Dessa forma, o pensamento marxista trazia bagagem intelectual à luta pela libertação das potências imperialistas e portanto conseguia amarrar o ideal nacionalista com o comunista que brotava como fruto do descontentamento que marcava a China após décadas de opressão estrangeira.

O desgastado governo nacionalista de Chiang Kai-shek decidiu, como suporte ideológico de poder, valorizar a velha doutrina confucionista, que se encontrava em franca

44 NAVES, Marcio Bilharinho. Mao: O processo da Revolução. São Paulo: Brasiliense, 2005, p. 20. 45 A expressão de proletário para Mao Tsé-tung era influenciada pela expressão chinesa wuchan chiech-chi

(classe sem propriedade). Em 1928, Mao Tsé-tung sugere que vagabundos rurais e outros setores sociais semelhantes poderiam ser transformados em vanguarda revolucionária proletária através da junção da prática revolucionária com estudos no sentido de fortalecer a ideologia proletária. (HARRIS, L., KIERNAN V.G., MILIBAND R. Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 342.)

decadência, como forma de legitimar sua autoridade como representante do Estado, instituindo o culto civil de Confúcio e considerando a doutrina como religião, filosofia e moral do Estado46. As classes sociais conservadoras apoiavam o governo Chiang Kai-shek e buscavam refúgio ideológico para validar sua condição social por meio da filosofia confucionista, que compreendia a exaltação de valores de respeito à hierarquia. Dessa forma, contribuíam para o imobilismo político e social na China e tentavam do ponto de vista estratégico conter o movimento revolucionário popular, que ganhava um fôlego cada vez maior junto aos revolucionários comunistas.

O caráter de vanguarda revolucionário era desempenhado pelos líderes do PCC, que se aglutinavam na Universidade de Pequim, o principal centro intelectual da China. Ali a realidade chinesa era interpretada através do pensamento marxista, porém a base social revolucionária dos comunistas era alicerçada pelas associações de camponeses, que por sua vez tinham membros capacitados por membros comunistas. Segundo Hobsbawm47, a constituição do caráter nacional do socialismo dava-se através dos intelectuais de origem nas classes alta e média, nas quais nasciam as lideranças de movimentos políticos do século XX, assim como através do sentimento entre a população pobre chinesa, que identificava os estrangeiros como elemento invasor negativo.

Dessa forma, o nacionalismo na China se constitui como uma ideologia libertadora, em que as classes sociais descontentes com a estrutura de poder vigente passam a se enxergar no plano ideológico como pertencentes a um espaço nacional do ponto de vista histórico. Essa articulação da ideologia nacional com o socialismo foi construída no sentido de questionamento da posição subordinada da sua formação social, que trazia uma percepção de deficit de soberania no Estado. Nesse sentido, a compreensão ideológica vinculava o ideal de autonomia das instituições política a um meio de obtenção de direitos igualitários.

Como estratégia de luta, Mao Tsé-tung defendia no interior do PCC a criação de um poder vermelho, no qual as associações camponesas poderiam sobreviver mesmo cercadas pelo poder branco, representado pelos membros nacionalistas ou senhores da guerra. Nesse contexto, a China era um país completamente fragmentado, convivia com a divisão interna de

46 MARTINS, Maria. Ásia maior: o planeta China. 2. ed. Brasília: Ministério das Relações Exteriores/Fundação Alexandre de Gusmão, 2008, p. 112.

47 HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 449.

interesses e ainda guardava a presença de estrangeiros em possessões territoriais, e do ponto de vista da estrutura era um país atrasado economicamente e semicolonial.48

O poder militar dos camponeses se fixou nas montanhas de Chingqang. Nessa região formou-se a primeira base maoísta, composta por 10 milhões de habitantes. Mao influenciou o exército de camponeses a utilizar métodos de auxílio ao povo do campo, ao invés de métodos de terror. Nessa conjuntura, nas associações camponesas que foram sendo constituídas eram abolidos a prostituição, a escravidão de crianças, o consumo de ópio e o casamento forçado; no campo produtivo, a terra era distribuída aos camponeses, e criaram-se empresas coletivas.49

Para Anderson50, a tomada de poder pelo PCC se constituiu em um processo no qual os revolucionários paulatinamente foram subtraindo suficiente território ao longo de quase um quarto de século, numa ação de criação de um “antiestado”. Dessa forma, estabeleceu-se uma situação de crise de legitimidade, através da corrosão do poder de força e consentimento do Estado governado pelo Kuomintang.

O ano de 1934 assinala um importante acontecimento simbólico caracterizado por uma grande proeza dos comunistas, liderados por Mao, que lutavam contra as forças do Kuomintang. A frente militar de Chiang Kai-shek estava equipada com artilharia e aviação modernas, fornecidas pelos Estados Unidos, e ainda contava com a cooperação técnica de dois generais alemães. Para evitar um esmagamento total das forças comunistas devido à força incomparavelmente superior do Kuomintang, Mao realizou uma retirada que salvou as força comunistas, caminhando uma média de trinta e cinco quilômetros por dia, num percurso de doze mil quilômetros, no interior da China. Esse episódio conhecido na historia chinesa como a “Grande Marcha”, expõe a composição social popular dos comunistas, assim como os interesses que estavam em jogo na guerra civil da China. O apoio internacional ao governo de Chiang Kai-shek era um sinal evidente de que o conteúdo da realização dos interesses nacionais estava associado ao grupo comunista.51

A ocupação de várias províncias chinesas por forças japonesas em 1937 interrompeu a guerra civil entre nacionalistas e comunistas. Para Anderson52, invasão nipônica foi determinante na posterior tomada de poder pelos comunistas, porque, apesar da resistência

48 MAO, Tsé-tung. Por que pode existir na China o Poder Vermelho. In: Obras Escolhidas Tomo I. Pequim: Edições do Povo, 1952.

49 NAVES, Marcio Bilharinho. Mao: O processo da Revolução. São Paulo: Brasiliense, 2005, p. 20. 50 ANDERSON, Perry. Dos Revoluciones. New Left Review, n. 61, p. 59-96, jan.-fev. 2010, p. 58.

51 MARTINS, Maria. Ásia maior: o planeta China. 2. ed. Brasília: Ministério das Relações Exteriores/Fundação Alexandre de Gusmão, 2008, p. 34.

heroica dos revolucionários no episódio da Longa Marcha, a superioridade militar do Kuomintang teria resultado provavelmente na vitória sobre o PCC ao final da década de 1930. A conquista japonesa foi caracterizada por extrema violência, com assassinatos em massa e queima de aldeias. A tomada de Nanquim em 1937 simboliza a crueldade do exército nipônico. Durante a ocupação, ficou registrada a morte de cerca de 300.000 pessoas em apenas em seis semanas, devido ao massacre efetuado pelas tropas japonesas, incluindo atos de assassinato em massa e estupro contra civis chineses.

A resistência dos comunistas chineses à ocupação japonesa no contexto da Segunda Guerra através da mobilização de resistência de massa nas áreas ocupadas transformou a imagem dos dirigentes comunistas perante o povo chinês. Anteriormente seus membros eram vistos como um grupo de agitadores sociais, porém, devido a sua atividade de defesa, passaram a ser legitimados como representantes efetivos do povo chinês. A reação efetiva do exército vermelho arregimentava as milícias camponesas e, dessa forma, a resistência adquiria um novo status de legitimidade. Ao contrário dos comunistas, as forças nacionalistas de Chiang demonstravam uma baixa capacidade de resistência ao invasor; assim, a luta dos comunistas contra os japoneses potencializou o seu poder porque associava o caráter nacional ao ideal de libertação, de luta pela emancipação das massas.53

Dessa forma, havia um processo de enraizamento social do PCC na China que combinava a luta social com o nacionalismo, o qual adquiria um caráter anti-imperialista. Durante a guerrilha eram estabelecidas reformas nas aldeias, por meio da redução dos aluguéis, do cancelamento de dívidas e da redistribuição de terras. Durante o período de ocupação japonesa, de 1937 a 1945, o PCC cresceu de 40.000 para 1.200.000 membros e seu exército de 90.000 para 900.000.54

Após a rendição japonesa, a guerra civil entre o Kuomintang e o Partido Comunista Chinês foi retomada. O cenário de corrupção e inflação assolava a autoridade política do governo de Chiang Kai-shek, cuja base, formada principalmente nas áreas urbanas das regiões Central e Sul, passou a sofrer derrotas frente ao constante aumento de tropas do exército comunista.

Em 1949, a vitória revolucionária dos comunistas sobre o Kuomintang se efetivou na criação da República Popular da China. Dessa forma, no decorrer do processo revolucionário chinês, a construção do nacionalismo se transformou em um movimento de massa a partir da realidade material de exploração vivida pelo contato com o estrangeiro. Devido à resistência

53 NAVES, Marcio Bilharinho. Mao: O processo da Revolução. São Paulo: Brasiliense, 2005, p. 41. 54 ANDERSON, Perry. Dos Revoluciones. New Left Review, n. 61, p. 59-96, jan.-fev. 2010, p. 60.

aos japoneses, os membros do PCC adquiriram a autoridade moral de conduzir o conteúdo retórico de libertação nacional, que teve como elemento crucial a expansão do nacionalismo nos setores populares da sociedade.

Benzer Belgeler