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Araştırmacılara yönelik öneriler

5. Sonuç, Tartışma ve Öneriler

5.3. Öneriler

5.3.2. Araştırmacılara yönelik öneriler

No período de transformação pós-Deng Xiaoping, o processo de inserção da China no capitalismo foi constituído por continuidades e rupturas que evidentemente influenciaram de forma direta o comportamento da intelectualidade chinesa. Como o sistema político chinês não está aberto à participação popular, diferentes grupos sociais e intelectuais buscam mecanismos para influenciar o processo de reconstrução do Estado, no sentido de problematizar a direção ideológica do desenvolvimento da China, e acabam desempenhando um papel relevante na busca da interpretação da realidade social e do espaço da China no sistema internacional.

Nos anos 1980, havia uma forte tendência liberal em favor das reformas de abertura econômica e de um programa que implementasse uma reforma política que democratizasse o regime chinês. A intelectualidade estava mobilizada na defesa de valores ocidentais e ao mesmo tempo de crítica à cultura tradicional chinesa. No entanto, o movimento político de liberalização foi interrompido pelo governo após o episódio da praça Tiananmen em 1989, como discutido anteriormente nesse trabalho. A partir daí, o debate passou a ter uma tendência de conservadorismo político.

Na década de 1990, uma série de acontecimentos internacionais influenciou a intelectualidade chinesa a questionar os valores liberais ocidentais, o que levou a um deslocamento de ideais para a defesa do nacionalismo e para um maior apelo de controle social pelo Estado. O desastre do processo de liberalização econômica e política realizado pela Rússia representava um importante ponto de reflexão para os intelectuais chineses sobre os riscos do processo de inserção na globalização. A crise financeira que alcançou as regiões da América Latina, Europa Oriental e Sudeste Asiático entre 1995 e 1998 foi mais uma prova da debilidade de uma abrupta desregulamentação episódio, e o bombardeio da OTAN à

embaixada chinesa em Belgrado contribuía para a intelectualidade chinesa identificar que a retórica norte-americana dos direitos humanos dirigida à China baseava-se em objetivos geopolíticos. No plano interno, as reformas do governo expunham a contradição de um modelo de desenvolvimento que obteve um grande crescimento econômico, porém produziu enormes disparidades na distribuição da riqueza. O risco de tensão social devido ao aumento da incidência de corrupção entre os quadros do PCC criava um temor quanto aos rumos da China.126

A divisão da intelectualidade chinesa contemporânea não remete a um movimento político de retomada de valores efetivamente socialistas de igualdade ou a um refluxo histórico de estrutura socialista característico do período maoísta, mas sim ao debate político centrado em questionar a forma de inserção da China na economia capitalista e o papel do Estado nesse processo histórico.

Para os dirigentes do PCC, a expansão econômica e um equilíbrio social baseado na economia capitalista representam o principal catalisador social de apoio para a estabilidade política e a manutenção do Partido no controle do poder.

Devido à grande dimensão alcançada pela China e ao seu próprio histórico de perda de soberania, há uma grande preocupação de pensadores chineses que tradicionalmente representam a consciência da nação e são chamados para orientar membros da burocracia estatal. O movimento contemporâneo desses intelectuais segue duas linhas: a “Nova Direita” e a “Nova Esquerda”.127 Os dois grupos influenciam o futuro da China quanto ao tamanho do Estado, à forma política e à natureza do poder.

A chamada Nova Direita, formada principalmente por economistas liberais, como Zhang Weiying, ligado à Universidade de Pequim, defende a tese do livre mercado. Esse grupo entende que a planificação econômica é a causa do despotismo político, e que a defesa da propriedade representa o elemento de liberdade de uma sociedade democrática fundante de uma nova sociedade civil na China. Claramente representa uma frente de intelectuais fortemente influenciados pelo pensamento teórico liberal ocidental.

Essa corrente política pode ser vista como um tipo de revival teórico de interesses do liberalismo que se produziram na década de 1980. As forças pró-liberais foram forçadas a “desaparecer” depois do incidente de Tiananmen, mas o aumento dos problemas sociais forneceu-lhes a abertura para recuperar algum espaço público entre os intelectuais chineses. O

126 YONGNIAN Zheng. Globalization and State Transformation in China. Cambridge: Cambridge University Press, 2004, p. 165.

grupo defende valores tradicionais embasados na retórica ideológica de direitos universais, na supremacia dos valores individuais e na valorização da democracia constitucional, e dirige a sua crítica à Nova Esquerda sob o argumento de que, enquanto o Estado muitas vezes priva as pessoas de direitos, o mercado ajuda a sociedade a percebê-los128. Nota-se nessa passagem a influência teórica de Milton Friedman129, um dos principais representantes da corrente neoliberal do pensamento ocidental norte-americano, na formação da Nova Direita intelectual chinesa.

Para esta, os problemas da disparidade social são produto da preservação de sistemas econômicos e políticos ultrapassados, que somente podem ser resolvidos através de uma inserção completa do capitalismo na dinâmica do desenvolvimento da China, de uma valorização da propriedade privada, que não é plenamente protegida pela Constituição, permitindo uma contraproducente influência do sistema político e garante grande poder aos quadros dirigentes do PCC nas decisões do Estado. Logo, para a Nova Direita, sem alterar o sistema político é improvável resolver os problemas da China.130

Atualmente, o grupo de ideólogos defensores do mercado enfrenta a forte oposição da opinião pública, devido aos custos sociais da reforma, como a demissão de trabalhadores e as demolições. Em pesquisa de opinião, representam o grupo menos popular na China, semelhante aos chefes do tráfico e vendedores de automóveis no Reino Unido.131

Por outro lado, a Nova Esquerda é composta principalmente por reformistas que se desencantaram com os ideais de modernização importados do Ocidente e se constituem como ideólogos defensores da igualdade e da democracia política. O grupo é chamado de “novo” porque, diferente da velha esquerda, apoiam as reformas em direção ao sistema capitalista, mas se preocupam com a questão da desigualdade. Wang Hui, professor da Universidade de Tsinghua, é uma referência no grupo e defende que a China deve encontrar um modelo de Estado próprio que reflita práticas coletivistas.132

Para Cui Zhiyuan, ligado à Nova Esquerda, a China pode sobreviver ao mercado sem cortar os salários e a proteção aos trabalhadores. A chave para o futuro do capitalismo chinês

128 YONGNIAN Zheng. Globalization and State Transformation in China. Cambridge: Cambridge University Press, 2004, p. 167.

129 Friedman (1912-2006) foi um dos principais pensadores econômicos dos Estados Unidos no século XX. Identificado como defensor da corrente neoliberal, a sua principal obra, Capitalismo e Liberdade, representa no plano político uma defesa do livre mercado como caminho da liberdade na sociedade; em contraponto, realiza severas críticas à intervenção do Estado.

130 YONGNIAN Zheng. Globalization and State Transformation in China. Cambridge: Cambridge University Press, 2004, p. 167.

131 LEONARD, Mark. O que a China pensa? São Paulo: Larrouse, 2008, p. 34. 132 Ibid., p. 48.

é uma filosofia de inovação perpétua, através do desenvolvimento de novos tipos de empresas e instituições sociais que unam competição e cooperação. Questões como cuidados médicos, participação política dos trabalhadores no rumo das empresas, combate à corrupção e desenvolvimento verde compõem a agenda da Nova Esquerda chinesa.133

O papel do Estado, para a “Nova Esquerda”, deve ser fortalecido no sentido de evitar que o financiamento de obras públicas se transforme em investimentos improdutivos. O Estado deve priorizar como política um estímulo ao consumo interno, que se realizará quando o Estado criar uma rede de proteção social. Para a Nova Esquerda, as reformas progressivas de liberalização econômica características da posição política da Nova Direita conduzem a crescentes problemas como a corrupção e o abuso dos direitos humanos dos trabalhadores.

Segundo Yongnian134, os intelectuais da Nova Esquerda criticam a estratégia de desenvolvimento orientada para a exportação. O argumento é baseado na retórica nacional, segundo a qual esse modelo de desenvolvimento afetará no longo prazo a sobrevivência nacional da China, por causa da grande vulnerabilidade que o país adquire perante a sociedade internacional: em caso de pequena alteração do ambiente mundial, a economia chinesa ficaria debilitada. Além disso, o Ocidente não está predisposto a aceitar a ascensão política da China no capitalismo mundial. Há uma revalorização da economia rural entre os pensadores da Nova Esquerda, com clara influência ideológica do maoísmo, que reserva um papel relevante no modelo de desenvolvimento chinês ao ganho do setor rural coletivo, como estratégia para reduzir as disparidades de renda, a partir do fortalecimento das EAVs, que seriam adaptadas às novas condições existentes na China.

Mobo135 associa a posição da Nova Esquerda chinesa à ascensão da ideologia nacionalista, um nacionalismo contemporâneo com um novo olhar, que não carrega uma rejeição absoluta a valores ocidental e nem a defesa de um isolacionismo internacional, que se apresenta mais aberto para o mundo, diferentemente do nacionalismo do período maoísta. No seu discurso ideológico, o atual nacionalismo valoriza o passado tradicional chinês e argumenta que o modelo ocidental de modernização não é o único passível de realização, que a China deve procurar um modelo alternativo, baseado na defesa de valores sociais abrangentes assentados na igualdade e na justiça social.

133 LEONARD, Mark. O que a China pensa? São Paulo: Larrouse, 2008, p. 50.

134 YONGNIAN Zheng. Globalization and State Transformation in China. Cambridge: Cambridge University Press, 2004, p. 182.

135 MOBO, Changfan Gao. The Rise of Neo-Nationalism and the New Left. In: LIEW, Leong H.; WANG, Shaoguang (Org.). Nationalism, Democracy and National Integration in China. London: Routledge Curzon, 2004. p. 44-62.

Há uma analogia com rios utilizada entre os intelectuais na discussão dos rumos do capitalismo chinês: o grupo da Nova Direita é associado ao chamado “Capitalismo do Delta do Rio Pérola”, enquanto a Nova Esquerda ao “Capitalismo do Rio Amarelo”. Essa nomenclatura refere-se às diferenças de interesses regionais ao longo da história chinesa, na qual a região Sudeste, banhada pelo Rio das Pérolas, esteve ligada a interesses de mercado, a uma China integrada a valores internacionais, que por interesses materiais e proximidade cultural com os países ocidentais tende a defender maior integração no processo de internacionalização do capitalismo, enquanto o Rio Amarelo representa a região Nordeste, base da tradição histórica chinesa, que está presa historicamente a valores do passado e teme que o processo de inserção na dinâmica do capitalismo internacional provoque a perda da soberania da China. Assim como o maoísmo, a Nova Esquerda chinesa resgata valores de justiça social e associa-se à ideologia nacionalista, porém, evidentemente, num contexto contemporâneo e sob nova roupagem.

A força política de mobilização social da Nova Direita e da Nova Esquerda encontra- se no fato de que ambas podem atrair forças sociais como suporte político às reformas econômicas em direção ao capitalismo. A posição política da Nova Direita no campo intelectual aproxima-se dos anseios de grupos empresariais, principalmente exportadores, que ocupam regiões costeiras no sudeste chinês. Estes compõem setores que foram bem-sucedidos com as reformas capitalistas, muitos deles associados ao capital estrangeiro, e que defendem a menor intervenção do Estado na estrutura econômica. O desenvolvimento das últimas décadas permitiu a constituição de classes ricas e a formação de uma ascendente nova classe média, que canalizam em grande parte o seu apoio político para esse grupo.

Por outro lado, a intelectualidade da Nova Esquerda tem sua inspiração política em setores da sociedade chinesa ideologicamente apegados ao nacionalismo. Para esse grupo, as transformações decorrentes do desenvolvimento representam um caminho que ameaça a coesão social do país, sob o argumento de que desencadeiam as disparidades sociais e regionais. Para ele, é papel do Estado estabelecer uma estratégia política de conduzir as estruturas econômicas de forma a criar uma sociedade harmoniosa e preservar os valores tradicionais da China. O apoio de classe da Nova Esquerda está associado à parcela da sociedade que empobreceu no decorrer do processo de modernização econômica, formado principalmente por migrantes rurais que se deslocaram para os grandes centros urbanos, somados à parcela de trabalhadores que foram dispensados por empresas estatais. Esse grupo composto por aqueles que foram marginalizados no processo de enriquecimento da China nas últimas décadas tende a simpatizar com as posições da Nova Esquerda.

De qualquer forma, a posição da intelectualidade chinesa da Nova Direita e da Nova Esquerda, apesar das restrições apontadas pelo último grupo, converge para o prosseguimento das reformas em direção ao sistema capitalista. A diferença está na forma de inserção na dinâmica internacional: a composição orgânica do Estado liberal voltado para o modelo de desenvolvimento ocidentalizado de valorização do privado em detrimento do coletivo, e direcionado para a forte integração na dinâmica do capitalismo internacional, posição da intelectualidade da Nova Direita, ou um Estado forte associado à preocupação de justiça social e autonomia no modelo de desenvolvimento, em que se construa sobre bases próprias e se priorize a sociedade chinesa em detrimento das forças de mercado, advogado pelos pensadores da Nova Esquerda.

Assim como na bifurcação do pensamento estratégico chinês, o processo de desenvolvimento provocou transformações estruturais que se refletiram por toda a sociedade chinesa e desencadearam fortes pressões políticas na burocracia estatal do PCC. A divisão da intelectualidade chinesa reflete a polarização ideológica vivida pela China no século XXI.

Benzer Belgeler