• Sonuç bulunamadı

1. GĠRĠġ

1.4. Süperiletkenlerin Bazı Temel Özellikleri

1.4.2. Kritik Manyetik Alan (H c )

O itinerário feito por Célia, da infância à juventude, parece marcado por muita rigidez, seja na educação que recebeu pela família ampliada109, seja na sua forma de compreender e ver o mundo.

Minha infância não foi lá muita coisa não, eu comecei a ter obrigações muito cedo. Com mais ou menos oito anos eu acordava as cinco horas da manhã, pegava o leite no curral e começava a ajudar a empregada da família a fazer o café da manhã. Depois eu cuidava das galinhas — ah, isso eu gostava de fazer, mais para meio-dia, eu ia apanhar alguma fruta que fosse da vez. [...] Estudava à tarde. Sempre estudei à tarde. Como eu morava no interior, [...] demorava a chegar na escola. Saía no pico do meio-dia para estudar. A gente ia a pé ou de carroça. E foi assim até lá pelos meus doze anos. [...] Mas me lembro de sempre gostar de ir pra escola (informação verbal)110.

Quando fez 12 anos, a família com quem morava mudou-se para a cidade de Sobral111 a fim de que seus filhos cursassem uma faculdade, e Célia os acompanhou. Daquele momento em diante, ela passou a ser a única responsável, junto com a mulher que lhe criara, pelas atividades domésticas. Por isso, passou cerca de oito anos sem estudar. Seu lazer era ver novela e ir à igreja. Considera-se muito religiosa, pois já leu a Bíblia mais de uma vez. Gosta muito de ler textos da internet a respeito da vida de atores e atrizes da televisão: “uma das coisas boas da internet é que agora a gente fica sabendo de tudo” (informação verbal)112.

Apesar da infância difícil, ela ressaltou que fora a oportunidade que tivera diante de uma vida simples de crescer e ter contato com pessoas que lhe ensinou a se comportar e ser educada. “Isso nunca me revoltou, não, sempre fui consciente que eu poderia ter vivido numa pobreza só, se não tivesse sido criada pela dona [...].” (informação verbal)113.

Quando ela tinha 22 anos, a mulher que a havia criado faleceu, e Célia decidiu voltar para a cidade de Crateús. Ela retomou o contato com algumas pessoas que conheceu quando ainda era criança e passou a morar com uma vizinha da sua antiga casa. Foi em Crateús que retomou os estudos e começou a pensar sobre sua vida como mulher adulta e sozinha. Até então, evitara pensar sobre isso, preferia seguir sem muito planejamento ou reflexão, parecia ser tudo muito repetido e automático, organizava sua vida da forma como a família onde morava o fazia. Em outras palavras, apenas seguia, antigamente, a sua vida como uma espécie de apêndice da vida da família com quem vivia e trabalhava.

109 Família ampliada se refere a outros membros da família nuclear. 110 Entrevista realizada em agosto de 2017.

111 Sobral fica distante 200 km de Crateús. Muitos serviços públicos são referenciados para Sobral, e não Fortaleza.

112 Entrevista realizada em agosto de 2017. 113 Entrevista realizada em setembro de 2017.

Em três anos, concluiu o ensino fundamental e médio na EJA; narrou, orgulhosa, que a professora achava que ela demoraria mais um ano. Após concluir os estudos, a vizinha com quem morava a incentivou a fazer o Enem, fez sua inscrição e a acompanhou no dia da prova.

Minha antiga vizinha, com quem eu morava em Crateús, é professora de uma escolinha, ela batalhou muito para se formar, é muito inteligente e hoje tem uma vida boa graças ao estudo. Ela me explicou tudo sobre o Enem. Me emprestou o computador dela, me falou sobre a redação. Os três anos que fiz, foi ela quem me disse tudo. No último ano, o que entrei na UFC, nós conversamos sobre o tema que caiu na redação (informação verbal)114.

Célia morou aproximadamente quatro anos com sua antiga vizinha, e tornaram-se grandes amigas. Conheciam-se desde criança e sempre tinham tido uma boa relação, mantendo contato mesmo à distância. Nesse período, conseguiu um emprego de vendedora, ganhava meio salário para trabalhar um expediente e contribuía com as despesas da casa.

Uma análise do percurso escolar de Célia mostra que a família, como espaço de socialização, não esteve presente. Embora morasse com pessoas escolarizadas, tivesse acesso a um patrimônio de disposições e capital cultural diferenciado — tendo em vista que estava inserida numa família cujos filhos estavam no ensino superior, a matriarca exercia uma profissão e apresentavam posses —, eles não pareciam ter muita influência ou incentivá-la a continuar estudando.

Não podemos concluir que os estudos eram relegados a um segundo plano, mas é evidente a ausência de um projeto de escolarização que apontasse para um ingresso no ensino superior. Percebemos a inexistência, até o retorno aos estudos, de uma disposição para perseguir uma ascensão social por meio da educação escolar, muito comum em pessoas oriundas de camadas populares.

De acordo com Lahire (2004), as disposições são um produto incorporado de uma socialização passada, constituindo-se mediante a repetição de experiências semelhantes. Provavelmente, durante a infância e juventude, Célia não vivenciou experiências que lhe afirmassem a importância de uma vida escolar. “Eu ia para escola quando dava, quando tinha vontade, não ficava reprovada porque, quando ia, prestava muita atenção” (informação verbal)115. Estudar ou não estudar, a partir do discurso produzido, parecia ser uma decisão unicamente dela, mesmo quando, pela pouca idade, ainda não tinha condições de decidir.

114 Entrevista realizada em setembro de 2017. 115 Entrevista realizada em setembro de 2017.

O contato com a trajetória escolar da amiga que era professora e tinha conseguido uma mudança social através dos estudos suscitou a crença na importância de possuir formação superior e pode ter despertado um patrimônio de disposições referente à esfera da escola. Essa disposição poderia estar em estado de vigília e, num contexto de mobilização (contato com a amiga professora), foi despertada.

O mais engraçado é que nem eu sabia que eu gostava tanto de estudar. Quando fui para o EJA parecia outra Célia. E olhe que lá ou você decide estudar ou não consegue terminar, porque não tem aula todo dia, não tem professor fazendo cobrança. É você quem faz seu estudo. E eu fiz bem rápido. Ainda ensinei dois colegas que fiz lá. Eles não aprendiam com a professora plantonista, mas aprendiam comigo. Era para concluir tudo em quatro anos e conclui em menos de três, um pouquinho (informação verbal)116.

4.1.2 Estratégias de permanência e êxito no ensino superior: integração e afiliação à vida

Benzer Belgeler