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1. GĠRĠġ

1.4. Süperiletkenlerin Bazı Temel Özellikleri

1.4.7. Çentici Tipleri

Quando Célia ingressou na UFC, tornou-se difícil continuar trabalhando como vendedora, tendo em vista que o curso tinha disciplinas nos turnos da manhã e da tarde. Esse foi o primeiro obstáculo encontrado. Logo em seguida, recebeu a notícia de que sua amiga com quem morava havia sido aprovada num concurso em outra cidade e, em menos de dois meses, precisaria se mudar.

As circunstâncias fizeram com que ela pensasse em desistir do curso. Faltou, inclusive, a primeira semana de aula, acreditando que não seria possível mesmo estudar. Naquele momento, a prioridade era encontrar um lugar barato que pudesse alugar para morar e torcer que seu emprego fosse mantido. Mas a amiga conhecia algumas pessoas que faziam parte de uma associação de moradores de um assentamento rural na cidade de Independência e estavam precisando de alguém que pudesse organizar a parte burocrática da associação. Ela falou sobre Célia, e eles ofereceram meio salário como remuneração e moradia num quarto ao lado da associação, para que ela pudesse trabalhar e estudar.

Somente após 15 dias que as aulas haviam começado foi que Célia teve condições de assistir à sua primeira aula. Ela fora morar em outro município, na zona rural, aceitando a oportunidade de emprego que havia surgido, e todos os dias pegava carona no ônibus que a prefeitura disponibilizava para deslocamento dos alunos que estudavam em Crateús. Acordava

às quatro e meia da manhã e somente conseguia chegar à cidade de Independência por volta das seis e meia, horário em que o ônibus saía. Assistia o dia inteiro de aula, almoçava no restaurante universitário e retornava às dezesseis horas da tarde, trabalhando na associação no turno da noite.

No primeiro semestre, das seis disciplinas que estava cursando, reprovou três. E novamente pensou em desistir. “O pensamento era que eu tinha me esforçado tanto e não tinha dado”. Os professores reconheciam sua persistência e vontade de estudar, mas segundo ela, eles diziam que era preciso muito mais, era preciso algo que ela não tinha: “a tal da base”.

Muita gente da sala ficou reprovada, a maioria era gente que vinha de escola pública ou estava sem estudar fazia um tempo. Os professores estão sempre repetindo que as matérias do primeiro semestre são as que exigem uma base do ensino médio e até do Fundamental. Eles dão a matéria e dizem assim: isso aqui vocês viram no ensino médio e vão pra frente, como se todo mundo soubesse [...]. Nós nos reunimos, falamos com a diretora, e ela disse que no semestre seguinte ia ter uns grupos de monitoria para ajudar. Eu é quem reúno o povo, porque tem muita gente novinha que não fala nada, sabe? Vão só aceitando (informação verbal)117.

O grupo de alunos reprovados no primeiro semestre passou a se ajudar nos semestres seguintes, estudavam juntos, e muitas vezes Célia dormia na casa de uma das colegas em Crateús para ficar menos cansativo o dia seguinte. O trabalho na associação era bem flexível; a exigência de sua presença era somente três dias na semana, quando havia reuniões de agricultores.

Após o primeiro semestre, segundo Célia, as coisas foram melhorando. Ela foi se adaptando à rotina acadêmica. Até o quarto semestre não tinha tido outra reprovação. O grupo de amigos permaneceu junto estudando e seus integrantes, inclusive, já haviam apresentado trabalhos em um evento na cidade de Sobral. Recentemente, ela havia participado da seleção para uma bolsa de iniciação acadêmica, porém não obtivera êxito. Ela justificou devido as reprovações nas disciplinas iniciais. “Meu histórico ficou sujo até resto do curso” (informação verbal)118.

A próxima tentativa de conseguir alguma bolsa de integração acadêmica seria o auxílio-moradia119. O valor seria suficiente para conseguir maior qualidade no seu percurso universitário. Para complementar a renda, Célia ainda se submetia a outra jornada de trabalho:

117 Entrevista realizada em agosto de 2017. 118 Entrevista realizada em agosto de 2017.

119 O auxílio-moradia é conhecido pelos alunos da UFC como bolsa de integração acadêmica. Os estudantes passam por uma seleção que consiste na entrega de documentos comprobatórios da situação socioeconômica dos estudantes, entrevista e, em alguns casos, visita domiciliar.

fazia doces para vender na faculdade e aceitava encomendas. Esse acúmulo refletia diretamente em sua vida: menos tempo de descanso e, igualmente, menos tempo de estudo.

Os fatos rememorados e contados por Célia como um encadeamento de ações pertencentes a um tempo quase que presente sinalizam como vem se dando sua permanência na universidade. Após as reprovações no primeiro semestre, ela percorreu um caminho diferente do esperado que seria se desinteressar pelo curso. Lima Junior (2012), ao desenvolver estudos sobre a evasão no curso superior de física constatou que o fracasso escolar assume um forte fator de desencadeamento da desistência do estudante em continuar o curso. Todavia, com a reprovação ela despertou um comprometimento (uma motivação) para permanecer estudando que pode ser explicada pelo apoio do grupo de colegas e pelas ações ofertadas pela instituição como monitorias, espaços de estudo, interações com os professores e oferta de auxílios e bolsas para alunos em situação socioeconômica vulnerável. Podemos dizer que ela deu início à integração a vida acadêmica, incorporando disposições para agir e crer nas possibilidades que um ensino superior pode ofertar.

Ainda encontro algumas dificuldades, o curso de Engenharia Civil é difícil. Temos muitas responsabilidades, muita coisa para estudar, mas hoje está bem mais fácil. Posso dizer que descobri o caminho. Já conheço tudo na UFC, converso com os professores, tiro dúvidas fora da aula. Até organizamos uma semana acadêmica com outros cursos. Eu vim até aqui (IFCE) divulgar. Passamos nas salas. [...] Eu apresentei um trabalho que tinha feito em grupo na disciplina de hidráulica (informação verbal)120.

Os compromissos acadêmicos assumidos, como participação e organização de eventos, apresentação de trabalhos e estudos em grupo, atualizavam o comprometimento e as intenções de Célia em permanecer no curso, sendo atributos fundamentais, de acordo com Tinto121 (apud LIMA JUNIOR, 2012), para a integração acadêmica e social à universidade.

Percebeu-se que a trajetória escolar analisada nesse retrato teve uma forte mobilização de agentes externos, como os colegas de curso, a amiga professora e os professores. Os componentes de socialização escolar ofertados por esses grupos permitiram que Célia elaborasse um projeto próprio de escolarização e fosse construindo uma autodeterminação para seguir esse projeto.

120 Entrevista realizada em setembro de 2017.

121 O modelo explicativo de prevenção à evasão de Tinto (1987) encontra-se desenhado e explicado na obra de Lima Junior (2012, p. 226).

Benzer Belgeler