Todos os aspectos aqui relacionados e analisados podem ser examinados nos prontuários das consultas do ANEXO A.
a) Informações demográficas, aspectos culturais e circunstanciais no momento da perda:
O esposo de Mônica traz influência alemã para a família cuja dinâmica vincular e estrutural se mostra saudável. Contam com amigos, portanto, seu grupo familiar tem bom suporte social, encontrando-se todos integrados ao meio em que vivem. A família localiza-se na faixa econômico-social das famílias de classe média ascendente.
A evolução no acompanhamento psicológico, através dos prontuários, demonstrará um sistema de crenças familiares cujos membros esforçam-se para extrair algum significado a partir do luto, fazendo uso de conhecimentos relacionados à fé católica, na direção de perspectivas o mais positivas possível diante da dor e da adversidade compartilhadas por todos.
Os padrões organizacionais familiares apresentam bom nível de flexibilidade e mobilidade para administrar as mudanças, há conexão entre os membros, inclusive, durante as etapas de dor aguda, o bom uso de recursos sociais e econômicos a serviço de todos. Dinâmica expressa, por exemplo, no relato acerca da notícia da morte de Clara e da construção e do enfrentamento do ritual fúnebre, presentes nas consultas iniciais, em que os membros da família unem-se e se auxiliam dividindo tarefas e cuidando uns dos outros.
O processo de comunicação familiar tende à clareza, à expressão emocional relativamente aberta e à resolução cooperativa das dificuldades com boas noções sobre respeito às diferenças e acolhida de todos os membros. Pode-se dizer que Mônica é parte de uma família com características resilientes.81
Quando a morte de Clara aconteceu, a família encontrava-se no estágio 5 do ciclo vital familiar, denominado lançando os filhos e seguindo em frente,82 cujo processo emocional de transição-chave está em aceitar várias saídas e entradas no sistema familiar, exigindo mudanças de segunda ordem no status familiar, necessárias para que todos possam prosseguir com seu desenvolvimento, tais como: renegociar o sistema conjugal agora como díade; desenvolver o relacionamento com os filhos (de adultos para adultos), realinhar relacionamentos para incluir parentes por afinidade e netos; lidar com limitações físicas, incapacidades, mudança de ritmo de vida e a morte dos avós. Portanto, a morte de Clara sobrecarrega ainda mais a família em suas demandas que, decorrentes do ciclo vital de desenvolvimento familiar, já recebia exigências.
Antes do falecimento de Clara, Mônica já se considerava na terceira idade e ponderava sobre a vivência dessa etapa planejando a possibilidade de morar na praia como era de seu desejo desde sempre.
A saída de Bruno para o casamento lhe trazia uma boa sensação de dever cumprido com a certeza e a alegria de que ele estaria feliz com Clara construindo sua própria família. A morte de Clara interrompeu essa homeostase e fluência natural da vida familiar, bem como a vida de Mônica, impondo, de modo repentino e violento, grande mobilização e inusitadas demandas.
b) Fatores relacionados à perda
Quando a morte de Clara ocorreu, Mônica e sua família encontravam-se estáveis, não havia doenças ou outras crises simultâneas preponderantes no momento da perda.
A morte violenta e repentina de jovens em acidente de trânsito, como no caso de Clara, enquadra-se no luto traumático.
81 WALSH, F. Fortalecendo a resiliência familiar. São Paulo: Rocca, 2005. p. 41‐126. 82
CARTER, B.; MCGOLDRICK, M. As mudanças no ciclo vital familiar. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. p. 17.
O fato de Clara e Bruno estarem em vésperas de casamento, ou seja, vivendo um momento de grande realização, vitalidade e alegria, torna-se outro complicador para a elaboração do luto, uma vez que a morte invade todos, impondo sentimentos radicalmente opostos aos que vinham experienciando, fator que tende a incrementar a intensidade dos sintomas familiares e pessoais, previstos para o enfrentamento do luto, além dos já citados na revisão bibliográfica anterior.
Em Mônica estão presentes os seguintes sintomas expressos claramente em seus prontuários:
− intenso impacto e perda da sensação de segurança para viver e planejar o futuro (estilhaçamento do mundo interno como presumido antes da perda, bem como das noções anteriores de asseguramento), manifestado como um imenso choque que galvaniza o físico e o psiquismo, que, na morte da jovem, traz intensa carga emocional também por se apresentar completa e absolutamente na contramão do esperado no ciclo vital;
− absoluta mobilização espiritual, cognitiva, comportamental, social, emocional, biológica, incluindo os sintomas de rigidez muscular e alterações na pressão arterial;
− na cognição; pensamentos invasivos e recorrentes sobre a perda, intenso gasto de energia psíquica na tentativa de assimilar a realidade da perda, expressa nos movimentos que incluem os verbos da elaboração do luto: recordar, sentir, repetir, reconhecer, expressar, integrar conteúdos novos, concluir, ressignificar, aplicar a realidade, testar organizações prévias e reorganizações, reconstruir, manter, ampliar e generalizar compreensões, novos significados para a vida e adaptação às mudanças impostas pela perda;
− gasto de energia com o impacto da notícia, com o trabalho de elaboração no cuidado com todos da família, uma vez que a paciente vê-se como e ocupa o papel de cuidadora; contato com desestabilizações e desorganizações da família como um todo, fator que também causa receios, desgaste e perda de energia global, que deve ser temporária de acordo com as necessidades especiais, atenção e cuidados psicológicos, suporte e estímulos em vista da faixa de idade de Mônica, no momento em que a morte aconteceu em seu ciclo vital, todos dados de atenção no acompanhamento psicológico;
− a dor da perda que, no caso de Mônica, assemelha-se, em muito, a um luto materno, experienciada em três vias: a sua dor como mãe e amiga de Clara, seu amor por ela, a dor do filho que experimenta a ruptura, na solidão abrupta, tão jovem e a dor da família que corresponde ao amor que todos tinham e têm por Clara.
− preocupação diante da necessária reorganização da convivência familiar de todos e o medo de novas perdas, incluindo tensão e hipervigilância; − cuidados em razão de sequelas traumáticas;
− sensação de esvaziamento e falta de referências internas para a vida; − suspensão, revisão e/ou readequação de todos os planos que já eram
experimentados em conjunto, referentemente ao casamento dos jovens na família;
− sensação de injustiça e falta de preparação ou antecipação diante da morte, intensa ansiedade e medo, próprios da violência sentencial nesse tipo de circunstância de morte, mutilação emocional, destituição da vida para os jovens, tanto para Clara quanto para Bruno que tiveram seus planos de vida interrompidos, invasão, castração e desequilíbrio, fragmentação das noções de mundo, revolta, ambivalência, pensamentos persecutórios em relação à perda e confusionais, cansaço e tristeza profundos;
− dificuldades para voltar a confiar na vida, a ter esperanças e também sonhar.
Portanto, pode-se dizer que Mônica apresentou, nos primeiros meses de atendimento, traços de Estresse Pós-Traumático, de acordo com o previsto na vivência de um luto como tal.
No entanto, seus recursos a auxiliaram na elaboração e no enfrentamento das dificuldades; não apresentou risco de fragmentação psíquica, suicídio, depressão, ou luto crônico, e as somatizações puderam ser trabalhadas.
c) Exame das condições mentais e recursos do paciente
Mônica chega à clínica nos primeiros meses com aparência bastante abatida, porém não descuidada. À medida que se recupera, é visível fisicamente um certo grau de vitalização que lhe traz de volta pensamentos mais leves, cores mais
leves e cuidados com o corpo que incluem boas atividades de descanso e relaxamento.
Inicialmente, como esperado para pacientes com grande nível de stress, Mônica apresentou-se bastante agitada, com ansiedade acima do moderado e atormentada por sentimentos e pensamentos relacionados à dor e a todos os temores que a invasão vivida lhe impôs.
No entanto, se, por um lado, suas racionalizações a atormentavam também indicavam uma excelente capacidade para a lógica, o raciocínio e insights, um modelo instrumental; poder-se-ia até dizer que um leve traço obsessivo, conduzido pelo cuidado psicológico, mesclou-se com ferramentas para um desenvolvimento emocional saudável em meio à dor e ao caos, oscilando entre razão e emoção, na atenção da paciente, nos cuidados com o luto e com a vida ao mesmo tempo. Esse fator desenvolveu em Mônica algumas ampliações de consciência e talvez novas habilidades para tolerar e administrar intensas emoções, lidar com a vida quando ela fugiu da sua lógica primeira. Portanto, as habilidades cognitivas de Mônica foram muito úteis e preciosas.
No que se refere ao seu discurso e à linguagem, sua comunicação e o processo de pensamento, cujo conteúdo partiu sempre do princípio da realidade, têm expressões honestas, suas entregas no espaço terapêutico potencializaram os cuidados psicológicos emergenciais e posteriores, facilitando, em muito, o trabalho de fluência no processo de assimilação e elaboração das diferentes etapas do luto.
A paciente mostra-se hábil para rever decisões e compreensões, flexível para reconsiderar caminhos e apropriada de uma crença espiritual que, a despeito de todas as angústias e questionamentos vividos durante a crise, parece favorecê-la no enfrentamento das dificuldades e da vida.
A partir de todos esses aspectos até aqui ponderados, conclui-se psicologicamente que, embora Mônica elabore intensa e preocupante circunstância de luto traumático, apesar dos fatores complicadores inclusos, seus prontuários atestam uma evolução prognóstica saudável.