O psiquiatra inglês Colin Murray Parkes68, sucessor nos estudos de Bowlby, em vasta pesquisa longitudinal relatada em seu livro Amor e perda,69 analisa interessantes dados acerca dos modelos vinculares e suas decorrentes estratégias de enfrentamento do processo de luto em adultos. Alguns desses dados nos serão relevantes para a análise dos casos neste estudo.
Para Parkes é a transitoriedade da vida que engrandece o amor, os vínculos. Quanto maior for o risco, mais forte se torna o vínculo.70 No grupo do que se pode entender como transitoriedades, estão as adversidades e o luto.
O autor considera que existem distinções relevantes entre as mais variadas circunstâncias de luto que podem ocorrer com a humanidade. Por exemplo: há uma diferença importante entre o luto que ocorre antes, conhecido como luto antecipatório, ou terminalidade, como denominado antigamente, e aquele que se dá depois da perda. 68 O psiquiatra é nascido em 1928 trabalhou com John Bowlby no Tavistock Institute of Human Relations e com Cicely Saunders no St Christophers Hospice, se mantém atuante atualmente com 86 anos, tendo sido membro e consultor das equipes que trabalharam no tsunami das ilhas Tailandesas em 26 de Dezembro de 2004 e no atentado as Torres Gêmeas do Onze de Setembro nos Estados Unidos. 69 PARKES, C. M. Amor e perda: as raízes do luto e suas implicações. São Paulo: Summus, 2009. 70 Ibidem, p.11.
Enquanto o luto que sucede à perda tende a diminuir na medida em que o enlutado aprende a viver sem a presença da pessoa amada, o luto que a precede leva a uma intensificação do vínculo e a uma preocupação maior com a pessoa falecida.71 Logo, o amor e/ou a vinculação afetiva têm estreita relação com as diversas circunstâncias de morte, nas diferentes possibilidades de responder à elaboração do luto.
Inicialmente, pondera o autor o que é o amor, que, nessa perspectiva, tem muitos componentes, mas o componente considerado indispensável é o compromisso, compromisso que se dá como laço psicológico que vincula uma pessoa a outra por longo período. Uma vez estabelecido esse vínculo, dificilmente o laço poderá ser afrouxado, e a grande maioria dos estudiosos em luto concorda em concluir que é uma espécie de laço que nunca poderá ser totalmente rompido, por isso, daqui partem as noções de ressignificação vincular ou transformação do vínculo. 72
Parkes considera que talvez para muitos não seja o amor que faça o mundo girar, mas alerta: o amor “é uma fonte de segurança, autoestima e confiança da maior importância. Sem esses suportes, nós nos sentimos, e de fato estamos, em perigo”.73
A essa altura, torna-se evidente que separações e perdas de pessoas amadas têm efeitos significativos na saúde com aumento, inclusive, do risco de violência, transtornos também sociais e mortalidade, como visto nos capítulos anteriores. Essas ocorrências dolorosas têm peso na grande intensidade de emoções evocadas pelo amor e pela perda, mas a maioria dos perigos atuais está, para Parkes, no psicológico. Por isso, propõe o desenvolvimento de novas perspectivas sobre a natureza do amor,74 cujas consequências possam ser também preventivas tanto para os vínculos e a saúde do ser humano quanto a elaboração e os cuidados em processos de luto. Ver-se-á no que tange às relações entre fé, amor e luto, que essa prevenção pode ser considerada também de modo prático.
71 Ibidem, p.12. 72 PARKES, C. M. Amor e perda: as raízes do luto e suas implicações. p.12, apud KLASS, D.; SILVERMANN, P. R.; NICKMANN, S. Continuing bonds: news undestandings of grief. Londres: Taylor and Francis, 1996. p. 14‐23. 73 Ibidem, p. 13. 74 Idem.
Em concordância com Bowlby, Parkes considera outro componente significativo do amor: a monotropia, ou seja, o amor é um vínculo com uma pessoa específica, e não há como existir um perfeito substituto para o indivíduo amado. Também por esse motivo, o relacionamento amoroso e o valor de cada pessoa que amamos são incalculáveis.75
Não é possível avaliar o amor investido no amado como é feito com objetos utilitários, passíveis de reposição. E, ainda, pode-se criticar o amado por não ajudar ou não atingir determinado padrão de exigência ou de beleza, mas exatamente aquilo que é criticado compõe o que há de único nas pessoas, portanto amadas pelo que verdadeiramente são.76
As qualidades vinculares, tais como a sua importância vital para o ser, a persistência e a singularidade têm grande peso nas peculiaridades das relações amorosas. Toda pessoa corre grande risco quando entra em um relacionamento amoroso e, igualmente, quando o renega ou o perde. No entanto, de uma maneira ou outra, é preciso encontrar meios de viver com o amor.77
Parkes aponta que, tendo feito uma revisão bibliográfica sobre o amor, muitas são as conotações emocionais encontradas para esse termo, bem como as ambiguidades em torno da palavra, tanto que, atualmente, cientistas têm preferido utilizar outras palavras para estudar o amor, no intento de distinguir e discriminar suas muitas formas de sentido e expressão. Poucos ainda usam o termo freudiano
libido, substituído recentemente por relações objetais, o que, para Parkes, soa
impessoal posto que pessoas em nada se assemelham a objetos.
O termo mais empregado tem sido apego, no sentido utilizado por Bowlby desde 1969, indicando os primeiros registros de afeto iniciados na relação mãe- bebê. Mais tarde, aponta Parkes, Bowlby preferiu substituir o termo por
comportamento de apego. Outros pesquisadores preferiram usar as palavras cuidados (para o amor materno) e amor romântico (para referir-se ao amor entre
adultos).
A maior parte dos pesquisadores da atualidade, lembra Parkes, usa o termo
apego para todos os tipos de vínculo amoroso. E essa será também a referência
utilizada na análise dos casos clínicos aqui presentes a partir do termo vínculo.
75 Idem. 76
PARKES, C. M. Amor e perda: as raízes do luto e suas implicações, p.13. 77 Ibidem, p. 15.
Quando Parkes se propõe a estudar luto e vínculo, justifica seu intento não no interesse tradicional da ciência que busca conhecer as minúcias do mundo microscópico ou do mundo externo, mas do mundo dentro do humano e na premência de compreender o mundo interno, espera que a beleza iluminada e a riqueza das descobertas sobre o amor justifiquem todos os esforços.78
Ao relacionar o apego em seus diferentes modelos operativos: dinâmicas vinculares e/ou estratégias de vinculação, às perdas, aos traumas e ao luto, descobre-se em Parkes a relevante e marcante influência com que os padrões registrados na infância são revividos na idade adulta, pois exercem inferência sobre as reações de luto. Esse fator torna possível compreender como o papel dos apegos primários mais tarde na vida e nos amores, assim como nas perdas, reflete padrões que, em cada etapa da vida, conduz a outros, causando mudanças na habilidade de sentir o amor e de vivenciá-lo no ser humano. Portanto, interfere também na capacidade do ser humano de sentir-se seguro, pertencer e confiar, habilidades essas que também fazem parte da fé, recurso intensamente afetado pelo processo de enlutamento.
Em Parkes os vínculos e a humana habilidade vincular são as mais importantes fontes de segurança, serenidade e apoio em tempos difíceis.79 E aqui é possível incluir a vinculação espiritual como um caminho diante da crise que o luto impõe sobre a fé. No entanto, para atender à essa lógica, seria necessário que fosse através de uma pessoa ou figura amorosa real, isto é, de alguém que sustentadoramente representasse uma base segura.
A partir das construções de Bowlby, Parkes desenvolve sua pesquisa com adultos encontrando, dentro dos padrões de apego, as categorias ou níveis de confiança, quando constata que adultos de padrões de apego seguro têm alta confiança em si e alta confiança nos outros, enquanto adultos de padrões de apego inseguro, ansioso ou ambivalente, têm baixa confiança em si e alta confiança nos outros. Já os padrões adultos de apego evitativo têm alta confiança em si e baixa confiança nos outros.80
78 Ibidem, p. 13. 79 PARKES, C. M. Amor e perda: as raízes do luto e suas implicações, p. 16. 80 Ibidem, p. 31.
Tais categorias e níveis de confiança interferem nas respostas em face da mobilização que a morte causa ao enlutado, pois, como dado de realidade, desestrutura sensações de confiança e segurança das quais se servia para viver.
Se, no entanto, havia referências anteriores à perda com baixos níveis de confiança, como pode responder o indivíduo em sua recuperação? É razoável considerar, portanto, que experiências traumáticas desestabilizam os padrões de apego, e que os padrões de apego podem direcionar a maneira como o indivíduo administrará a situação traumática.