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Se bem o “pós-colonial” como discurso31, como posição teórica e política que

encarna um conceito ativo de intervenção dentro de circunstâncias opressivas e de dominação32, se localiza historicamente num período mais recente (década de 1980),

intervenções teóricas e políticas opositoras ao colonialismo e imperialismo existem desde o mesmo momento em que existe colonialismo e imperialismo33. Porém, não se

deve negligenciar a conexão entre as histórias de resistência ao movimento globalizatório iniciado no século XV, e as mais recentes histórias de independência colonial dos recém constituídos estados nação (século XIX-XX). Embora o pós- colonialismo não se preocupa especificamente com ‘o colonial’, mas com as estratégias presentes de transformação34, as lutas em contra do colonialismo e imperialismo são as

parteiras do momento presente onde se articula este discurso contrahegemônico35.

Por tanto, a pergunta pelo ‘quando’ conecta com a história ou historiografia. Na década de 1980 o grupo Subaltern Studies, dirigido por Ranajit Guha, focaliza a instabilidade da historiografia hegemônica que narra o processo de globalização como um movimento do centro para a periferia. Nesse movimento a modernidade emerge como uma narrativa de expansão civilizatória, com suas promessas e os seus horizontes igualmente promissórios. Os trabalhos do Subaltern Studies começam a colocar em questão que tal narrativa possa de fato ser exata e, portanto, possível. O que se verifica é um processo de hibridação36 desde o primeiro momento da colonização; o intercâmbio, embora desigual, afetou com igual intensidade a ‘colonos’ e a ‘nativos’. É a respeito disso que Stuart Hall afirma que o colonialismo é um processo de dupla inscrição37. As

consequências dessa constatação não somente colocam em xeque a historiografia hegemônica, senão que apontam também para uma compreensão diferenciada do colonialismo.

Em primeiro lugar, desde o primeiro contato colonial, a figura do ‘colono’ e a do ‘nativo’ deixam de ser figuras monolíticas, completamente diferenciáveis e

31 O termo será discutido mais a frente.

32 Robert Young, Postcolonialism: An Historical Introduction (Oxford: Blackwel, 2001), p.57 33 Ibid, p.68

34 Ibid, p.4

35 Sandro Mezzadra, “Introducción”, em Sandro Mezzadra (compilador), Estudios Postcoloniales,

ensayos fundamentales (Madrid: Traficantes de Seuños, 2008), p.17

36 Este termo também será discutido adiante.

37 Stuart Hall, “Quando foi o Pós-colonial?” Em Liv Sovik (Ed), Da diáspora: Identidades e Mediações

absolutamente independentes38. Isto não significa que as relações de dominação possam

deixar de ser identificadas. Significa que a sua in/determinação obedece a esquemas mais complexos do que os representados sob o dualismo oprimidos/opressores. Em segundo lugar, e avançando sob o reconhecimento da desigualdade de poderes que instaura a possibilidade da existência de forças hegemônicas, o hibridismo inaugural concomitante ao colonialismo revela o desenvolvimento de focos contra-hegemônicos que avançam em tensão constante um com os outros e com relação às forças hegemônicas. Em outras palavras, que a heterogeneidade e indeterminação dos desenvolvimentos históricos são inerentes à história do colonialismo, implicando, por sua vez, que a modernidade está radicalmente fragmentada e dialeticamente constituída.39

Estas duas consequências que sumariamente destaco indicam que a emergência do discurso pós-colonial não pode ser compreendida encima do pressuposto que compreende a modernidade como sendo um evento absolutamente ocidental, ou como expressada, por exemplo, no binômio modernidade/colonialidade usado por Walter Mignolo.40 Existem modernidades não coloniais e não ocidentais41, assim como

ocidentes não coloniais. Hibridismo. Pense-se, por exemplo, no evento ‘Bartolomé de las Casas’. Sua posição, digamos, ‘anti-colonial’ e ao mesmo tempo ‘ocidental’ foi um dos primeiros registros históricos da dinâmica fragmentária e contraproducente da expansão europeia. A influência (não somente) dos textos lascasianos na Europa vai configurando posições divergentes, e fazem parte das objeções de tipo moral, econômica e política em contra do colonialismo.42

Ora, se por um lado é possível constatar posições divergentes sobre a prática colonial ao interior da Europa em todos os seus agentes43, por outro lado é possível

constatar, igualmente desde o primeiro contato colonial, diferentes tipos de alianças, parte das quais vão facilitar os processos de dominação e exploração instaurados com o colonialismo.44 A partir desse ângulo, as tensões que conduzem aos eventos das

38 Mezzadra, (2008), op.cit., p. 19

39 Veja, entre outros, Gayatri Spivak, Estudios de la Subalternidad: Deconstruyendo la historiografía. Em Sandro Mezadra, Estudios de la Subalternidad (op.cit), pp.33-67

40 “La ideia de América Latina”, op.cit. p.29-30.

41 Veja Benita Parry. “Aspects of Peripheral modernisms”, em Ariel, Jan, Vol 40 (1), 2009, pp. 27-55 42 Cf. Robert Young (2001), Op. Cit., p. 71-112

43 Vítor Westhelle, “After Heresy: Colonial Practices and Post-colonial Theologies”, Eugene, Oregon: Cascade Books, 2010, menciona três agents coloniais (Coroa, Igreja e Conqusitadores) e a suas tensões internas conflitantes, p. 2,3.

44 Marcella Althaus-Reid, “La Teología Indecente: perversiones teológicas en sexo, género y política”, Barcelona: Bella Terra, 2005, menciona a aliança patriarcal entre espanhóis e ‘indígenas’. O mesmo

independências políticas e as lutas anti-coloniais são condições ambíguas, e configuram tais eventos também de forma ambígua, ambivalente e heterogênea. Em meio às alianças entre diferentes povos, grupos e classes distintas, rapidamente verificam-se reconfigurações que produzem novos processos de dominação e, portanto, de resistência. (...)

Não existe, portanto, uma linha progressiva, ininterrupta, que determine evolutivamente o surgimento de um discurso contrahegemônico. Existem eventos conexos e desconexos, com interrupções e continuidades (des/continuidades) espaço- temporais, cujas energias e forças contraditórias nutrem, especialmente desde a década de 1980, o fenômeno que veio a se chamar ‘poscolonialismo’. Embora com valores diferentes, intervenções históricas como ‘Bartolomé de las Casas’, ‘a independência de Haiti’ (1804), ‘La Revolution Française’ (1789), ou ‘Les damnés de la terre’ (Franz Fanon), constituem os elementos da dialética que compõe a situação pós-colonial.

Produzir uma escrita descentrada da história, isto é, não eurocêntrica45, descobre

novos significados para o significante ‘modernidade’. Estes significados provêm de outros ‘centros’ cujo lugar é periférico na ‘narrativa mestre’ (marginalidade que muitas vezes significa simplesmente invisibilidade). A ideia de que as colônias foram ‘laboratórios da modernidade’46 e os fluxos globalizantes desde o século XV até hoje,

conduzem a considerar a modernidade de forma dialética. Estes desenvolvimentos ‘periféricos’, diz Robert Young, possuem uma dinâmica própria e não são simplesmente uma resposta ao impacto de ocidente; e continua: “... ‘A modernidade das colônias não- europeias’, escreve Toni Barlow, ‘é tão indisputável quanto o núcleo colonial da modernidade europeia’”.47

Esta autonomia relativa de outras modernidades, seu caráter contestatório e alternativo à História (europeia), é recuperada paulatinamente numa proliferação de histórias, cujo interesse é abrir os significados e possibilidades da História, num horizonte ético de transformação das suas condições de opressão e dominação. Aqui, o ‘quando’ da pergunta inicial se concretiza e afunila: o pós-colonial avançou toda e cada

fenômeno pode ser constatado nos processos de escravização na África, com a participação dos próprios africanos facilitando o processo.

45 Veja Dipesh Chakrabarti, “Provincializing Europe: Postcolonial Thought and Historical Difference”, (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2000).

46 Sandro Mezzadra, op. cit., 19, citando a A. L. Stoler e F. Cooper. 47 Robert Young, (2001) op.cit., 354

vez que as forças contrárias produziram embates em meio à resistência à dominação. O momento decisivo foi, contudo, a percepção de uma falha.48

Percebe-se uma ‘falha’, por exemplo, nos estados modernos em se produzirem a si mesmos como nação após a sua ‘independência’ do poder colonial, e esta se constata na reprodução contínua em seu interior de condições de subalternidade: pessoas e grupos aos quais lhes é negada radicalmente a palavra e a sua capacidade de ação política.49 Spivak, na sua leitura do Subaltern Studies e seu trabalho crítico sobre a

historiografia, reitera esta afirmação: os deslocamentos para abrir espaços de subversão têm sido deslocamentos fracassados.50 O próprio projeto desse grupo, segundo Robert

Young, é definido ao redor da questão: por que as independências não produziram um movimento de libertação nacional que reivindicasse a causa dos mais marginalizados?51

E além disso: quem são ‘os mais marginalizados’? Isso nos leva à seguinte pergunta: onde foi o pós-colonial? Isto é, a localização ‘geográfica’, ou o lugar dos sujeitos que produziram o discurso pós-colonial.