4 CDS SPREAD TAHMİN MODELİ
4.1 Temel Ekonometrik Yaklaşım
4.1.3 Durağanlık
4.1.3.2 Durağanlığın Birim Kök Test
Antônio Vicente Mendes Maciel8, o Antônio Conselheiro foi a principal liderança da
revolta camponesa de Canudos9. Com um bastão na mão, peregrinava de arraial a arraial pelo
interior da Bahia com um tipo de pregação que enfatizava a salvação pelas obras. Independente que era do Estado e da Igreja, era opositor da ordem social baseada na exploração dos camponeses e nos grandes latifúndios. Igualitarismo e solidariedade humana eram uma das temáticas principais de sua pregação. Para ele, era necessário um retorno ao cristianismo primitivo, de modo que citava em suas prédicas os Evangelhos e textos de a Cidade de Deus de Santo Agostinho. Antônio Conselheiro tinha um estilo de vida muito próximo do ascetismo, pois não comia carne e condenava o uso de bebidas alcoólicas; ele se autointitulava um homem
8 O messias brasileiro mais conhecido e estudado foi Antônio Conselheiro, cuja família se celebrizara em lutas
frequentes no interior do Brasil, a luta entre Maciéis e Araújos, no Ceará. O interior do Nordeste era então percorrido por missionários itinerantes que iam de lugarejo em lugarejo evangelizando, acompanhados por uma turba de penitentes e romeiros; Antônio Conselheiro foi a princípio um romeiro, sendo provável que tenha então atravessado o Ceará, em direção à Bahia. Vivia de esmolas, aceitando somente o necessário para o sustento de cada dia (QUEIROZ, 1965, p. 203).
inspirado por Deus e exigia submissão e respeito. Quanto ao ascetismo em movimentos camponeses e operários, Moniz cita as palavras de Engels:
Este puritanismo ascético, esta insistência em renunciar os prazeres e alegrias da vida representam, de um lado uma restauração do princípio espartano da igualdade contras as classes dirigentes e, de outro, uma etapa necessária de transição, sem a qual os setores inferiores são incapazes de se porem em marcha (MONIZ, 1987, p. 31).
Apesar de o movimento em Canudos ter sido uma revolta contra o sistema de exploração dos camponeses, os primeiros conflitos de Antônio Conselheiro foram com a Igreja Católica. Pregador independente, Antônio Conselheiro interpretava os textos bíblicos à sua maneira, atitude essa reprovada pelos sacerdotes da Igreja. Não demorou muito para que ele fosse considerado um herege. Esse discurso de volta ao cristianismo primitivo igualitário significaria perda de poder econômico e político da Igreja, tendo em vista que para ela na terra sempre haveria ricos e pobres. Essa era a vontade de Deus. Desse modo, Igreja deveria apoiar o Estado na manutenção da lei e na obediência às autoridades. Portanto, a pregação de Antônio Conselheiro era considerada herética pelo catolicismo hegemônico e, por isso deveria ser recusada (MONIZ, 1987). Apesar da oposição de sacerdotes católicos o número de seguidores aumentou e o movimento ganhou projeção nacional.
As experiências extáticas eram comuns no movimento, pois o Conselheiro “entrava em êxtase para se comunicar com o próprio Deus” (QUEIROZ, M., 1965, p. 204). Antônio Conselheiro também realizava curas e muitos acreditavam que o simples toque de sua barba poderia expelir os males das pessoas. Com efeito, elementos extáticos e antidogmáticos serão uma importante característica da religiosidade do movimento de Canudos.
O arcebispo da Bahia, D. Luiz Antônio dos Santos redigiu uma carta ao presidente da Província da Bahia, João Capistrano Bandeira de Melo, para que Antônio Conselheiro fosse contido. Nela, o arcebispo reiterou o caráter subversivo da pregação do líder de Canudos. O presidente da Província, então, contactou o ministro do Império, Barão de Mamoré e pediu-lhe que Antônio Conselheiro fosse internado num hospício do Rio de Janeiro.
Entretanto, o barão alegou falta de vaga. Tamanho foi o crescimento do movimento em Canudos que as autoridades se julgavam incapazes de contê-lo. Para elas, além de subversivo o movimento era caracterizado por uma religiosidade fundamentada em superstição e fanatismo. Antônio Conselheiro era acusado de “se autointitular o Espírito Santo” (MONIZ, 1987, p. 89).
Antônio Conselheiro percorreu dezenas de cidades e povoados pelo sertão. Um número expressivo de fiéis o seguia. Não era apenas sua mensagem escatológica que atraía as pessoas, mas seu ideal de uma sociedade sem humilhação e sofrimento que em breve seria implantada. Dentre os seguidores de Antônio Conselheiro estavam muitos escravos foragidos e, com a abolição da escravatura em 1888, muitos ex-escravos também se uniram ao movimento.
Com a autonomia dos municípios na República Velha as Câmaras locais promulgaram editais relacionados com a cobrança de impostos. Todavia, esses impostos recaíam, em sua maioria, nas classes menos favorecidas, pois as Câmaras não ousavam cobrar os grandes proprietários de terras. Ao tomar conhecimento desses editais no interior baiano, Antônio Conselheiro reuniu o povo, arrancou e queimou os editais na cidade de Bom Conselho como forma de protesto.
Ao saber do ocorrido o governador baiano Rodrigues Lima enviou um contingente de policiais com o objetivo de capturar Antônio Conselheiro e acabar com seu bando (MONIZ, 1987). Entretanto, os sertanejos derrotaram os soldados, os quais tiveram que fugir para Salvador. Esse episódio motivou Antônio Conselheiro a pensar na fundação de uma comunidade igualitária e sem privilégios. A proclamação da República foi interpretada por Conselheiro como prenúncio do fim do mundo, ao passo que essa nova ordem era o caminho para a chegada do Anticristo. Em razão disso, Antônio Conselheiro e seus seguidores peregrinaram pelo interior do sertão a fim de achar um lugar que seria a “Nova Jerusalém” onde viveriam até a chegada do Juízo Final. Num dos sermões escatológicos registrados por Euclides da Cunha o Conselheiro advertia:
Em verdade vos digo, quando as nações brigam com as nações, o Brasil com o Brasil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prússia com a Prússia, das ondas do mar D. Sebastião sairá com todo o seu exército. Desde o princípio do mundo que encantou com todo o seu exército e o restitui em guerra. E quando encantou-se afincou a espada na pedra, ela foi até os copos e ele disse: Adeus mundo! Até mil e tantos e dois mil não chegarás! Neste dia quando sair com seu exército tira a todos no fio da espada deste papel da República (CUNHA, E., 2011, p. 198).
Dirigiram-se então para o norte da Bahia e fundaram o povoado de Belo Monte que era uma antiga fazenda chamada Canudos. Ali, as pregações e profecias milenaristas continuaram e acreditavam num iminente fim do mundo. O povoado cresceu e em pouco tempo já era uma cidade independente das autoridades civis e eclesiásticas. Nesse lugar, Antônio Conselheiro almejava o tipo de comunidade onde todos seriam iguais; uma Nova Canaã, a Terra Prometida.
Ex-escravos, emigrantes, vaqueiros, camponeses e demais pessoas que se sentiam exploradas, a maioria buscava refúgio em Canudos. Além da inexistência de cobradores de impostos e policiais, Canudos também não permitia prostíbulos. O consumo de álcool era proibido. Os desejos, a avareza e tudo aquilo que impedisse uma vida de santidade deveriam ser abandonados. Dos discípulos que seguiam o Conselheiro em suas peregrinações as mulheres eram em maior número do que os homens. Os sertanejos, com seu modo rude, sentiam a necessidade de que seus filhos recebessem educação formal, ao passo que fora criada uma escola de alfabetização para as crianças.
Antônio Conselheiro era o líder absoluto dessa nova comunidade a quem todos respeitavam. Não se discutia sua autoridade. As possíveis contendas que surgiam entre os sertanejos eram levadas a ele que era o responsável por resolvê-las. As pessoas que compunham o movimento se consideravam eleitos, separados e seguidores de crenças reveladas por um líder carismático. Eram raros crimes em Canudos e quando isso acontecia o Conselheiro encaminhava o acusado para a comarca mais próxima a fim de ser julgado de acordo com a lei. Em geral, o clima era de paz na comunidade, muito em razão da maneira como os bens eram produzidos e distribuídos entre todas e todos. O conceito que vigorava era da propriedade coletiva das plantações, da terra e da pastagem. A escatologia e o Juízo Final eram temas constantes da pregação de Antônio Conselheiro, entretanto ele queria que “o reino da terra fosse igual ao reino celeste” (MONIZ, 1987, p. 76). O reino vindouro onde haverá justiça e paz devia ser paradigmático para um tipo de sociedade sem exploração e igualitária.
Essa visão de uma comunidade igualitária logo começou a despertar o temor dos grandes proprietários de terras que viviam da exploração camponesa. Caso os ideais de justiça de Antônio Conselheiro se espalhassem por outras cidades e originassem outros “canudos” o poder dos latifundiários seria diminuído. Em 1895 o arcebispo da Bahia enviou o Frei João Evangelhista a Canudos com o objetivo de dissuadir Antônio Conselheiro a terminar com a comunidade de Belo Monte. Entretanto, a população rejeitou as investidas do Frei João Evangelhista que teve que deixar a comunidade.
Tendo em vista que um considerável número de camponeses abandonou o trabalho nas grandes propriedades, os fazendeiros ficaram incomodados, pois seus negócios poderiam ser prejudicados. Some-se a isso a insatisfação que a comunidade de Belo Monte nutria para com o regime republicano. Em Canudos não se aceitava a circulação da moeda da República (QUEIROZ M.,1965), mas apenas a moeda da Monarquia. Portanto, o crescimento da comunidade desagradou a Igreja, os políticos republicanos e os latifundiários. Esse descontentamento das autoridades civis e religiosas ocasionou em quatro expedições militares
em Canudos. Apesar da resistência, Antônio Conselheiro foi morto e a comunidade foi desfeita em 1897.