A escolha do Colégio Municipal Cora Coralina ocorreu por duas razões. Em primeiro lugar porque localizei, nas listas de transferências e relatórios do MEBIC, 75 alunos que concluíram a alfabetização e foram inseridos no ensino regular noturno, nesse Colégio, com a intenção de dar continuidade aos estudos na rede municipal de ensino. Em segundo, porque pretendo verificar como se dá a inserção dos jovens e adultos egressos das práticas educativas do movimento popular na escola pública regular de EJA. Sobre os cursos regulares, Paiva afirma:
A escola, seja ela diurna ou noturna, precisa resgatar a idéia de que regular tem que ser a sua oferta, a sua organicidade, a sua constância e o compromisso com o cumprimento do direito à educação, que passam pelo questionamento de suas práticas e de suas concepções discriminatórias, como as que afirmam serem alguns capazes de aprender e outros não, naturalizando o fracasso, como se fosse normal que muitos não venham a aprender. Regular tem que ser o compromisso com a qualidade, para todos, tanto do que se ensina, quanto das condições físicas, materiais e de recursos humanos para permitir o acontecimento de processos de aprendizagem, indissociáveis da vida dos sujeitos e das práticas sociais e culturais da população. (PAIVA, 1998, p. 101, grifo da autora).
Mas, não são as concepções e, sim, especialmente as práticas pedagógicas que vêm definindo a atuação na área de EJA, na vertente escolarização. Essas práticas, por muito tempo, e até hoje, estão compreendidas como aquelas que prestam atendimento aos que se encontram privados da rede de conhecimento que se produz, se organiza, se dissemina, se socializa por meio dos processos de escrita. (PAIVA, 2005). Nesse sentido, minhas perguntas norteadoras deste estudo podem ser assim resumidas, no tocante à escolarização da EJA: que significados e sentidos são atribuídos aos conhecimentos escolares pelos educandos jovens e adultos egressos do MEBIC, em continuidade ou rupturas de estudos no ensino regular noturno? Existe tensão entre as práticas pedagógicas emancipatórias e reguladoras ao se
converter a EJA, herdeira da educação popular, em educação escolarizada? Se há, como se configura?
Para responder a essas perguntas, levantei dados relativos aos jovens e adultos egressos das turmas de EJA do MEBIC, com menos de quatro anos de escolarização, no período de 1997 a 2008, conforme se vê no gráfico a seguir:
1502 148
39 75
0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000 1100 1200 1300 1400 1500 1600 Alunos egressos do MEBIC -
alfabetizados Educandos atualmente matriculados no
MEBIC
Alunos egressos do MEBIC que ingressaram no ensino regular noturno
nas escolas da rede estadual Alunos egressos do MEBIC que ingressaram no Ensino Regular Noturno
do Colégio Municipal Cora Coralina
Figura 2 - Alunos egressos do MEBIC no período de 1997 a 2008.
Fonte: Livro de ata de matrícula, transferências e resultados finais do MEBIC - 1997 a 2008.
A seguir, o gráfico abaixo, ilustra o percurso escolar dos 75 alunos egressos do MEBIC os quais ingressaram no ensino regular noturno do Colégio Municipal Cora Coralina de 2002 a 2008: 3 4 9 10 49 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50
Concluíram o Ensino Médio Concluíram o Ensino Fundamental Estão cursando o ensino fundamental de 5ª a 8ª série Estão cursando a 3ª e 4ª série Abandonaram o ensino regular noturno
Figura 3 – Continuidade ou interrupção dos estudos, no ensino regular noturno, pelos alunos egressos do MEBIC Fonte: Livro de matrícula e resultados finais do Colégio Municipal “Cora Coralina”- 1997 a 2008.
Segundo informação da coordenadora do MEBIC, dos 49 alunos que abandonaram o ensino regular noturno do Colégio Cora Coralina, como mostra o gráfico anterior, 32 alunos pediram para retornar ao MEBIC. Ainda, com base nos dados registrados em relatórios dos anos anteriores (1997 a 2007), assinalou que muitos alunos deixaram o MEBIC porque retornaram a suas cidades de origem; outros porque mudaram de emprego; outros, porque já haviam aprendido o que necessitavam, logo não havia necessidade de continuar frequentando o Projeto, nem outra escola.
Outro aspecto que contribuiu para que eu escolhesse o Colégio Municipal Cora
encontrados (conforme mostra a tabela adiante). Para maior esclarecimento dos motivos que levam os jovens e adultos, especificamente da Aceleração I (3ª e 4ª), da escola investigada a frequentarem o colégio ou abandonarem os estudos, destacarei os fatores que possam ser determinantes do cobiçado sucesso escolar na especificidade da EJA.
Tabela 1 – Indicadores da educação de jovens e adultos14
INDICADORES EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
ACELERAÇÃO I – EJA I ACELERAÇÃO II – EJA II
Estágio I (1ª e 2ª) Estágio II (3ª e 4ª) GERAL Estágio I (5ª e 6ª) Estágio II (7ª e 8ª) GERAL Taxa de Aprovação 11,8% 26,2% 19% 21,6% 42,3% 32% Taxa de Reprovação 50% 24,6% 37% 43,3% 38% 41% Taxa de Abandono 28,2% 49,2% 44% 35,1% 19,7% 27%
Fonte: Livro de Resultados Finais do Colégio Municipal “Cora Coralina” - 2007.
Na segunda quinzena de março de 2008, sob orientação dos professores, como atividade de sala de aula, a meu pedido, foi aplicado um questionário nas duas turmas de EJA: Aceleração I, Estágio II (3ª e 4ª série), visando a diagnosticar e conhecer o cenário da EJA no colégio Cora Coralina e traçar um perfil dos sujeitos atendidos. Buscava, principalmente, o aprofundamento das discussões sobre interesses, preocupações, necessidades, expectativas dos alunos em relação à escola, habilidades, vivências, níveis de escolaridade, diferenças regionais, origem campo/cidade, diferenças étnicas, gênero, religiões/crenças, entre outras. Acredito que, por meio desse levantamento, pude conhecer e analisar o perfil dos sujeitos da EJA de 15 anos ou mais de idade, com menos de quatro anos de escolarização que frequentavam, ainda, a escola regular e eram egressos do MEBIC.
A interlocução com esses sujeitos que frequentaram o MEBIC e, posteriormente, o ensino regular noturno (3ª e 4ª série) no Colégio Municipal Cora Coralina - Guanambi-BA possibilitou-me conhecer a história de vida escolar pregressa deles e identificar fatos que contribuíram para a sua ruptura ou continuidade no processo de escolarização. Além disso, pude verificar continuidades e rupturas entre a prática pedagógica desenvolvida no movimento popular e na escola pública.
O conhecimento desses dados levou-me a agrupar os sujeitos em estudo em segmentos distintos, formados por:
14
Embora a ABNT recomende que as tabelas devem possuir traços horizontais separando o cabeçalho, sem linhas de separação de dados; podem possuir traços verticais separando as colunas de dados, sem fechamento lateral, adotei, ao longo desta dissertação, a forma acima, porque a meu ver facilita a visualização dos dados.
• quatro alunos do Colégio Municipal Cora Coralina, egressos do MEBIC, que continuam frequentando, assiduamente, a escola regular noturna (Jeremias, João, Ana, Priscila);
• quatro alunos que interromperam os estudos no Colégio e retornaram ao MEBIC, frequentando-o assiduamente (Isabel, José, Raquel, Pedro);
• dois alunos que desistiram de frequentar a escola e não retornaram ao MEBIC15 (Tomé e Madalena);
• duas professoras da turma de Aceleração I, Estágio II (3ª e 4ª série, respectivamente Eva e Ester);
• uma professora da Pós-Alfabetização do MEBIC (Sara);
• coordenadora do MEBIC (Maria);
• coordenadora da EJA da Rede Municipal (Marta).
Independentemente da experiência de inserção, rupturas ou continuidade no processo de escolarização da EJA, a escolha dos sujeitos pautou-se pelo fato de os alunos serem egressos do MEBIC e possuir trajetória de escolarização marcada por constantes interrupções. Vale lembrar que, em todos os casos, houve aceitação por parte dos sujeitos para participarem da pesquisa. No início, ficaram inibidos, mas, aos poucos, descontraíram-se e falaram com maior espontaneidade.