2.1.1 O CRAV e o seu produto
O Centro de Referência Audiovisual (CRAV) é um órgão da Fundação Municipal de Cultura (FMC), que foi idealizado em 1992 e cuja efetiva inauguração ocorreu três anos depois, no dia 16 de novembro. Instalado inicialmente na Casa da Serra, o CRAV foi criado pela Prefeitura de Belo Horizonte e integrado à Secretaria Municipal de Cultura. Posteriormente ocupou o 5º andar do Edifício Chagas Doria, à Rua Sapucaí, que atualmente abriga a Fundação Municipal de Cultura. Desde 2008, tem sede própria, situada na Avenida Álvares Cabral.
Seu objetivo é manter uma ampla documentação em suporte audiovisual da cidade e de habitantes ou grupos que tenham exercido alguma contribuição, por meio de diferentes formas de atuação: política, social, cultural e outras. Mantém um acervo constituído de filmes em película, fitas VHS, fitas cassete, e outros suportes audiovisuais, em condições técnicas adequadas para sua conservação e preservação. Esse acervo é disponibilizado para consulta local, para todos aqueles que pesquisam a origem e as transformações socioculturais vividas em Belo Horizonte.
O CRAV oferece condições ambientais e técnicas adequadas ao recebimento e acondicionamento de acervos fílmicos e videográficos. Atualmente seu arquivo conta com aproximadamente 40.000 rolos em película e 7.000 títulos magnéticos e digitais, além de rico acervo correlato (fotografias, cartazes de cinema e discos de vinil).
Entretanto, desde 2005, o CRAV tem ampliado sua atuação, dando maior projeção às ações culturais e educativas voltadas à formação de uma cultura audiovisual em Belo Horizonte, por meio de diversos projetos e parcerias, incluindo um de pesquisa e registro
documental: “Memória Social e Cultural da Cidade de Belo Horizonte em suporte audiovisual” que, desenvolvido por meio da metodologia de história oral, realizou pesquisas sobre relevantes aspectos sociais e culturais de Belo Horizonte, disponibilizando seus resultados em
suporte audiovisual e trabalhando documentos iconográficos, como subsídio da memória urbana local. Inserido neste programa encontra-se o nosso objeto: “Salve Maria: memória da religiosidade em Belo Horizonte: reinados negros e irmandades do Rosário”.
De acordo com as pesquisadoras do CRAV, o projeto teve como objetivo recompor, através de documentos, imagens, depoimentos e fotografias, a memória e a prática das manifestações de religiosidade, a partir dos elementos míticos na cosmovisão africana. Minas Gerais é o terceiro estado em população afro-brasileira, e Belo Horizonte, em seus 115 anos, atraiu um contingente significativo de descendentes de africanos, que trouxeram consigo as manifestações religiosas praticadas em suas regiões de origem. Assim, as tradições de origem luso afro-brasileira estão definitivamente incorporadas na história do município, e torna-se fundamental uma ação dos poderes públicos no sentido de dar visibilidade a tais patrimônios culturais.
Com base nestas informações, podemos perceber uma conscientização em relação à preservação da memória congadeira, por parte da equipe técnica do CRAV, pois esta alegou a necessidade de se registrar a manifestação para se evitar que o legado deixado pelos ternos de congado se extinga. Interessante apontarmos que este órgão, em uma percepção inicial, não tem como finalidade principal a execução de trabalhos relativos à preservação do patrimônio cultural, assim como o IPHAN e o IEPHA. Entretanto, através de outras ações e da constituição do seu acervo documental, o CRAV exerce uma forte contribuição para a preservação da memória local.
Também notamos de antemão um esforço por parte dos grupos de congado em se manterem. Ainda que haja obstáculos gerados pela urbanização, eles sempre criam formas de se adaptarem às mudanças, se reinventando e, mesmo assim, fortalecendo suas crenças e seus valores espirituais e culturais.
Foram mapeados pelo CRAV 38 locais dessa manifestação na cidade, presente em quase todas as regionais, com suas guardas de Congo, Moçambique e Caboclinhos, e apresentados como produtos:
- 70 horas de material gravado em suporte audiovisual digital e incorporado ao acervo do CRAV;
- distribuição de todo o material em VHS para os protagonistas e comunidades; - edição final de um documentário de 52 minutos, visando fomentar e difundir a diversidade cultural e étnica da cidade de Belo Horizonte, que foi lançado em maio de 2006. Há também uma versão reduzida do documentário, com duração de 20 minutos. As cópias de ambos estão disponibilizados no Anexo XVII;
- criação de banco de dados informatizado com dados e imagens referentes à pesquisa; - publicação de um catálogo de fotografias referente às Irmandades do Rosário, publicado em 2006.
Devemos analisar o documentário final e o catálogo. Ambos foram os produtos finais da pesquisa feita pelo CRAV e do material gravado; o banco de dados, por sua vez, foi elaborado juntamente com a Gerência de Valorização do Patrimônio Imaterial (GEVPI) – também subordinada à FMC - e agregou informações relativas a outras manifestações negras da cidade, o que extrapola o escopo do nosso projeto.
Entretanto, para o exame da edição final, precisamos também entender o processo que configurou as filmagens e que seguiu o mesmo roteiro em todas as guardas contempladas. Assim, utilizaremos o material bruto produzido sobre a Guarda de Congo Feminina Nossa Senhora do Rosário e a Guarda de Moçambique do Divino Espírito Santo (ambas atuantes no bairro Aparecida) como núcleo de análise.
A pesquisa documental abarcou outros materiais consultados, para compreendermos o contexto de produção do registro. Consultamos os projetos elaborados para justificar a produção das filmagens, termos de convênio, materiais de divulgação, relatórios de prefeitos e o banco de dados. Também mantivemos contatos com a equipe técnica que trabalha atualmente no CRAV e com as lideranças da Guarda de Congo Feminina Nossa Senhora do Rosário e da Guarda de Moçambique do Divino Espírito Santo.
2.1.2 A FUNARBE e sua inserção no Programa ICMS Cultural
A Fundação Artístico Cultural de Betim (FUNARBE) foi criada ao final da década de 1980 e oficializada em 1991, como Fundação, para lhe permitir autonomia relativa na captação e gestão dos recursos financeiros. Tem como competências a promoção de eventos e atividades culturais e o desenvolvimento de projetos de política cultural implantados no município.
De sua antiga equipe, alguns funcionários formaram o atual Departamento de Memória e Patrimônio Cultural, ainda em processo de constituição e experimentação, e não oficializado, e que desempenha seu trabalho em três frentes.
A primeira compreende a pesquisa e sistematização da memória do município. Hoje, ela é feita principalmente por meio do Inventário Participativo do Patrimônio Cultural, que se dedica ao estudo de uma regional administrativa da cidade por ano, e procura envolver as comunidades no processo de identificação e estudos sobre a memória e a cultura da região. O
Inventário contempla as categorias e metodologias propostas pelo IEPHA, porque o município participa da alocação do ICMS Cultural11, mas tem buscado ultrapassar os limites destas categorias e metodologias, visando as especificidades de cada comunidade e as reflexões do campo do patrimônio cultural em geral. Além do Inventário, o Departamento desenvolve pesquisas demandadas pela comunidade e, para envolver os cidadãos nos
processos de pesquisa, também realiza encontros itinerantes denominados “Chás da Memória”
e ainda, no museu da cidade, os encontros denominados “Prosa no Museu”. As pesquisas geram produtos como: dossiês de tombamento e registro, fichas de inventário, textos para divulgação (pequenos históricos) e os Cadernos da Memória.
A segunda frente trata da gestão dos bens culturais de Betim, especialmente aqueles que se encontram sob a salvaguarda direta do poder público. A integridade dos bens tombados é monitorada, e o Departamento propõe projetos para restauração e fomento, acompanha obras, dentre outras atividades similares.
A terceira frente já compreende a educação patrimonial da comunidade. Atualmente, está em desenvolvimento o Programa de Educação Patrimonial Integrada "Memória para Todos". Seu fundamento é promover educação patrimonial associada a todos os projetos de pesquisa e gestão do patrimônio cultural e se desenvolve em subprojetos, sendo eles: Trilhas Urbanas (visitas orientadas aos principais núcleos históricos de Betim), Chás da Memória (já citados acima, servem tanto à pesquisa quanto à educação patrimonial, pois estimulam nos cidadãos participantes a consciência de que são produtores de cultura e do legado cultural da comunidade), Prosa no Museu (mesma perspectiva dos Chás da Memória), Cadernos da Memória (publicações sobre temas de memória da cidade, tendo já sido publicados quatro
volumes: “Patrimônio Cultural de Betim”, com uma síntese sobre os principais bens de memória reconhecidos pela cidade; “Patrimônio Cultural da Regional Vianópolis”, fruto do
Inventário de 2009; “Reinado de Nossa Senhora do Rosário”; e “Patrimônio Cultural da
Regional Citrolândia”, fruto do Inventário de 2010). A educação patrimonial também é feita
em parceria com outras secretarias municipais e organizações da cidade, e também através da imprensa, que, em Betim, demanda muito os conhecimentos sobre memória e os veicula em abundância.
Enfim, uma de suas atividades foi a elaboração do Dossiê de Registro do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Betim, enviado ao IEPHA em janeiro de 2010, o que possibilitou que a celebração conquistasse o título de patrimônio imaterial de Betim, naquele
11
ano. O documento contempla os campos exigidos pelo órgão estadual (conforme anexo VI) e desde já notamos uma extensa pesquisa exercida e um zelo na sua produção.
Além do dossiê, a pesquisa documental se estendeu a outros documentos, para a compreensão do contexto: normas jurídicas que programaram as políticas e ações de preservação, assinadas nas esferas federal, estadual e municipal, relatórios de registro de 2011 e 201212, revistas e cadernos produzidos pela FUNARBE. Conversamos também, informalmente, com funcionários do IPHAN, do IEPHA e da Empresa Miguilim.