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Zygmunt Bauman, e seu conceito de liquidez, também contribui para o delineamento da nova configuração social. A ideia central é a de que existe um processo de desagregação de tudo que era homogêneo, causando completa instabilidade de todos os fenômenos, seja no campo dos valores, seja na área dos comportamentos. Como aponta o sociólogo, a modernidade que antes era alvo das reflexões teóricas e, também, seu quadro cognitivo, parece muito diferente da sociedade atual, muito diferente daquele que enquadra a vida das gerações de hoje. Ela parece pesada contra a leve modernidade contemporânea. Detém aspecto sólido e não uma aparência líquida como se verifica atualmente. Era uma modernidade condensada, em confronto com a situação difusa que rege a contemporaneidade.18

Na era da modernidade pesada, que nos termos de Weber era também a da racionalidade instrumental, o tempo era o meio que necessitava de administração prudente, para que o retorno de valor, que era o espaço, pudesse ser maximizado; já na era da modernidade leve, líquida, a eficácia do tempo como meio de alcançar valor tende a aproximar-se do infinito, com o efeito paradoxal de nivelar por cima, o valor de todas as unidades no campo dos objetivos potenciais. O ponto gravitacional se muda do lado dos meios para o lado dos fins. Se aplicado à relação tempo-espaço, isso significa que, como todas as partes do espaço podem ser atingidas no mesmo período de tempo, isto é, em tempo nenhum, nenhuma parte do espaço é privilegiada, nenhuma detém valor especial. Se todas as partes do espaço podem ser tocadas a qualquer momento, não há razão para alcançar nenhuma delas num dado momento e nem razão para se preocupar em garantir o direito de acesso a qualquer uma delas. O tempo instantâneo e sem substancia do mundo líquido é também um tempo sem consequências, é o desaparecimento do interesse, pois tudo é instantâneo, tudo está ao alcance de um “click”, de um telefonema. A distância em tempo que separa o começo do fim está diminuindo, ou mesmo, desaparecendo.19

18 BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 33. 19 Ibid., p. 137.

Esse momento líquido da sociedade traz reflexos também para a estrutura do Sistema Jurídico-Penal. Se as assertivas empíricas que a Criminologia está trazendo não possuem estabilidade, a ferramenta que consegue, pelo menos até certo ponto, paralisar esse processo é a referência a valores. Assim, no contexto funcional, o componente valorativo, facilita o labor do direito na sociedade líquida. De modo que o Funcionalismo Sistêmico, por dar maior atenção à norma, aos valores, consegue de certo modo orientar de melhor maneira a fins as informações trazidas pela Criminologia. E nesse ponto, percebemos que o papel criminológico é otimizado pela teoria de Jakobs, porque suas edificações orientadas à tutela de vigência normativa conseguem trabalhar de uma melhor forma com o que a Criminologia está levando ao sistema. Se o Funcionalismo Racional-Final não mais se comunicava de forma livre com a sociedade contemporânea e sua nova configuração, muito por conta de como a função do direito penal era compreendida e a Criminologia parecia não conseguir transferir mais dados empíricos para a relação, na sua versão sistêmica, a comunicação se reestabelece.

Nota-se que a característica líquida da sociedade contemporânea dialoga muito bem com a noção de sociedade do risco. De modo que as duas qualidades se tocam em um mesmo ponto: a incerteza. Essa dinâmica constante da modernidade líquida, que torna liquefeito todos os conceitos, atos e fatos talvez seja o outro lado da moeda da sociedade do risco, que parece ser o desenrolar de uma situação de completa instabilidade.

Pode-se também relacionar a questão do medo, da sociedade contemporânea, com sua repercussão jurídico-penal. Sendo Bauman nosso referencial teórico mais uma vez, como em todas as outras formas de coabitação humana, nossa sociedade líquido-moderna é um dispositivo que tenta tornar a vida com medo uma coisa tolerável, possível. Em outras palavras, um dispositivo destinado a reprimir o horror ao perigo, potencialmente conciliatório e incapacitante; a calar os medos derivados de perigos que não podem, ou não devem, pela preservação da ordem social, ser evitados efetivamente.20 A questão bate no ponto que a

sociedade atual está com sua expectativa cognitiva extremamente avariada. Ou seja, é uma sociedade que poderíamos até chamar de apavorada. E, como aponta Silva Sanchez21, “o

problema, portanto, não radica mais nas decisões humanas que geram os riscos, senão também nas decisões humanas que os distribuem”. Em continuação, o modelo de configuração social, no seu aspecto subjetivo, parte da perspectiva que nossa sociedade pode

20 BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2008. p. 13. 21 SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. A expansão do direito penal: aspectos da política criminal nas sociedades

ser melhor definida como a sociedade da insegurança sentida. Um dos traços mais significativos da sociedade na era pós-industrial é a sensação geral de insegurança, ou seja, o aparecimento de uma forma especialmente aguda de viver os riscos.22 É mais razoável

sustentar que, por múltiplos e diversos fatores, a vivência subjetiva dos riscos é claramente superior a própria existência objetiva dos mesmos. Colocando de outra forma, existe uma elevadíssima sensibilidade ao risco.23

O medo faz parte do direito penal. Como aponta Bauman poder-se dizer que a insegurança moderna, em suas várias manifestações, é caracterizada pelo medo dos crimes e dos criminosos. Suspeitamos dos outros e de suas intenções, nos recusamos a confiar (ou não conseguimos fazê-lo) na constância e na regularidade da solidariedade humana.24 O medo dos

crimes e dos criminosos é uma excelente demonstração de como essa distribuição e essa percepção do risco estão causando grandes efeitos na sociedade. Impulsionados pelos meios de comunicação que fazem, em parte, essa distribuição dos riscos de uma maneira altamente questionável, as pessoas cada vez mais estão perdendo a confiança não apenas em seus pares mas também no Estado. Dessa forma, vislumbramos como equipamentos de segurança cada vez mais sofisticados, por exemplo, são adquiridos cada vez em maior quantidade. A percepção do risco, por vezes, se faz muito maior do que o próprio risco em si.

Os riscos que mais importam e que detém maior necessidade de serem computados se tornam mais densos quanto mais se aproximam, espacial e temporalmente, dos atores e suas ações. As incertezas, porém, se difundem de forma exatamente oposta - elas se expandem e se adensam quanto mais se afastam do ator e da ação. Com o aumento da distância espacial, crescem também a complexidade e a densidade da malha de influências e interações; com o crescimento da distância temporal, cresce também a impenetrabilidade do futuro, aquele outro "absoluto", notoriamente incognoscível. Daí o paradoxo: os efeitos de nossas ações, que agora têm um alcance profundo sobre as vidas de gerações ainda por nascer, exigem uma circunspecção sem precedentes e um imenso poder de previsão; um poder que, não obstante, parece inatingível - não por causa das falhas retificáveis e, logo, ao que se esperam transitórias em nossos esforços e faculdades cognitivos, mas devido à aleatoriedade essencial e incurável do futuro (do "ainda não"). O impacto das contingências resultantes expande-se a um ritmo exponencial a cada passo que nossa imaginação dá no intuito de alcançar uma duração cada vez mais longa dos resultados diretos e dos efeitos colaterais de nossas decisões.

22 SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. A expansão do direito penal: aspectos da política criminal nas sociedades

pós-industriais. Trad. Luiz Otávio de Oliveira Rocha. 2. ed. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2011. p. 40.

23 Ibid., p. 46.

Até mesmo a menor modificação das condições iniciais, ou um minúsculo desvio em relação aos desenvolvimentos inicialmente previstos, pode resultar numa inversão completa dos estados que ao final eram esperados ou desejados.25

Traz-se um pouco do conceito de medo para a relação de trabalho. A questão da instabilidade se interpenetra por diversos setores da vida contemporânea. No ambiente de trabalho, o receio de perder o emprego é uma constante na vida de milhares de trabalhadores. Sem a fonte de renda, o trabalhador se observa em uma situação complicada, já que possuímos uma economia baseada no crédito, a perda da fonte de renda, abala toda a pequena estabilidade que o trabalhador possui. Esse medo do desemprego faz com que trabalhadores aceitem situações em sua vida profissional que não haveriam de se submeter caso a situação fosse outra. Assim, acaba por acontecer um fenômeno um tanto quanto curioso. Como no exemplo já dado, um trabalhador do ramo da construção civil que, pressionado pelo superior hierárquico para que acelere a obra, tende ao desvalor do risco, ou seja, o medo de perder o emprego o leva a situação de ignorar procedimentos de segurança que “atrasariam” a obra para que ela seja terminada o mais rápido possível, potencializando o risco de um acidente. Dessa maneira, nota-se como esse medo difuso, essa situação de insegurança, também interfere no ambiente laboral.

Benzer Belgeler