A sociedade atual detém também a característica de ser extremamente técnica. A técnica se tornou o recurso de superação do tempo e do espaço. Principalmente após o avanço das telecomunicações ocorreu a aproximação absurda de todos os fenômenos. Como aponta McLuhan26, a automação foi inicialmente sentida e aplicada em larga escala nas indústrias
petroquímicas e metalúrgicas. As grandes mudanças nesse setor, que foram possibilitadas pela energia elétrica, já começaram a se manifestar, graças aos computadores, em todas as áreas da administração e dos colarinhos brancos. Em consequência, muitas pessoas começaram a encarar a sociedade inteira como uma máquina unificada destinada à criação de riquezas. Esta sempre foi a perspectiva normal do corretor da Bolsa, habituado a manipular títulos e informações com o auxílio dos meios elétricos da imprensa, do rádio, do telefone e do teletipo. Mas a manipulação especial e abstrata da informação como meio de criar riqueza não
25 BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2008.
p. 131-132.
26 MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. Trad. Décio Pignatari. São
é mais um monopólio do corretor de títulos. Já é partilhada pelos engenheiros e por todas as indústrias da comunicação. Com a eletricidade, energética e sincronizadora, todos os aspectos da produção, do consumo e da organização estão sujeitos à comunicação. A própria ideia de comunicação como inter-relação é inerente ao elétrico, que combina a energia e a informação em sua multiplicidade concentrada.
Além, portanto, da dimensão técnica, a informação tornou-se peça fundamental na dinâmica social contemporânea. Como se observa acima, a informação passou a ser fonte de riquezas e o avanço da técnica foi fundamental para tal situação. A velocidade com a qual atualmente se transpõe o espaço gerou também a necessidade de aceleração da produção da informação, o que rapidamente foi assimilado pelo mercado.
Essa velocidade “elétrica” com a qual o homem passou a trabalhar e produzir a partir dessas transformações também é alvo de considerações de McLuhan, já que para ele a automação não é uma extensão dos princípios mecânicos da fragmentação e da separação de operações. Trata-se antes de tudo da invasão do mundo mecânico pela instantaneidade da eletricidade. É por causa disso que todos aqueles que estão envolvidos na automação insistem em que ela é tanto um modo de pensar quanto um modo de fazer. A sincronização instantânea de numerosas operações põe fim com o velho padrão mecânico do arranjo das operações em sequencia linear. A linha de montagem teve o mesmo destino das filas de homens nas reuniões sociais.27
Com isso temos que a sociedade de hoje se apresenta como uma sociedade amplamente técnica e que se pauta na informação para que se movimente. Muito tem a ver com a sociedade do risco essa sociedade técnica e pautada na informação. Como aponta Beck28, a sociedade do risco não é uma escolha que se pode fazer ou não fazer no decorrer das
disputas políticas. Ela simplesmente surge na continuidade dos processos de modernização autônoma, que são cegos e surdos a seus efeitos e ameaças. De forma cumulativa e latente, estes últimos produzem ameaças que questionam e por final acabam por destruir as bases da sociedade industrial.
Esse é um processo, como aponta Beck, que não se opta ou não por fazer. Na mesma linha segue McLuhan que disserta que os novos meios e técnicas pelos quais nos ampliamos e prolongamos constituem vastas cirurgias coletivas levadas a efeito no corpo social com o mais
27 MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. Trad. Décio Pignatari. São
Paulo: Cultrix, 1964. p. 390.
28 BECK BECK, Ulrich. A reinvenção da política: rumo a uma teoria da modernização reflexive. In: ______.;
GIDDENS, Anthony; LASH, Scott. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. Trad. Magda Lopes. São Paulo: Ed. Unesp, 1997. p. 16.
completo desdém pelos anestésicos. Se as intervenções se impõem, a inevitabilidade de contaminar todo o sistema tem de ser levada em conta. Ao se operar uma sociedade com uma nova técnica, a área que sofre a incisão não é a mais afetada. A área da incisão e do impacto fica entorpecida. O sistema inteiro é que se altera. O efeito do rádio é visual, o efeito da fotografia é auditivo. Qualquer impacto altera as ratios de todos os sentidos. O que procuramos na atualidade é controlar esses deslocamentos das proporções sensoriais da visão social e psíquica — quando não evitá-los por completo. Ter a doença sem os seus sintomas é estar imune. Nenhuma sociedade teve um conhecimento suficiente de suas ações a ponto de poder desenvolver uma imunidade contra suas novas extensões ou tecnologias.29
Segundo Silva Sánchez, é inegável que a população experimenta uma crescente dificuldade de adaptação a sociedades em contínua aceleração. Dessa forma, depois da revolução dos transportes, a contemporânea revolução das comunicações dá lugar a uma perplexidade derivada da falta, sentida e provavelmente real, de domínio do curso dos acontecimentos, que não pode se traduzir senão em termos de insegurança. Por outro lado, as pessoas se acham ante a dificuldade de obter uma verdadeira informação fidedigna em uma sociedade (a da economia do conhecimento) caracterizada pela avalanche de informações. Estas, que de maneira frequente mostram-se contraditórias, fazem em todo caso extremamente difícil sua integração em um contexto significativo que proporcione alguma certeza. Em terceiro lugar, há de se ressaltar que a aceleração não é somente uma questão técnica, mas, precisamente, também da vida. A lógica do mercado reclama indivíduos sozinhos e disponíveis, já que estes se encontram em melhores condições para a competição mercadológica ou laborativa. De maneira que, as novas realidades econômicas, às que se somaram importantes alterações ético-sociais, vêm dando lugar a uma instabilidade emocional-familiar que gera uma perplexidade adicional no ambiente das relações humanas. Nesse contexto de aceleração e incerteza, de obscuridade e confusão, produz-se uma crescente desorientação pessoal, que se manifesta naquilo que já se denominou perplexidade da relatividade, que nada mais é do que a perda de referências valorativas objetivas.30
Essas alterações supramencionadas refletiram no ambiente de trabalho. Como aponta Maria Aparecida Moraes Silva, antes da fase atual de modernização produtiva, a probabilidade de emprego era muito grande, dado o desenvolvimento das forças produtivas que requisitavam grandes contingentes de força de trabalho. Tal situação foi sustentada
29 MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. Trad. Décio Pignatari. São
Paulo: Cultrix, 1964. p. 83.
30 SILVA SÁNCHEZ, Jesús-María. A expansão do direito penal: aspectos da política criminal nas sociedades pós-
durante várias décadas pelos excedentes, residentes em várias regiões do Brasil, que alimentaram o fenômeno migratório para a região sudeste do país. Quando ocorreu a transformação técnica as cancelas das usinas se fecharam aos milhares que continuavam chegando e também àqueles que foram gerados em seu território, impondo-lhes o desemprego. Os mais rejeitados são as mulheres, consideradas frágeis, não aptas aos trabalhos pesados e os acima dos trinta anos, que são considerados incapazes. Para aqueles cuja atuação política remete em questão esse estado de coisas, também há o descarte. Imprime-se aos trabalhadores a culpa por seu desemprego.31
Por fim, cumpre analisar o fenômeno da Globalização. Silva Sánchez coloca que a globalização dirige ao Direito Penal demandas fundamentalmente práticas, no sentido de uma abordagem mais eficaz da criminalidade. A reflexão científica quanto a essa característica não aparece como produto de uma aspiração intelectual de unidade ou de perfeição teórica. Trata, na realidade, de dar respostas à exigências do poder político ou das instâncias de aplicação judicial do Direito, impotentes na batalha dos ordenamentos nacionais contra a criminalidade transnacional.32