A fabricação de peças e componentes se desenvolvia em um conjunto de três oficinas de carpintaria, armação e pré-moldagem, dispostas de forma linear, de modo a seguirem uma linha de produção em série de: formas de madeira, armações de ferro e peças pré-moldadas em concreto armado que eram conduzidas à área de Concretagem in loco.
Entre as oficinas, um conjunto de guindastes e pórticos rolantes sobre trilhos mobilizaria longitudinalmente as peças que eram produzidas em medida exata, destinadas a uma dada parte da Concretagem in loco da
usina (ou destinadas à produção de peças na oficina seguinte de pré- moldados92).
Figura 2.11 – Sítio de Fabricação de Peças e Componentes (CCCC, 1968, desenho) Podemos avaliar que a industrialização das peças seria limitada pela própria variabilidade do produto da construção, na medida em que a demanda por produtos das oficinas seriam variadas, conforme o desenho da parte da construção a que se destina. Assim, apesar de serem produzidos em larga escala, não haveria uma padronização semelhante a uma fábrica fordista93.
92 As peças pré-moldadas seriam empregadas tanto no acampamento como em partes da
estrutura da usina. Na construção da estrutura da usina, as peças pré-moldadas seriam: vigas da subestação, nas pontes sobre os vertedouros, e como estrutura na plataforma de operação das comportas de emergência. Na construção do acampamento seriam mais amplamente empregadas como postes, canaletas, tubos diversos, estrutura da rodoviária e dos clubes, e outros.
93 A empresa procurava adotar medidas visando à padronização das peças; afirma que
para a produção das formas de madeira [...] é desejável [...] a padronização dos painéis, visando com sua composição, obter unidades de maior área, conseguindo assim economia de mão-de-obra e equipamento CAMARGO CORRÊA, : )))- / . Da mesma maneira, quanto ao emprego de pré-moldados que por princípio é produto padronizado a empresa indica que [...] é desejável intensificar as soluções com pré-moldados [...] para não se chegar a volumes de escoramento [...] totalmente fora das possibilidades do mercado fornecedor CAMARGO CORRÊA, : )))- / . Nota-se que a padronização não
carpintaria
pré-moldagem armação
Figura 2.12 — Fabricação de Peças e Componentes por um sistema de Pré-fabricação (CAMARGO CORRÊA, s.d., slide; CAMARGO CORRÊA, 1967: III-2).
Em cada Oficina, uma série de bandejas e mesas rolantes transitaria por trilhos (de um lado ao outro da menor extensão da oficina), levando as peças de máquina em máquina (uma corta, outra dobra, outra desempena etc.) para a sua produção. Dessa forma, cada produto passaria por uma série de linhas de produção, onde várias equipes de trabalhadores seriam mobilizadas para produzir, nos diversos produtos requisitados, as características apropriadas prescritas no projeto de cada peça. No plano de trabalho na oficina de carpintaria observa-se que
A movimentação da madeira até as máquinas de preparo das mesmas, será feita por carros com rodas de pneus, tracionados por trator agrícola [...]/ A distribuição da madeira preparada para as diversas pranchetas, será
um trabalho mais econômico menos mão de obra, equipamentos e materiais – no caso do escoramento com vistas à maior produtividade.
feita por carro movimentando-se transversalmente ao eixo principal do pátio./ Fabricados os painéis sobre as pranchetas serão os mesmos transportados em caminhão provido de guincho até o depósito (CAMARGO CORRÊA, 1967: III-4/2).
Logo, é possível supor que, em dado momento, os painéis que compõem a forma de madeira seriam fabricados sobre pranchetas, por trabalhadores que os produziriam, cada qual segundo a especificação técnica característica de seu projeto. No plano de trabalho para o corte e dobramento da ferragem na oficina de armação consta que:
A medida e o corte das barras nos comprimentos do projeto serão feitos em mesas móveis sobre trilhos [...] Em cada mesa existirão na máquina de cortar barras, régua de medida e guinchos, este último com a função de puxar um certo número de barras e posicionando-se convenientemente em relação à máquina de cortar. [...] Paralelamente aos trilhos das mesas de corte está previsto outro sistema de trilhos sobre os quais correm mesas de rolos [...] [que] tem a finalidade de manter a continuidade no dobramento e independência com relação ao abastecimento [...] (CAMARGO CORRÊA, 1967: III-5/3-4).
Como se vê, na linha de produção em série das oficinas de carpintaria, armação e pré-moldagem, o transporte principal dos materiais era realizado em fluxo articulado, através de uma série de maquinismos: guindastes sobre trilhos, pórticos rolantes, guindastes móveis etc. No entanto, muitos trabalhadores aparecem sendo empregados de forma complementar, em procedimentos não completamente industrializados, sendo que grande parte da mão de obra era empregada na condição de ajudantes ou serventes, isto é, na qualidade de trabalhador polivalente; outra parte eram trabalhadores especializados, como carpinteiros, soldadores etc., aqui empregados num trabalho invariável , na operação de maquinismos e instrumentos específicos para o corte e a dobra do ferro, para a confecção de painéis de madeira etc. Mas, nota-se, sobretudo, que o trabalho era mantido sob a cadência dos procedimentos mecânicos, cujo ritmo era determinado pelo fluxo do transporte.
Para Souza (1986: 121), o fluxo mecânico que se desenrola no canteiro de uma usina hidrelétrica, contando com um sistema de ramificações e
ligações a longa distância (como os autotransportadores, as esteiras e as pontes rolantes), responderiam tanto à necessidade de uma certa fluidez no processo de trabalho, quanto à de impor um ritmo de trabalho às demais equipes da obra, tanto as de trabalhos variáveis quanto invariáveis. Como vimos, documentação de Ilha Solteira também afirma o estabelecimento de um sistema de fluxo mecânico , implementado como meio de interligar os vários sítios da obra (CAMARGO CORRÊA, 1967: III-2). Souza considera que, mesmo havendo a presença significativa dos trabalhos variáveis e o desenvolvimento de uma produção manufatureira (1986: 118), poderia se afirmar que, especialmente na fabricação do concreto e na fabricação de peças e componentes, "[...] um sistema de postos fixos tende a ser implantado com o caráter de tornar-se um pólo estruturante do processo de trabalho global sobre o canteiro de construção" (1986: 126). Para ela, ainda que significasse a industrialização apenas de certos segmentos do processo de trabalho (1986: 141), esses segmentos e, principalmente, a fabricação do concreto, significavam o coração da obra : para onde chegam todos os produtos dos demais sítios e de onde seriam redistribuídos (1983: 120)94. Segundo Souza, o objetivo das empresas seria, dessa forma, reduzir os tempos mortos mediante a interconexão dos segmentos parcelados de uma ou várias operações, através da industrialização ou mesmo da automação de um segmento central (1986: 140-141).
No entanto, é preciso comparar essas atividades ao trabalho no sítio da concretagem in loco, no qual se percebe que esse "sistema de fluxos mecânicos" parece não acontecer da mesma maneira como ocorre principalmente na fabricação do concreto e de peças e componentes, para,
94 Souza, analisando a parte industrial do canteiro, que em )lha Solteira corresponde ao
sítio de Fabricação de peças e componentes e fabricação do concreto, considera que o canteiro industrial constitui, por assim dizer, o nó produtivo da construção da barragem, mas também do restante da cidade operaria, que acompanha normalmente estas grandes obras SOUZA, : .
em seguida, observarmos, no conjunto das atividades, o ritmo geral da obra.