As New Towns inglesas aparecem no relatório Planejamento de )lha Solteira: as condições de implantação do n’cleo urbano (BRUNA; REIS FILHO; SAMPAIO) como exemplos à constituição de um novo estatuto jurídico71. Conforme visto, o conceito de estrutura urbana flexível , adotado na forma urbana de Ilha Solteira, provinha de um campo de debate na década de 1960 com grande repercussão na revista Ekistics. Este periódico circulava amplamente pelos escritórios de planejamento urbano, entre urbanistas que lidavam com a prática do planejamento.
Analisamos, naquele momento, como o conceito de estrutura urbana flexível , à maneira como estaria sendo elaborado no planejamento urbano de Ilha Solteira, associava-se aos projetos de cidades novas na )nglaterra, que era referencial difundido pela revista Ekistics. Citamos, especialmente, o exemplo do projeto de South Hampshire, que fora concluído em 1966 por Colin Buchanan e publicado em seguida pela revista.
Vejamos agora, a partir do relatório Planejamento de )lha Solteira: as condições de implantação do n’cleo urbano (BRUNA; REIS FILHO; SAMPA)O examinado anteriormente, como as cidades novas britânicas seriam referenciais não apenas para a construção de uma estrutura urbana flexível no desenho urbano, mas também para a gestão do empreendimento.
As cidades novas inglesas da ’ltima fase72, do programa de Reconstrução do Pós-Segunda Guerra Mundial, foram implementadas a partir no New Town Act de 1946.
71 Já analisamos, no item . , como faziam parte de um referencial urbanístico ao
planejamento de )lha Solteira, usado pelo escritório Planemak.
72 Na )nglaterra, em , é criado o London Country Council pelo Partido Trabalhista que
acabara de assumir o poder e implantara o programa de reconstrução do pós-guerra. Em o London Country Council foi substituído pelo Greater London Council e assumiu a função de coordenar uma área maior que a do condado de Londres. As cidades que Ernest
Tomando o próprio documento do New Town Act de 1946 para análise, observa-se que o primeiro ato para a formação dessas New Towns era a constituição das Corporações de Desenvolvimento.
If the Minister is satisfied, after consultation with any local authorities who appear to him to be concerned, that it is expedient in the national interest that any area of land should be developed as a new town by a corporation established under this Act, he may make an order designating that area as the site of the proposed new town (New Town Act, 1946: paragr. 1)
As Corporações de Desenvolvimento seriam criadas uma para cada cidade e ficariam responsáveis não apenas pela construção das cidades novas, mas também por sua administração.
For the purposes of the development of each new town the site of which is designated under section one of this Act, the Minister shall by order establish a corporation (hereinafter called a development corporation) consisting of a chairman, a deputy chairman and such number of other members, not exceeding seven, as may be prescribed by the order; and every such corporation shall be a body corporate by such name as may be prescribed by the order, with perpetual succession and a common seal and power to hold land without license in mortmain./ The objects of a development corporation established for the purposes of a new town shall be to secure the laying out and development of the new town in accordance with proposals approved in that behalf under the following provisions of this Act, and for that purpose every such corporation shall have power to acquire, hold, manage and dispose of land and other property, to carry out building and other operations, to provide water, electricity, gas, sewerage and other services, to carry on any business or undertaking in or for the purposes of the new town, and generally to do anything necessary or expedient for the purposes of the new town or for purposes incidental thereto. (New Town Act, 1946: parags. 2.1 — 2.2) Essas Corporações, portanto, assumiriam o papel de uma prefeitura local sem ser uma prefeitura, o que fica claro no artigo da lei referente à liquidação da empresa:
At any time after an order has been made under the last foregoing subsection, the Minister may, with the consent of the Treasury, by order provide for the transfer of the undertaking or any part of the undertaking of the corporation to such local authority (being an authority within
whose area the new town is situated) as may be specified in the order or, in so far as that undertaking consists of a statutory undertaking, to such statutory undertakers as may be so specified […](New Town Act, 1946: parags. 5.2)
Assim, as Corporações de Desenvolvimento assumiriam a administração das novas cidades para exercer todas as funções de uma prefeitura, sem que seus membros fossem representantes eleitos pela cidade. No Reino Unido essas empresas são consideradas QUANGO s - quasi non-
governmental organizations, que executam funções governamentais sendo,
no entanto, um non-departmental public body 73.
Não é possível avaliarmos se essas Corporações de Desenvolvimento e a legislação que as fundamentam faziam parte de referencial exato para a formulação da AEIS na cidade-acampamento de Ilha Solteira, porém, numa perspectiva de estudo de análise genealógica do regime de verificação das práticas de empresariamento da cidade, é preciso considerar que as Corporações de Desenvolvimento tiveram um papel importante no processo de produção de experiências de séries de práticas nesse sentido. Ao menos essa parece ser a interpretação de Peter Hall (2002).
Hall (2002), ao avaliar, em algumas experiências na Inglaterra e Estados Unidos, o processo de transformação do planejamento convencional em seu avesso , que seria o planejamento estratégico , já nos idos dos anos e que corresponderia à produção da cidade do empreendimento ou da cidade-empresa — como chamamos atrás —, conclui que se formularia aí um novo tipo de parceria entre governo e setor privado, com o objetivo de alavancar a valorização imobiliária e expandir os empregos nas cidades, o que requeria um planejamento não de controle do crescimento urbano, mas de seu estímulo. Nessa fórmula, ele destacaria o papel que tiveram as Corporações de Desenvolvimento no processo de
73 Veja a respeito em: http://en.wikipedia.org/wiki/Development_Corporation;
urbanização, baseado na associação entre fundos públicos e privados, e que passava a ter como agente chave o empreendedor : -413).
Assim, o subvencionamento federal, conjugado com uma nova visão de investimento em empreendimento lucrativo por parte do setor público, e a cooperação entre os empreendedores do setor público e privado foram elementos decisivos da nova fórmula (HALL, 2002: 413).
Dessa maneira, o autor analisa a exposição do Conselho de Planejamento Econômico, em que se revelaria a razão da urbanização realizada por meio das Corporações de Desenvolvimento:
[...] razoavelmente livre de interferências políticas e livre para dar prosseguimento à tarefa; somente isso, [o Conselho de Planejamento] afirmava, daria ao investidor privado a confiança de aderir ao projeto (HALL, 2002: 417).
Para Hall, tratava-se da fórmula da política urbana neoliberal que se desenvolve e se difunde na década de 80 na Inglaterra e, segundo demonstra, teria sua causa raiz nas décadas de 1950 e 1960 especialmente na experiência das New Towns com a constituição das Corporações de Desenvolvimento. Segundo avalia:
Verificou-se aqui uma divertida ironia histórica. A Corporação de Urbanização [Development Corporation] foi o dispositivo centralista, orientado de cima para baixo, não democrático e burocrático escolhido pelo governo radical trabalhista de Clement Attle de 1945 para a construção das novas cidades britânicas [...] a Corporação de Urbanização tornava-se agora o esquema preferido dos conservadores para a recuperação das áreas intra-urbanas e exatamente pela mesma razão alegada pelo Comitê Reith sobre as novas cidades há 35 anos: evitando as sutilezas democráticas do governo local, poderia ser eficiente e, acima de tudo, rápida74 (HALL, 2002: 418).
Seria, então, a partir da interpretação dessa correlação histórica que Peter (all avalia a produção das cidades novas inglesas da seguinte maneira:
74 (all, comparando a produção das Docas de Londres do ano de - com a cidade
nova de Sevenage e Crawley [década de ], por exemplo, diz: [...] a Corporação Urbanizadora provou que tinha poderes para cortar fitas vermelhas. Arrancou das autoridades locais poderes até então não conseguidos. [...] e os utilizou para acolher, de
Assim, ironicamente, enquanto de um só golpe resolviam eles o eterno problema de como conseguir financiar as novas cidades, também destruíam a essência do plano de Howard [das cidades-jardins em que teoricamente se baseavam], que era obter fundos para a criação de sistemas previdenciários locais autogeridos. O planejamento de cima para baixo levou a melhor sobre o de baixo para cima; da visão howardiana da cidade-jardim, a Inglaterra ficaria apenas com a casca, sem a substância (HALL, 2002: 153).
O movimento que Hall sinaliza parece demonstrar as contradições — que ele chama de ironia histórica — de um planejamento urbano que nasce nas décadas de 1950/1960 já marcadamente conservador, isto é, sem o dispositivo radical que daria condições para sua base autogestionária, porém travestido de utopia de construção de novas cidades pelo então governo radical trabalhista. Mas, segundo Hall, revelaria sua essência ideológica à medida que sua fórmula se reproduziria nos exemplos das cidades do planejamento liberal estratégico dos anos 1980, cuja razão se apresentaria objetivamente com o interesse de evitar as interferências políticas em função das necessidades práticas (pela eficácia e rapidez). Retomamos a análise de Hall para assinalar o movimento dialético, que se pode observar no seu argumento, entre utopia e ideologia, para comparar o seguinte: se o objetivo pragmático e conservador do planejamento das cidades novas inglesas, tal como Hall assinala, pode ser associado à tese de Doxiadis75, acreditamos que, ao contrário de Hall, não poderíamos afirmar que nas experiências das cidades novas inglesas, ou ainda, na experiência de Ilha Solteira, haveria uma contradição entre utopia e ideologia, como apresenta o autor76. No caso de Ilha Solteira, é possível perceber que os discursos que estariam a construir a verdade do empresariamento urbano, prescindem de qualquer referência a uma virtualidade dessa experiência urbanística, e seus formuladores não se constrangem a desenvolver qualquer face utópica desse empreendimento. Ao contrário, parece tratar-
75 Como vimos atrás, com a análise das cidades novas inglesas.
76 Não apenas (all compreende as contradições na história da urbanização
moderna na dialética entre utopia e ideologia, mas também outros autores como Arantes , Tafuri , Oliveira , como discutiremos ao fim do capítulo .
se de um ter de um campo de experimentação de dispositivos do empresariamento urbano como um laboratório tópico cujo objetivo seria obliterar um horizonte utópico da produção do espaço.
Por isso, para a sua compreensão, torna-se preciso centrar a pesquisa em categorias de análise e referências teóricas apresentadas pelas séries de práticas de discursos, técnicas, mecanismos, processos, que se manifestam do objeto empírico. Desse modo, analisemos o outro referencial que é exposto na documentação que foi usado para justificar a proposta dos mecanismos de administração empresarial e de estatuto condominial.