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A ideia de que as experiências são ocorrências que envolvem capacidades conceituais é denominada por McDowell de empirismo mínimo.Por empirismo mínimo entende:

(EM) a ideia de que a experiência deve ser um tribunal mediando à maneira pela qual nosso pensamento é responsável perante o modo como as coisas são, coisa que deve acontecer se quisermos dar sentido ao pensamento enquanto tal (McDowell, 2005, p. 57).23

McDowell considera que a intuição básica do empirismo a de que “experiência deve funcionar como um tribunal24, oferecendo vereditos a respeito do mundo”, pode tornar inteligível a ideia dos nossos episódios mentais enquanto direcionados para o mundo. O que

23 Identificaremos em nosso trabalho a noção de empirismo mínimo por (EM).

24 Quine, W. V. “Dois dogmas do empirismo”; In. De um Ponto de Vista Lógico; tradução Antonio Ianni

Segatto. – São Paulo: Editora Unesp, 2011, p. 65. Além Quine, podemos incluir Kant como filosofo que atribui papel fundamental a experiência como fonte de conhecimento.

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pode ser descartado do empirismo é a experiência entendida como dados brutos ou estimulações sensoriais, já que pode nos levar tanto ao Mito do Dado, quanto nos pressionar a abandonar o empirismo. Duas consequências que McDowell deseja evitar.

Para entender o caráter conceitual da experiência e o seu papel no conhecimento empírico precisamos entender a divisão proposta por McDowell entre o espaço lógico das razões e o espaço lógico da natureza. Divisão que em seu espirito é profundamente sellarsiana. Sellars afirma que:

Ao caracterizar um episódio ou um estado como de conhecimento, não estamos dando uma descrição empírica de tal episódio ou estado; nós o estamos situando no espaço lógico das razões, do justificar e ser capaz de justificar o que se diz (Sellars, 2008, p. 81).

Nesta passagem Sellars estabelece como o domínio da normatividade o espaço lógico das razões, o espaço das justificações. Nesse espaço está situado o conceito de conhecimento. Por outro lado, descrever alguma coisa sensorialmente significa posicionar esse algo no espaço lógico da natureza. McDowell define o espaço lógico da natureza: “como o espaço lógico no qual funcionam as ciências naturais, o domínio da lei” (McDowell, 2005, p. 27). Parece correto afirmar que tanto Sellars, quanto McDowell querem marcar uma diferença entre as relações que constituem o espaço lógico da natureza e as relações que constituem o espaço lógico das razões. Posta a dicotomia, de que forma podemos tornar plausível a ideia de experiência?

Se negociarmos exclusivamente com a ideia de impressão, estaremos jogando com o domínio da natureza, e desta forma não estaremos falando de uma relação normativa, portanto, de conhecimento. Vejamos nas palavras de McDowell:

Identificar algo como uma impressão é posicionar esse algo num espaço lógico diferente daquele no qual cabe falar em conhecimento – ou, para mantermos o caso geral diante dos olhos, no qual cabe falar em direcionamento ao mundo, quer isso redunde em conhecimento ou não (McDowell, 2005, p. 27).

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Experiência interpretada como impressões, dados ou sensações não pode servir como um tribunal e não pode servir como uma instância ao qual o pensamento empírico deva satisfações. Pensar que possa servir é correr o risco de cair em o que McDowell chama de falácia naturalista: “supor que a descrição empírica possa ser equivalente a posicionar coisas no espaço lógico das razões” (McDowell, 2005, p. 28).

Uma forma plausível de concebermos a experiência perceptiva, para que funcione como um tribunal aos quais os nossos pensamentos devem satisfações, é considerá-la como ocorrências conceituais. Significa interpretar as nossas impressões sensoriais externas como moldadas por nosso aparato conceitual. Dessa forma, as impressões podem ser acomodadas ao espaço lógico das razões. Impressões são casos em que as coisas aparecem a um sujeito sendo de determinada forma. Diz McDowell:

Numa experiência específica na qual alguém não está iludido, o que essa pessoa observa é que as coisas são de tal e tal modo. Que as coisas são de tal e tal modo é o conteúdo da experiência, e também pode ser o conteúdo de um juízo: torna-se o conteúdo de um juízo caso o sujeito decida tomar a experiência por seu valor de face. Nessa medida, ele é um conteúdo conceitual. Mas que as coisas são de tal e tal modo também é, o caso não estejamos iludidos, um aspecto da disposição geral do mundo: é o modo como as coisas são. Assim, a ideia de operações de receptividade conceitualmente estruturadas nos permite falar na experiência enquanto abertura para a disposição geral da realidade. A experiência permite que a própria disposição da realidade exerça influência racional sobre aquilo que o sujeito pensa (McDowell, 2005, p. 63).

Entender a experiência perceptiva como ocorrências conceituais traz uma exigência transcendental. Exigência de conceber nossas experiências perceptivas como abertura para a realidade. Entender as experiências desta forma nos traz duas garantias: (i) nossa intencionalidade, nosso direcionamento ao mundo; (ii) justificações de nossas crenças e juízos empíricos. O preço a pagar em conceber a experiência perceptiva como envolvendo capacidades conceituais é a necessidade de defender que este conteúdo é estruturado proposicionalmente.Por outro lado, podemos considerar que McDowell consegue recuperar o mundo. Escreve McDowell: “que o conteúdo conceitual de uma experiência, caso o sujeito

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não esteja iludido, que as coisas são de tal e tal modo é também um fato perceptível, um aspecto do mundo perceptível” (McDowell, 2005, p. 63).

Contudo, o que se tem em vista ao afirmar que a experiência envolve capacidades conceituais é “a possibilidade de atribuir às experiências uma influência racional sobre o pensamento empírico” (McDowell, 2005, p. 89). O mundo não exerce uma coerção cega sobre a nossa sensibilidade. A experiência perceptiva não nos fornece dados ou estímulos sensoriais. A realidade imprime-se sobre nossas capacidades conceituais fornecendo crenças. O sujeito X tem uma razão para justificar uma crença empírica Y se e somente se a crença Y é resultado de um constrangimento racional vindo de fora. McDowell quer igualar o caráter intencional ao epistêmico. Epistêmico significa o envolvimento de capacidades conceituais, dessa forma, podemos afirmar que intencionalidade para McDowell é conceitual. Os conceitos seriam os responsáveis em recuperar a relação entre a mente e o mundo. Seriam os as ferramentas epistêmicas responsáveis por recuperar o mundo externo, perdido por correntes herdeiras do cartesianismo.

Benzer Belgeler