2. MAKĠNE ÖĞRENMESĠ
1.5. K-EN YAKIN KOMġULUK
Passando a tratar das atividades de serviços, inicio a discussão destacando que os parâmetros utilizados para a indústria não podem ser reproduzidos mecanicamente para o setor de serviços. Ele constitui um caso relativamente mais complicado, visto a elevada heterogeneidade de suas configurações técnicas, a menor disponibilidade de informações estatísticas e a menor atenção dispensada por parte dos analistas. Tudo isso, em conjunto, significou uma menor sedimentação do debate taxonômico em torno das atividades terciárias, tornando o trabalho classificatório de difícil execução.
Adicionalmente, a consideração do debate sobre inovação nos serviços sugere cuidados extras a serem tomados (GALLOUJ; WEINSTEIN, 1997; MARKLUND, 2000; MILES, 2005), os quais desencorajam o estabelecimento de metodologias e técnicas de mensuração da inovação convergentes com a indústria. Por um lado, a inovação em serviços é menos dependente do esforço em P&D, com a maioria das atividades e empresas não o fazendo109, configurando assim um padrão distinto, em que a inovação
não-tecnológica possui um peso relativamente maior. Por outro lado, há questões relacionadas às especificidades dos serviços, como o seu caráter intangível, a dificuldade de distinção entre inovação de produto e de processo e a importância relativamente maior dos fatores humanos e organizacionais para a sua competitividade e produtividade.
Com tais ponderações em mente, a classificação do setor de serviços escolhida inspira-se na tipologia da Eurostat (2008). Ela, por sua vez, extrapola os denominados
knowledge-intensive Business Services (KIBS), migrando para um grupo mais
abrangente, chamado de Knowledge Intensive Services (KIS) – Serviços Intensivos em Conhecimento (SIC), em português.
De acordo com a proposta, os serviços podem ser agrupados como atividades intensivas ou não-intensivas em conhecimento, a partir de critérios de similaridade entre atividades. São características dos SIC um maior esforço em P&D e um maior recurso à inovação, o uso intensivo de tecnologias de informação e o emprego de mão de obra altamente qualificada. Complementarmente, subdivisões internas aos SICs e aos não- SICs podem ser feitas de acordo com a natureza do serviço prestado. Questões relacionadas ao momento da prestação do serviço (antes, durante ou após o processo produtivo) e ao demandante do serviço (outras empresas, sociedade ou indivíduos/famílias) ajudam na composição dos subgrupos (COMIN, 2003).
À classificação da Eurostat, séries de aperfeiçoamentos foram realizadas, bem como foram efetuadas as compatibilizações necessárias para as Cnae 1.0 (TORRES- FREIRE, 2010; TORRES-FREIRE; ABDAL; BESSA, 2012) e 2.0 (TORRES-FREIRE; ABDAL; CALLIL, 2011)110. Importante dizer que preocupações com a comparabilidade
entre Cnaes e com a possibilidade de confecção de séries históricas, atendidas mediante uma aplicação à listagem de atividades dos mesmos critérios classificatórios, foram mais de ordem lógica do que de ordem propriamente empírica, pois não foram solucionadas via uma classificação rigorosa das mesmas atividades. Isso porque optamos por incorporar à classificação, de forma mais intensa para os serviços do que para a indústria, os ganhos advindos da reforma da Cnae em meados dos anos 2000. As justificativas para tal procedimento dual referem-se: (i) ao caráter mais artesanal da classificação dos serviços, o qual depende de uma abertura a quatro dígitos para ambas as Cnaes; (ii) à menor possibilidade de comparação, dada a inexistência de uma classificação relativamente consensual que esteja sedimentada no debate internacional sobre serviços; e (iii) à inexistência de um critério objetivo e mensurável para os serviços, tal qual o P&D é para a indústria.
O processo de construção e depuração da taxonomia das atividades de serviços pode ser dividido em três momentos. Em um primeiro, tendo a Cnae 1.0 como referência, delineamos cinco grupos de SICs com os quais trabalhamos, o que significou, na comparação com a taxonomia da Eurostat, a criação dos grupos SIC
110 Os resultados finais do trabalho classificatório, para as duas Cnaes, estão disponíveis nos anexos 2 e
Mídia, SIC Sociais e SIC Profissionais, bem como a realização de pequenas adaptações nos já existentes SIC Tecnológicos e SIC Financeiros. Posteriormente, compatibilizamos a classificação para a Cnae 2.0, ao mesmo tempo em que procedemos a pequenas adaptações. A mais significativa foi a incorporação das atividades culturais ao SIC Mídia, transformando-o em SIC Mídia e Cultura e, assim, ampliando a interlocução com o debate sobre economia da cultura e economia criativa. Por fim, já no âmbito desta pesquisa, procedo a uma maior segmentação do que era até então chamado demais serviços, subdividindo-os em Demais Serviços Produtivos (basicamente as atividades intermediárias às empresas de apoio à produção, mas que não lidam intensamente com o conhecimento) e Demais Serviços às Famílias (conjugando serviços sociais, como educação e saúde, e serviços pessoais, destinados a demandas individuais, também não classificados como intensivos em conhecimento)111.
O resultado é uma organização dos serviços da seguinte maneira:
• SIC Tecnológicos (SIC-T): telecomunicações, tecnologia da informação (TI), tratamento de dados e hospedagem na internet, serviços de arquitetura e engenharia, testes e análises técnicas e P&D das ciências físicas e exatas. • SIC Profissionais (SIC-P): atividades jurídicas, contábeis e de auditoria,
consultoria em gestão empresarial, P&D das ciências sociais e humanas, publicidade e pesquisa de mercado, design e fotografia.
• SIC Financeiros (SIC-F): atividades financeiras e auxiliares, seguros, previdência complementar, planos de saúde.
• SIC Sociais (SIC-S): educação superior, educação profissional de nível técnico e tecnológico, atividades de apoio à educação e atividades de atenção à saúde humana (hospitais e laboratórios).
• SIC Mídia e Cultura (SIC-MC): edição, atividades cinematográficas e de vídeo, som e edição de música, atividades de rádio e televisão (R&TV) e de agências de notícias, atividades artísticas, criativas e de espetáculos e ligadas ao patrimônio cultural e ambiental.
111 Lembro que as atividades agropecuárias, extrativas, da construção civil, comercial-distributivas e da
• Demais Serviços Produtivos (DS-P): Eletricidade, gás, água, gestão de resíduos, transportes em geral, correio, atividades imobiliárias, agências de viagens, vigilância, segurança e investigação, seleção, agenciamento e locação de mão de obra, serviços para edifícios e atividades paisagísticas.
• Demais Serviços às Famílias (DS-F): alojamento, alimentação, veterinária, educação infantil, ensino fundamental e médio (não-técnico), serviços de assistência social, parques nacionais, jogos de azar e apostas, atividades esportivas e de lazer, organizações associativas, reparação e manutenção de equipamentos de informática e comunicação e de objetos pessoais e domésticos, serviços pessoais e domésticos e organismos internacionais.
4.3 Considerações teórico-metodológicas sobre a classificação: uma defesa de