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3. BÖLÜM

4.2. Kolektivist-Liberteryen Eğilimler

Nem sempre a Igreja foi responsável pelo casamento e nem sempre ele foi considerado um dos sacramentos. Na antiquidade, o casamento era ato privado e, só aos poucos, foi sofrendo ingerências do Catolicismo. Segundo Vainfas56, com a queda do Império Romano, foram notadas inúmeras transformações sociais, econômicas e políticas, dentre elas a expansão do cristianismo. O matrimônio, neste período, passou a ser um amálgama dos costumes romanos e das novas tradições de povos germânicos e permanecia como ato doméstico. A Igreja hesitava, a princípio, porque oscilava entre o combate e a defesa do matrimônio. Isso porque, segundo o mesmo autor, a Igreja pregava o ascetismo, cujos valores essenciais eram a virgindade e a continência. O casamento, portanto, longe de ser mandamento divino ou sacramento, era “remédio para os desejos da carne”. Os teólogos, nesse sentido, viam-se perante um dilema: defendiam a virgindade, execrando o casamento, mas tinham que resguardá-lo como freio aos pecados, pois homens e mulheres se casavam e isso deveria ser regulamentado de alguma forma.

O casamento, no direito antigo, antes da interferência da Igreja, se realizava por três modos: a confarreatio, o usus e a coemptio. A confarreatio tinha um caráter religioso e era concretizada por ato solene, fazendo-se várias oferendas aos deuses, dentre elas um bolo de farinha, e pronunciando-se juramentos na presença de testemunhas. Era a única forma de casamento aceita pelos romanos, mas, pela sua própria celebração, se encontrava restrita aos nobres (patrícios). O usus foi o modo encontrado para se reconhecer juridicamente as uniões sexuais das classes inferiores, sendo caracterizado pela co-habitação pelo período de um ano sem interrupções. Quando, posteriormente, proibiu-se o casamento entre o patriciado e a plebe, houve necessidade de uma nova forma de união que pudesse ser comum às duas classes. Foi então que surgiu a coemptio. Todas essas formas, entretanto, começaram a cair em desuso no século IV, justamente após Constantino. Foi o momento em que a Igreja conseguiu fazer penetrar seu direito nas legislações oficiais, embora não tenha obtido prerrogativas legislativas em relação ao casamento. Antes de Constantino, a Igreja até

56

VAINFAS, Ronaldo. Casamento, amor e desejo no ocidente cristão. 2. ed. São Paulo: Ática, 1992. P. 7, 12, 25.

legislava sobre casamento, mas não tinha qualquer valor oficial, obrigando somente aos cristãos.57

A Igreja passou, então, a utilizar as pregações de Paulo para a justificação do casamento. Na primeira Epístola aos coríntios, embora Paulo defendesse a virgindade e a continência, reconhecia o perigo gerado pela impudicícia e oferecia como solução que cada homem tivesse apenas uma mulher e cada mulher apenas um homem, devendo ambos guardar deveres recíprocos e não se recusarem um ao outro, a não ser por comum acordo e temporariamente, para se dedicarem a orações. Recomendava, ainda, às viúvas e aos solteiros que melhor seria que ficassem castos, “mas, se não podem guardar a continência”, dizia o Apóstolo, “casem-se. É melhor casar do que abrasar-se”. Ele entendia o casamento como “concessão” e não como “ordem”, pois o maior objetivo desta união era evitar a incontinência. Mas como ele pregava que Deus conferia dons diversos a cada pessoa, compreendia a necessidade do matrimônio para evitar mal maior e o defendia sob esse ponto de vista.58

O casamento conquistou, enfim, o seu lugar no mundo do sagrado, a partir do século IX e foi aceito como o espaço legítimo para a realização dos prazeres, desde que voltados unicamente para a procriação. Os esposos eram submetidos a regras de continência quanto ao lugar, ao tempo e às posições do coito. A oposição inicial entre virgindade e matrimônio transformou-se numa nova entre prazer fora do casamento e prazer dentro da relação conjugal. Toda relação não-conjugal e todo ato não-procriativo estavam no reino do ilícito.59

No século XI, tendo em vista o enfraquecimento do poder real e o desenvolvimento da autoridade espiritual, a Igreja conquistou um poder quase absoluto sobre o matrimônio. Afirmou-se, então, a impossibilidade da separação do contrato do sacramento.60

57 Cf. SOUZA, António José Ferreira Marnoco e. História das instituições do direito romano, peninsular e

português: preleções feitas ao curso do 2º ano jurídico do ano de 1904 a 1905. 3. ed. Coimbra: França Amado Editor, 1910. P. 447-456. Disponível em: <http://bdjur.stj.gov.br/dspace/handle/2011/20246>. Acesso em 15 de fevereiro de 2012.

58 BIBLIA. Português. Bíblia sagrada. Revisão de Frei João José Pedreira de Castro. 147. ed. São Paulo: Ed.

Ave Maria, 2002. I Coríntios, Cap. 7, vers. 1-9. P. 1470.

59

Cf. VAINFAS, Ronaldo. Casamento, amor e desejo no ocidente cristão. 2. ed. São Paulo: Ática, 1992. P. 59, 74.

60 SOUZA, António José Ferreira Marnoco e. História das instituições do direito romano, peninsular e

português: preleções feitas ao curso do 2º ano jurídico do ano de 1904 a 1905. 3. ed. Coimbra: França Amado Editor, 1910. P. 457. Disponível em: <http://bdjur.stj.gov.br/dspace/handle/2011/20246>. Acesso em 15 de fevereiro de 2012.

Em reação à reforma protestante, no século XIV, foi realizado o Concílio de Trento (1545-1563), que estabeleceu novos rumos para a Igreja, com o fim de unificar a cristandade fracionada. Em relação às decisões tridentinas, Villalta ressalta as principais e explica os objetivos pretendidos pela Igreja Católica:

[...] Nas deliberações do Concílio de Trento (1545-1563), marco da Contra-Reforma propriamente dita, veem-se posições antagônicas às defendidas pelos protestantes: a confirmação dos sete sacramentos (batismo, crisma, matrimônio, penitência, ordenação, comunhão e extrema unção) e do papel do homem na sua própria salvação (embora aceitasse como crucial a intervenção de Cristo na redenção da alma); a exaltação da Virgem e dos Santos; a não aceitação da Bíblia e da missa em língua vulgar (os documentos litúrgicos, especialmente o Missal, deviam ser publicados apenas em latim); e, finalmente, a recomendação da publicação de um Índex de livros proibidos. A repressão, ademais, além dos protestantes, atingiu ampla gama de atores que, em suas posições face à religião, aos costumes e à moral, desviavam-se do catolicismo. No mundo ibero-americano, dentre esses, podem ser citados os cristãos-novos suspeitos de reincidirem em práticas judaicas, os feiticeiros, os sodomitas, os concubinários, os bígamos, os defensores de proposições heréticas, os “libertinos”, etc.

Pode-se falar no desenvolvimento de uma “pedagogia do medo” pela Igreja católica [...] constituída pela intimidação sistemática das populações e que fazia da utilização dos castigos, de encenações teatrais e de atos penitenciais, instrumentos de atemorização e, com isso, de educação dos fiéis. A pedagogia do medo desenvolvida pela Igreja católica teve na Inquisição, nos tribunais eclesiásticos e nas visitações episcopais (com as devassas que podiam acompanhá-las) seus elementos mais fundamentais. Revelam como, na ação desse aparato, misturavam-se a intimidação de consciências, os estímulos à delação e à confissão de heresias e de delitos morais, a exemplaridade das punições e a difusão dos preceitos cristãos. Essa combinação permitia, ao mesmo tempo, a repressão das heterodoxias e a difusão, entre os fiéis, das conformidades defendidas pela Igreja (desencadeando igualmente resistências).61

Segundo Lordello, em relação ao matrimônio, a Igreja pretendeu discipliná-lo, para extinguir, definitivamente, os casamentos clandestinos, que ocorriam sem publicidade e sem as bênçãos católicas. 62 Antes de Trento, portanto, era tolerada a prática dos casamentos clandestinos (sem a presença simultânea do pároco e de duas testemunhas), da qual, entretanto, resultavam gravíssimas consequências, pois o sigilo do ato facilitava a ocorrência de bigamia e a falta de autenticidade da união deixava incerta e vaga a constituição da família. A Igreja, então, decidiu combater esse tipo de casamento, tornando-o nulo.63

61 VILLALTA, Luis Carlos. Prefácio. In: PIRES, Maria do Carmo. Juízes e infratores: o Tribunal Eclesiástico

do Bispado de Mariana (1748-1800). São Paulo: Annablume; Belo Horizonte: PPGH/UFMG; FAPEMIG, 2008. P. 16-17.

62 LORDELLO, Josette Magalhães. Entre o Reino de Deus e o dos Homens: a secularização do casamento no

Brasil do século XIX. Brasília: Editora UNB, 2002. P. 55, 57, 58.

63

PEREIRA, Lafayette Rodrigues. Direitos de família. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2004. P. 54-55.

Além disso, Igreja reafirmou, definitivamente, o casamento como um dos sacramentos de Cristo, para poder exercer maior controle e reagir diretamente à consideração da reforma protestante de que o matrimônio era mero contrato civil.64 A consequência imediata foi a desconsideração de qualquer outra forma de regulamentação do matrimônio. Ou seja, onde os cânones católicos foram recepcionados, o único casamento válido passou a ser o católico. Qualquer outro relacionamento não avalizado pela Igreja Católica era considerado concubinatário. Isso porque, a partir de Trento, ganhou destaque a polêmica, por muito tempo não resolvida, entre casamento como contrato ou sacramento, já que o contrato tridentino do casamento se confundia com o sacramento e ambos pertenciam à Igreja. Sobre o assunto, Teixeira também afirma que:

As disposições do Concílio de Trento sobre o matrimônio foram de caráter muito mais vasto, embora tenham privilegiado, sobretudo, certos aspectos da doutrina e do ritual, como a definição do contrato-sacramento, a celebração solene e pública do mesmo, a verificação dos impedimentos e os problemas em torno do adultério. No que se refere aos casamentos, os decretos emitidos pós-Concílio começam por abordar, precisamente sobre a publicidade do mesmo, nomeadamente através dos chamados proclames afixados na porta da Igreja por alguns dias.65

Em última instância, o que se pretendeu em Trento com a valorização do matrimônio, segundo Pires, foi “vigiar e educar a massa de fiéis, reprimindo relações sexuais e uniões ilícitas que transgrediam o casamento”.66

Portugal, logo no ano seguinte ao término do Concílio, recepcionou as resoluções Tridentinas, que, por extensão, passaram a vigorar no Brasil Colônia, que se regia pela mesma legislação portuguesa. Segundo Marnoco e Souza, somente Portugal, Polônia e Veneza, com os principais Estados italianos, aderiram às disposições tridentinas sem restrições e também:

Logo que chegou a Portugal a bula confirmatória do concílio Benedictus Deus, enviada pelo Papa Pio IV em 26 de janeiro de 1564, como el-rei D. Sebastião desejasse a inteira observância dos decretos do dito concílio, publicou-se o alvará de 12 de setembro de 1564, em que este monarca manifesta aquele desejo e ordena às justiças seculares que deem aos prelados todo o favor e ajuda para o exercício da jurisdição externo-temporal que lhes é atribuída nos decretos tridentinos. A execução destes decretos foi restringida ou pelo menos regulada pelos seguintes diplomas: Carta Régia de 17 de novembro de 1564, determinando que se sobrestasse

64 MACFARLANE, Alan. História do casamento e do amor: Inglaterra, 1300-1840. Trad. Paulo Neves. São

Paulo: Cia. das Letras, 1990. P. 164.

65 TEIXEIRA, Kelly Cristina. O que Deus uniu o homem não separe: modernização, divórcio, gênero e

romanização em Juiz de Fora (1890-1917). 2008. Dissertação de Mestrado em Ciência da Religião – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2008. P. 38.

66

PIRES, Maria do Carmo. Juízes e infratores: o Tribunal Eclesiástico do Bispado de Mariana (1748-1800). São Paulo: Annablume; Belo Horizonte: PPGH/UFMG; FAPEMIG, 2008. P. 32.

no despacho dos que chamem às ordens (invocam o privilegio do foro eclesiástico), enquanto não fossem publicadas as determinações acerca dos decretos do Tridentino, que se referem aos clérigos de ordens menores; Alvará de 24 de novembro de 1564, que regulou a execução dos decretos disciplinares, no que diz respeito a crimes e negócios mixti fori; Assento de 13 de abril de 1565, que suspendeu a Carta Régia de 17 de novembro de 1564 e mandou respeitar o privilégio do foro dos clérigos presos, em harmonia com as determinações do concilio; Provisão de 2 de março de 1568, que determinou que a ajuda do braço secular pudesse ser dada pelos corregedores das comarcas, ouvidores e juízes de fora e outros magistrados, desde o momento em que lhes fossem mostrados os processos e encontrassem tudo regular; Alvará de 19 de março de 1568, que mandou a todas as justiças que não pusessem embargo, mas dessem auxílio e ajuda aos prelados que quisessem exercer a jurisdição concedida pelo Tridentino. 67

As Ordenações Filipinas adaptaram e divulgaram as principais decisões tridentinas em relação ao matrimônio.68 No Brasil, com o casamento a cargo da Igreja Católica, houve forte empenho dos religiosos para regularizar as relações dos habitantes que aqui já viviam e dos migrantes que chegavam. Legitimar as relações na nova colônia serviria muito bem tanto aos propósitos de povoação, por parte do governo português, quanto aos de propagação da fé cristã, por parte da Igreja Católica.

Pensando sempre nesse propósito e tendo em vista alguns maus costumes espraiados na vida privada da sociedade brasileira, bem como a ocorrência de corrupção no próprio clero, detectados pelas visitações, a Igreja decidiu revigorar as disposições tridentinas no Brasil. Após o esforço de Dom Sebastião Monteiro da Vide, foram aprovadas (a redação já estava pronta) as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, no sínodo diocesano realizado na Bahia de junho a julho de 1707. Essas Constituições concentravam a maior parte das normas de Direito Canônico vigentes no país e, para Feitler e Souza, representam um trabalho inédito de adaptação das normas eclesiásticas à realidade local. Isso porque elas surgiram como verdadeiro espelho ideal de funcionamento do aparato religioso e do comportamento da sociedade católica no Brasil. Também se tornaram o principal corpo de leis eclesiásticas não só da Igreja baiana, mas de várias outras dioceses luso-americanas e tiveram uma longevidade impressionante, já que regeram o Arcebispado da Bahia, com

67

SOUZA, António José Ferreira Marnoco e. Direito Eclesiástico: preleções feitas ao curso do 3º ano jurídico do anno de 1908-1909. Coimbra: Typographia França Amado, 1909. Disponível em: <http://bdjur.stj.gov.br/dspace/handle/2011/20251>. Acesso em 25 de janeiro de 2012. P. 86-87.

68 Cf. TEIXEIRA, Kelly Cristina. O que Deus uniu o homem não separe: modernização, divórcio, gênero e

romanização em Juiz de Fora (1890-1917). 2008. Dissertação de Mestrado em Ciência da Religião – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2008. P. 38.

algumas alterações, até fins do século XIX. 69Os mesmos autores ainda dizem que esse corpo legislativo não pretendeu inovar, mas ser o mais fiel possível às disposições tridentinas:

[...] Com efeito, Sebastião Monteiro da Vide, ao organizá-las [Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia], não pretendia inovar nem quanto à forma nem quanto ao conteúdo geral dos seus textos, mas, sim, colá-las ao máximo às disposições do Concílio Tridentino e à já então larga tradição do gênero em Portugal. Assim, as constituições baianas destacam-se menos por suas especificidades do que por sua conformidade com suas congêneres.70

O casamento, então, foi supervalorizado como sacramento e aqueles que pretendiam se casar deviam passar por um ritual específico, para a formação de um vínculo indissolúvel e perpétuo. A edição das Constituições não significou, entretanto, que a Igreja atingira seu objetivo completamente, pois ainda permaneciam altos os índices de concubinato e a corrupção moral do clero, como se percebe na crítica de Pires:

[...] Diante das dificuldades econômicas, institucionais e sociais para realizar o casamento, as relações livres e consensuais se multiplicaram, e o concubinato constituiu uma relação familiar típica dos setores intermediários e grupos populares. Colaborava para isso também uma resistência em aceitar as imposições da Igreja, já que muitos dos seus membros não davam bons exemplos, o que ocorria num universo em que a religiosidade popular costumava afastar-se da oficial.71

Como visto, o casamento, embora fosse a união familiar oficial e única capaz de gerar efeitos civis, não se difundiu, sobretudo, nas classes populares. Um dos motivos para tal fato foi a regulamentação canônica que o cercava.