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Tradução nossa: “não como um conjunto de atividade e repouso, mas o repouso ele mesmo (deve ser) pensado como uma atividade na inatividade”.

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Consideramos essa pergunta um tanto quanto audaciosa de nossa parte. Contudo, ela ressoa com os propósitos de Mallarmé, ainda que este interrogue-se sobre a dança de acordo com perguntas que não são as nossas. Escreve ele: “la danseuse n’est pas une

femme qui danse, pour les motifs juxtaposés qu’elle n’est pas une femme (…) et qu’elle ne danse pas”. (s/d, p. 192). Tradução nossa: “a dançarina não é uma mulher que dança,

O corpo-dançante se apresenta relativo a seu movimento. Nesse sentido, o ponto zero do espaço não seria, sobretudo, o movimento ele próprio? O corpo-dançante, nesse contexto, tem ainda uma realidade? A situação nos parece paradoxal. Se pensarmos o corpo recortado de seu movimento, seria difícil tomá-lo como acontecimento do corpo-dançante; e se o pensarmos numa ontologia do movimento, sua realidade, ela mesma, tornar-se-ia problemática. Como pensar, então, a realidade de um corpo- dançante?

É a partir da filosofia de Espinosa que vamos poder pensar essa realidade do corpo-dançante. O corpo, segundo Espinosa, se constitui por relações de movimento e de repouso, de velocidade e de lentidão. Eis como ele vislumbra a realidade de um corpo:

Quando um certo número de corpos da mesma ou de diversas grandezas são constrangidos pela ação dos outros corpos a aplicar-se uns sobre os outros; ou, se eles se movem com os mesmos grau ou graus diferentes de rapidez, de tal maneira que comunicam os seus movimentos entre si segundo uma relação constante, diremos que esses corpos estão unidos entre si e que, em conjunto, formam todos um corpo, isto é, um indivíduo que se distingue dos outros por essa união de corpos. (1997, p. 238)

Espinosa pensa a realidade do corpo a partir do movimento. O movimento é primeiro ontologicamente; que seja movimento ou aceleração, ou ainda velocidade. Nessa perspectiva, o corpo-dançante é fundamentalmente um agenciamento de movimentos múltiplos e complexos que a dança virá aumentar de movimentos de dança.

Essa maneira de pensar o corpo apresenta diversos interesses. Primeiro: pensar o corpo como um agenciamento de movimentos permite compreender a potência de extensão do corpo-dançante e de sua natureza mutacional. Deleuze retoma a ontologia imanente de Espinosa, na qual todo corpo só se distingue em virtude de suas relações, afirmando, por sua vez, que “toda forma é um composto de relações de forças”. (1991, p. 132). Nesse contexto, a forma “corpo-dançante” só se constitui como passagem de relações de forças, de movimentos. Trata-se de uma individuação mais que

um indivíduo. A individuação induz a idéia de que, de um lado, o corpo- dançante resulta de um processo de formação (ou seja, de movimento) e, de outro lado, a de que se esta forma parecer estável resta sempre produzida por esse mesmo processo, e não como signo de uma constância das relações de forças e de movimentos que a compõem. A individuação se estende à medida que os movimentos entram em relação – uma composição expansiva.

Pensar o corpo-dançante como um agenciamento de movimentos, é poder concebê-lo em sua potência de expansão (e de retração). É, assim, concebê-lo a partir de uma constituição movente e flexível.

Segundo: essa perspectiva de pensar permite compreender de uma nova maneira o que se chama em dança “qualidade de corpo”, uma “presença” ou ainda “a singularidade corporal”. Cada corpo é resultado de múltiplos micro-movimentos. Trata-se, assim, de um fenômeno intensivo. Um corpo-dançante aparentemente imóvel põe em obra diversas relações de movimentos que emanam da presença da pessoa. A presença ou o estado de corpo não se localizam como interioridade misteriosa que aparece na magia da dança. A presença liga-se ao estado de corpo, ou seja, um estado de composição de forças no corpo. Ela pode, com efeito, se revestir de múltiplas facetas – e isso mesmo em um só corpo-dançante189.

Do mesmo modo, as qualidades de movimentos podem ser compreendidas como micro-movimentos, vibrações, em torno do movimento “principal”. Sobre isso, nos lembra Deleuze, nosso erro está em acreditar “que ce qui se meut, ce sont des éléments quelconques extérieurs aux qualités”. Todavia, “les qualités mêmes sont de pures vibrations qui changent

en même temps que les prétendus éléments se meuvent190”. (1983, p. 18). A

qualidade do movimento faz parte desse movimento; não é algo a mais. Ela é movimento e, por sua vez, muda o corpo-dançante. Cada qualidade de

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Além disso, é trabalho do intérprete reencontrar a cada espetáculo esses mesmos, ou muito próximos, estados intensivos. Os estados de corpo e a capacidade do corpo dançante de se tornar múltiplo serão objeto da sessão seguinte.

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Tradução nossa: “que o que se move são elementos quaisquer exteriores as qualidades”. Todavia, “as próprias qualidades são puras vibrações que mudam ao mesmo tempo que os pretensos elementos se movem”.

movimento engendra tanto composições diferentes quanto corpos diferentes. Terceiro, enfim: pensar o corpo-dançante como um agenciamento de movimentos permite um novo ângulo quanto à experiência do espectador. Este não distingue um agenciamento de movimento, mas vê corpos que dançam: a individuação movente tem uma realidade visível. Portanto, o corpo-dançante tanto se constitui como agenciamento de movimento, como bloco de corpos-dançantes, de espaço, quanto como conjunto de forças-afeto em presença. É desse modo que mesmo o público pode encontrar-se integrado ao agenciamento-movimento do corpo-dançante. O agenciamento- movimento desorganiza o lugar do espectador como “sujeito”, do bailarino como “objeto”, da cena, do espaço, como “fundo191”. Que o agenciamento de movimentos de dança possa pôr todos esses elementos sobre um mesmo plano: eis talvez a potência envolvente da dança!

Daí José Gil falar, a propósito do corpo-dançante, de seu “poder integrador” (2001, p. 85) – sua potência em agenciar elementos divergentes. Quanto a nós, falaremos na seqüência da potência do devir do corpo.

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Tomamos, a esse respeito, o conceito de hecceidade de Deleuze e Guattari desenvolvido no Mil Platôs, vol.4: “não se acreditará que a hecceidade consista simplesmente num cenário ou num fundo que situaria os sujeitos (…). É todo o agenciamento em seu conjunto individuado que é uma hecceidade”. (2002, p. 49).

Benzer Belgeler