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A necessidade de ambientalizar as políticas urbanas, ou construir cidades com estratégias ecológicas, tem sido postulada em dois nichos distintos, que se fertilizam mutuamente. O primeiro nicho foi constituído pelos próprios ambientalistas, com base em uma crítica radical às cidades biocidas ou doentes. A partir da análise da capacidade de suporte e do metabolismo que apresentam, realizando assim um exercício de balanço energético entre o que as cidades produzem e o que consomem, GIRARDET (1989) demonstrou que megalópoles como a cidade do México, São Paulo, Calcutá e Nova Iorque são usinas de consumo de energia e de produção intensiva de resíduos de toda ordem, buscando cada vez mais longe os insumos de que necessitam e estendendo em escala global suas pegadas ecológicas (“ecological

footprint”). Essas pegadas – que correspondem à área da qual uma cidade depende, vastamente

espalhada pelo mundo e amplamente maior que o limite físico da própria cidade – fornecem reservas às cidades e oferecem lugares para a disposição de seu lixo e sua poluição. Assim que as novas cidades consumidoras expandem sua competição por essas reservas, as pegadas

crescem. As pegadas ecológicas das cidades existentes já cobrem virtualmente o globo inteiro; sua expansão acontece simultaneamente à erosão das terras férteis, à destruição da vida marinha e das florestas tropicais virgens.

GIRARDET (1989) confrontou as noções de cidades biocidas e ecológicas, comparando formas de organização nas quais os ciclos não são sequer pensados ou planejados – na cidade biocida –, com aquelas em que existe uma consciência ambiental dos gestores e cidadãos – a cidade ecológica. Para as cidades biocidas, em sua maioria verdadeiras máquinas de destruição da natureza e produtoras do estresse humano, o autor propôs um modelo de metabolismo circular – em que o consumo é reduzido pela implementação de eficiências e a reutilização das reservas é maximizada – como substituto do metabolismo linear, fazendo com que os fluxos sejam planejados e tecnologicamente orientados para buscar fora somente o necessário. Dessa forma, a sustentabilidade urbana está diretamente relacionada à capacidade de cada cidade, pensada como um ecossistema construído, prover-se com um mínimo de importação dos recursos de que necessita, compensando as cidades ou mesmo os países vizinhos das possíveis externalidades negativas.

Para o MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE (2000), apesar de algumas postulações utópicas, tais como a proposta de drástica redução na importação de insumos – o que é pouco provável em uma economia cada vez mais globalizada –, a discussão sobre a sustentabilidade tem repercutido positivamente e já se traduz em cursos de capacitação e manuais de gestão urbana, tais como os patrocinados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ou pelo Conselho Internacional de Cidades para as Iniciativas Locais (ICLEI), que têm conduzido uma série de experiências destinadas a desenvolver projetos e metodologias para promover "cidades saudáveis". Segundo o próprio ICLEI, mais de 1.800 cidades do mundo estão desenvolvendo experiências de Agenda 21 Local, nas quais várias das idéias desenvolvidas por Girardet e outros pensadores estão sendo aplicadas.

ROGERS (1997) também acredita que as cidades devem ser vistas como sistemas ecológicos – com recursos finitos –, e essa atitude deve orientar a formulação do desenho do espaço urbano e a administração de seu uso das reservas. A solução para os problemas da cidade envolve, segundo ele, ações como reciclar materiais, reduzir desperdícios, conservar energias exauríveis e optar pelas renováveis.

Realmente, cidades podem ser consideradas ecossistemas (RUEDA, 1998). Se um sistema é formado por elementos e pelas interações realizadas entre eles, e se um sistema com elementos vivos é chamado de ecossistema, considerando a cidade um sistema e o Homem – um organismo vivo – seu principal componente, é claro que sistemas urbanos são ecossistemas. Os componentes da cidade não são independentes uns dos outros, sendo limitada sua capacidade de troca pelo fato de pertencerem ao sistema urbano. Quando um conjunto de pessoas e instituições se relaciona entre si na cidade, surge certa convergência de comportamentos, uma vez que cada elemento influi sobre as possíveis variações dos outros e, como conseqüência, o número de possibilidades que poderia parecer maior, em princípio, torna- se mais ou menos limitado. Como cada ação ou movimento está sujeito às influências procedentes dos outros, as possibilidades de variação se reduzem e a atividade do sistema parece ser guiada ou regida. A cidade, apesar de mudar com o passar do tempo, conserva assim alguma propriedade invariável.

Por outro lado, RUEDA (1998) considera as cidades sistemas abertos, dependentes de informação, alimentação material e energética externas para manter sua estrutura e sua vida. Como todos os sistemas abertos, a cidade tem a capacidade de aproveitar, selecionar e processar a informação do meio evoluindo para estágios mais complexos de organização. À medida que aumentam os contatos, intercâmbios, níveis de comunicação, e os sistemas se tornam mais diversos – ou seja, à medida que aumenta a complexidade do sistema urbano –, é possível que a energia tenha um papel mais reduzido na construção, na manutenção e nas trocas

na própria cidade, para que a informação seja o principal nexo utilizado por seus componentes. Os assentamentos humanos mais simples utilizam pouco a informação para se manterem como sistema, mas a utilizam em grande medida para ajustar seus próprios processos.

Quando a cidade aumenta sua complexidade, a informação passa a ser o nexo organizador da cidade e a energia, unicamente um meio complementar. Se não existem limitações materiais ou energéticas, as cidades costumam aumentar sua complexidade com o tempo, ou seja, aumentam a possibilidade de contato entre portadores de informação – pessoas e instituições – em um determinado território. Esse aumento da probabilidade de contato se traduz em aumento de organização (RUEDA, 1998).

"– Construí na minha mente um modelo de cidade do qual extrair todas as cidades possíveis – disse Kublai. – Ele contém tudo o que vai de acordo com as normas. Uma vez que as cidades que existem se afastam da norma em diferentes graus, basta prever as exceções à regra e calcular as combinações mais prováveis. – Eu também imaginei um modelo de cidade do qual extraio todas as outras – respondeu Marco. – É uma cidade feita só de exceções, impedimentos, contradições, incongruências, contra- sensos. Se uma cidade assim é o que há de mais improvável, diminuindo o número dos elementos anormais aumenta a probabilidade de que a cidade realmente exista. Portanto, basta subtrair as exceções ao meu modelo e em qualquer direção que eu vá sempre me encontrarei diante de uma cidade que, apesar de sempre por causa das exceções, existe. Mas não posso conduzir a minha operação além de um certo limite: obteria cidades verossímeis demais para serem verdadeiras."14

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Benzer Belgeler