4. BULGULAR
4.3 Boyarmaddelerin Dekolorizasyon Yüzdeleri
A questão moral dentro do neoateísmo tem uma importância fundamental. Como tentei indicar no primeiro capítulo, o embate à moralidade das religiões é algo ímpar para que exista uma retirada do sentido das mesmas. O principal ambiente onde essas discussões parecem ocorrer é na internet. O anonimato que muitas vezes é relacionado à internet não parece ser um recurso muito utilizado pelos ateus. A liberdade de expor suas opiniões e principalmente de encontrar informações e pessoas que partilham a descrença em relação a qualquer tipo de ente religioso parece colaborar para essa “saída do armário” online que ocorre com os neoateus.
Chalfant (2011, p. 26) percebe essa característica em que a internet parece constituir um espaço no qual os ateus conseguem debater livremente, mesmo em sociedades bastante religiosas. Entretanto, para ele, politicamente falando, os ateus não são um grupo uníssono, pois o ateísmo em si não é uma ideologia galgada em valores políticos. Posição corroborada por Frank Pasquale, ao analisar os estudos de Stephen Bullivant sobre os alunos descrentes na Universidade de Oxford. Segundo Pasquale, o estudo apontou que não há nenhum tipo de uniformidade no entendimento dos termos “agnóstico” e “ateu” (PASQUALE, 2013, p. 5). Seria exatamente a pluralidade e a diversidade em relação às posições filosóficas e políticas que constituem o ateísmo contemporâneo. Apesar de os novos ateus pertencerem a diversas correntes ideológicas,
59 Isso inclui também a prática de artes marciais. Como o próprio jiu-jitsu abrasileirado pela família
Gracie, mas que possui raízes orientais. Há um artigo especificamente sobre este tema escrito por Harris chamado The Pleasures of Drowning. Disponível em: http://www.samharris.org/blog/item/the-pleasures- of-drowning.
há sim a existência de uma luta política em comum entre os neoateus: a luta pelos valores seculares.
Steven Kettell analisa os dois locais em que os quatro autores neoateus estão localizados – Estados Unidos e Grã-Bretanha – e suas instituições seculares. Segundo ele nos Estados Unidos existem: American Atheists, the Center for Iquiry, the Freedom
from Religion Foundation, the Secular Coalition for America, the American Humanist Association, the Military Association of Atheists and Freethinkers e the Council for
Secular Humanism. Além destes, Kettell observa que o National Atheist Party foi criado em março de 2011 para influenciar as eleições nos Estados Unidos (KETTELL, 2013, p. 64).
Na Grã-Bretanha existem também vários grupos, sendo os dois principais: the
British Humanist Association e the National Secular Society.
A página dos American Atheists (ateus americanos)60 inicia a sua própria descrição observando a necessidade de separação de Igreja do Estado. A ATEA, no caso brasileiro, também se atém a esse ponto61. Outro ponto interessante, que também é exposto no site da ATEA, é a questão dos valores éticos seculares, algo partilhado também pelos ateus britânicos da Atheism UK62, que são sem dúvida os mais ácidos em seu próprio site ao se descreverem como desafiadores da fé religiosa.
Os valores seculares, entretanto, não são entendidos como o livre trânsito das diversas crenças, por estes grupos. O “desbatismo” coletivo promovido pela ATEA em São Paulo, durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013 ocorrida no Rio de Janeiro, é um exemplo claro disso63. Daniel Sottomayor, líder da ATEA, desbatizou seus seguidores com um secador de cabelo, para substituir a água do batismo pelos ventos do secularismo. O rito teve um caráter de protesto em razão dos gastos públicos utilizados na Jornada Mundial da Juventude. É interessante notarmos como, até para se desvincular de uma religião, há uma promoção de um rito de passagem ou iniciação, característico das mesmas. Entretanto, a principal ênfase dada por todos esses sites ateus é que a moralidade pode prescindir da religião.
60http://www.atheists.org/about-us. Acesso em: 15/07/2014. 61https://atea.org.br/. Acesso em: 15/07/2014.
62http://www.atheismuk.com/about/principles/. Acesso em: 15/07/2014.
63http://oglobo.globo.com/rio/ateus-farao-desbatismo-coletivo-no-dia-da-chegada-do-papa-ao-rio-
As organizações possuem alguns temas segundo Kettell (loc. cit.) que são recorrentes: a separação da religião nas políticas públicas; a questão da saúde pública que incluem desde eutanásia em caso de doentes terminais e a liberdade de pesquisa com células-tronco; a já citada educação separada de bases religiosas, como no caso criacionista nos Estados Unidos e as escolas religiosas na Grã-Bretanha; e ainda as questões de direito civil como no caso dos casamentos gay. Há, certamente, uma tentativa de separação dos valores religiosos da esfera pública.
Vale lembrar que segundo Pierucci (apud CAMPOS, 2013, p. 45) a secularização é compreendida pelo desencantamento do mundo. Enquanto o segundo é a luta contra a magia, seja pela própria religião ou pela ciência, a primeira é uma luta posterior do que está vinculada à militância pelo afastamento da religião do Estado. Como ciência e religião juntas combatem a magia, poderia existir algo de religioso dentro do secular também?
Como observei anteriormente, Merton no seu estudo sobre cientistas britânicos no século XVIII e a relação dos mesmos com o protestantismo, notou que boa parte dos cientistas adotou os valores humanísticos advindo dessa religião. Esta relação não para nesse autor. Onfray também observa como o secularismo possui um caráter análogo ao judeu-cristianismo. Onfray em seu Tratado de ateologia (2007) entende algo parecido com o que Nietzsche expôs em seu livro O Anticristo (2001). A questão é mais fundamental do que somente deixar Deus e as outras figuras religiosas de lado. É preciso romper também com o pensamento epistemológico do cristianismo/platonismo, o certo e errado, o bom e mau precisam ser revistos. Onfray observa que ao espalhar os valores seculares através da submissão ao poder político e ao patriotismo (ONFRAY, 2007, p. 186) faz-se com que os valores seculares tornem-se cristãos. O exemplo entre os nossos neoateus pode ser encontrado em Hitchens, em sua guinada à direita quando apoiou a Guerra ao Terror (HITCHENS, 2011, p. 337) e também ao entender esta guerra como uma luta pela sua própria liberdade. Harris também apoia o discurso beligerante que ele considera secular, apesar dos inúmeros elogios à política do Estado de Israel em relação aos palestinos (HARRIS, 2009, p. 155). A visão de mundo neoateia, mesmo no que concerne às suas preferências políticas, também possui traços de uma religiosidade. Mark C. Taylor (apud CHALFANT, 2011, p. 16) entende isto não de uma forma crítica, mas sim numa abordagem substitutiva. Ele analisa, assim como Merton, a herança dos valores humanísticos do ateísmo, em que segundo o mesmo a
lógica da religião fica intacta. A convicção de que há uma essência da realidade é a mesma, a única diferença é que no pensamento religioso isso advém de Deus, enquanto no ateísmo isso advém da soberania do sujeito humano.
Os valores seculares não estão totalmente livres de traços religiosos. Seja do fundamentalismo de alguns indivíduos em relação às práticas religiosas alheias, que acabam confundindo o secularismo com valores antirreligiosos, ou simplesmente a herança de uma ética cristã. Devemos lembrar que o desencantamento do mundo promovido pela ciência, o qual os neoateus se alinham, teve uma forte influência, segundo Weber, na racionalização de algumas religiões como o protestantismo ascético e o judaísmo (PIERUCCI, 2005 p. 108). A herança não desaparece por inteiro, apesar de existirem novas propostas.