Tendo em vista que a pesquisadora fazia parte da equipe que elaborou e implementou um curso de Formação Continuada, a pesquisa foi desenvolvida com o objetivo principal de analisar o impacto da ação realizada na formação continuada em serviço e na prática pedagógica dos professores envolvidos, no período de pós-formação. Houve intenção de avaliar o impacto da formação desenvolvida no curso e as probabilidades de influenciar e/ou modificar as posturas e concepções iniciais dos participantes em relação às questões educacionais propostas no Programa Aprender em Parceria.
Este para ser realizado respeitou os princípios de constituição do sujeito educador; respeitou a valorização da singularidade dos sujeitos; construção da autonomia; realização de atividades educacionais articuladas às possíveis necessidades e características dos sujeitos e contextos vividos; articulação teoria e prática; construção de atitudes e práticas construtivas, interdisciplinares, cooperativas, solidárias e de respeito mútuo.
Todo referencial teórico estudado e, sobretudo, a contribuição no entendimento da complexidade do tema indicaram a importância de procedimentos educacionais não serem realizados de forma padronizada e que os efeitos que esses provocam em cada sujeito envolvido nas ações formativas não podem ser controlados. Indicaram também que um curso de Formação Continuada não pode, por si só, modificar os sujeitos envolvidos em curto prazo. O desejo para mudanças deve ser dos participantes. Uma função importante a ser considerada nos procedimentos educacionais por aqueles que educam, é a de mobilizarem o desejo dos alunos e os seus próprios professores para a realização de processos de formação construtivos, criativos, flexíveis com finalidade de inclusão ao uso pedagógico das TDIC.
A apresentação dos resultados reveladores das potencialidades e desafios da formação continuada promovida em parceria com a Secretaria de
Educação do Estado da Paraíba forneceu elementos importantes que poderão auxiliar ou subsidiar as políticas públicas educacionais que objetivam a inserção das tecnologias de informação e de comunicação no ambiente escolar.
A título de breve síntese, dentre tais elementos, destacamos as questões relacionadas aos desafios da infraestrutura tecnológica das escolas. A mera presença dos computadores não pode ser garantia de transformações na educação como alguns imaginam e apregoam. O uso de projetos envolvendo novas estratégias metodológicas requer formação continuada dos professores tanto em relação ao desenvolvimento de letramento digital como de letramento informacional dos alunos. Os professores não podem ser responsabilizados pelo sucesso ou insucesso de um programa de formação quando as variáveis responsáveis envolvem questões complexas de infraestrutura, acompanhamento, incentivo da equipe gestora, avaliação dos resultados, entre outras.
O Programa Aprender em Parceria contém orientações próximas ao que se conhece acerca da importância do trabalho entre pares, que tenha como matriz o diálogo e a socialização das informações e conhecimentos construídos. O enfrentamento de tal complexidade requer certos cuidados já apontados para aperfeiçoamento crescente de sua atuação nos sistemas de ensino dos estados brasileiros.
Sob a ótica dos participantes, a Formação Continuada trouxe contribuições significativas para o desenvolvimento de suas identidades e sensibilizou para a importância de dialogar com seus pares sobre as resistências, desafios e potenciais encontrados na continuidade do programa. Entretanto, variáveis de outra natureza identificadas na coleta de dados confirmou a urgente e necessária reflexão das políticas educacionais sobre a implantação de ações de Formação Continuada e a inserção das tecnologias digitais no ambiente escolar.
Este estudo se configurou a partir da necessidade de avaliar o impacto que um curso de formação continuada para professores, fundamentado em perspectiva multicultural crítica, alicerçada nos princípios do diálogo e cooperação poderia ter nas concepções educacionais dos mesmos, de modo que este pudesse afetar a sua prática cotidiana nas escolas.
O professor é cobrado diariamente, tanto por seus alunos, como por seus pares, seus superiores e por ele mesmo, principalmente nos dias atuais, em que a quantidade de informações disponíveis é incomensurável. O que há alguns anos era chamado de curso de reciclagem, hoje denominamos como formação continuada, pois não se trata de trocar um conhecimento antigo por um novo, mas de aprimorar constantemente não só o saber em si, mas também o modo de fazer.
É quase consenso de que os meios digitais devem ser integrados e utilizados nas salas de aula, não só pelo potencial que eles oferecem, mas como modo de aproximar o currículo do educando e assim, criar novas oportunidades de aprendizagem; trazer o aluno para o centro de sua formação, torná-lo protagonista de sua caminhada.
Contudo, o computador, a Internet e todas as possibilidades ai descortinadas se apresentam muitas vezes como um obstáculo para as escolas, principalmente públicas, já tão carentes de muitas coisas. Obstáculos também para o corpo docente e equipe gestora que, diferente dos jovens alunos, não vê com naturalidade o aparato tecnológico posto que não fez parte de sua própria formação.
O primeiro desafio estrutural das escolas tem sido alvo e foco do Governo Federal já há alguns anos, que por meio do PROINFO, vem equipando escolas por todo o país. Mais recentemente, o Governo lançou outra iniciativa, o Projeto UCA, um computador por aluno. Até o encerramento desta pesquisa, em fevereiro de 2011, 358 escolas haviam sido contempladas pelo Projeto UCA sem estudos que revelam se a adoção de equipamentos agrega valor ao trabalho docente e aprendizagem discente.
Apontada a questão da infraestrutura, passamos nosso olhar para a questão da atualização destes equipamentos. Por mais que se invista na distribuição de computadores ou laptops, não é possível acompanhar a velocidade com que as tecnologias evoluem e, em curto espaço de tempo, muitos recursos ficam obsoletos; para não dizer de questões anteriores como por exemplo, local seguro para guarda dos equipamentos, capacidade da rede elétrica das escolas, seguro contra incêndio entre outras providências.
Outro aspecto a observar é a questão da manutenção. Devido à alta rotatividade de pessoas nos laboratórios ou mesmo de crianças e jovens que fazem uso dos laptops, é inevitável a necessidade de reparo permanente. O que esta pesquisa nos mostra é que ainda é incipiente o investimento que se faz na manutenção, o que leva a um número expressivo de computadores com problemas por um longo período de tempo, impossibilitando que o professor faça uso desta tecnologia com os alunos. No geral, os laboratórios têm um número pequeno de máquinas relacionado ao número de alunos de uma sala de aula. Os laboratórios equipados mais recentemente na rede pública estadual da Paraíba têm 17 computadores. Se imaginarmos que uma sala de aula do Ensino Médio tem, em média, mais que 35 alunos, sabemos que este número já é limitado para um bom trabalho. Com parte do laboratório sem manutenção, os professores ficam ainda menos motivados a organizar estratégias de ensino com suporte das TDIC.
Analisada a questão de infraestrutura, focalizamos os desafios relacionados aos recursos humanos. Como mencionado na pesquisa, muitos laboratórios não são usados por falta de apoio da equipe gestora e da definição de projetos para uso destes espaços. Na concepção de muitas escolas, às vezes é mais fácil manter o laboratório fechado do que lidar com os desafios ocasionados pela abertura para uso dos alunos e da comunidade. Estando fechado, não é necessário pensar na manutenção, reposição de peças ou equipamentos, regras para uso do espaço ou mesmo, se responsabilizar por possíveis roubos. Para reverter esta situação é necessário investir não somente na cessão de infraestrutura e manutenção, mas também na preparação das lideranças escolares para encampar o projeto e se sentirem
seguros para promover a abertura e uso destes espaços.
Outro desafio está relacionado à preparação dos professores para utilizar adequadamente as TDIC no processo de ensino aprendizagem, o que tem sido alvo de diferentes pesquisas, inclusive desta. São muitas as iniciativas para enfrentar essa tarefa, e uma delas é objeto do estudo ora apresentado.
O levantamento mais recente acerca de capacitação tecnológica para professores no Brasil, o Censo de Profissionais do Magistério da Educação Básica 2003, realizado pelo MEC/INEP, apontou um quadro perturbador. Enquanto a grande maioria dos entrevistados afirmou não ter participado de cursos, muitos dos que disseram ter participado continuam sem saber utilizar adequadamente tanto o computador quanto a Internet.
Frente a esse cenário, acreditamos na importância de investir na permanência e sustentabilidade de práticas de formação continuada de professores em serviço, entre pares, sob a perspectiva de estudo e reflexão permanentes quanto à incorporação das TDIC no contexto escolar.
O Estudo de Caso apresentado revelou que o conhecimento adquirido no programa está sendo aplicado em sala de aula para benefício dos alunos. Quando inquiridos, apontaram que o novo saber sobre o uso das TDIC acabou por alavancar a carreira acadêmica e alguns ainda conseguem aplicar o conceito de pares na preparação de aulas e projetos também em outros espaços educacionais.
Contudo, o mais valioso foi compreender que a estratégia de parceria pode funcionar a contento, o que não falta é força de vontade dos professores, mas que deve haver um projeto maior e bem estruturado, relacionado a uma política pública, para que o programa se efetive e possa impactar a inserção das TDIC nas atividades escolares.
As respostas negativas nos remetem à compreensão da relevância de variáveis complexas tais como: falta de tempo para trabalhar em parceria; os limites da organização curricular das escolas; política de eleição de
participantes do programa, uma vez que alguns dos professores que participaram do Aprender em Parceria se aposentaram, deixaram a rede ou se afastaram e não aplicam o conhecimento, nem o passam para colegas.
Os dados obtidos, através da aplicação do questionário, também revelaram problemas importantes, tais como: falta de infraestrutura e a inviabilidade de aplicação da metodologia, devido à falta de aderência da proposta ao interesse da escola que prefere investir na formação do aluno para o vestibular, por exemplo. Este fato pode ameaçar e/ou comprometer a eficácia do programa. Uma das entrevistadas assinalou claramente esse ponto quando afirmou: “O programa é muito bom, pena que a gente não possa colocar em prática. O laboratório de informática só tem cinco computadores e veio a funcionar somente esta semana”.
Um aspecto positivo que percebemos na implementação do programa foi o reconhecimento das contribuições para o desempenho docente profissional, a importância que o programa teve em suas carreiras, seja em novas oportunidades de trabalho ou como aperfeiçoamento das atividades pedagógicas para melhora da educação.
De fato, podemos concluir a partir das respostas obtidas, que se trata de uma metodologia que contribui para que o professor planeje melhor as estratégias de ensino e os alunos percebem isso, sentindo-se estimulados a participar de um processo de aprendizagem.
Contudo, ainda orientados pelos dados das entrevistas, nos sentimos confortáveis em creditar o insucesso da continuidade à falta de planejamento dos governos que culmine em políticas públicas adequadas, incluindo aí manutenção dos laboratórios de informática após a formação; criação de estratégias de replicabilidade ou sustentabilidade, ou seja, os professores formados devem ser multiplicadores e devem formar outros professores da rede – e para isso, ele precisa contar com o apoio da direção, tendo um período de tempo específico para tal atividade -, além de não permitir que sejam escolhidos para participação na formação professores que estejam perto
da aposentadoria e que não sejam efetivos da rede.
Entendemos que esforços estejam sendo feitos por todos os lados, mas não podemos ignorar que enquanto o desenvolvimento das tecnologias anda a passos largos, o abismo da exclusão digital segue o mesmo ritmo. Isso não quer dizer que não valorizamos a iniciativa governamental, mas sim que acreditamos inaceitável que um estado que possui 1.038 escolas, como é o caso da Paraíba, somente 536, que representa um pouco mais da metade, sejam equipadas com computadores para uso de alunos e 157 escolas não possuam nem sequer um computador.
Não foi intenção deste estudo, esgotar as reflexões necessárias às ações de Formação Continuada com inserção das tecnologias digitais nas escolas. Entretanto, algumas características foram essenciais na vivência desta pesquisadora. A não-separação entre o sujeito e o objeto da pesquisa foi um dos maiores desafios. A validade da pesquisa fundamentou-se no critério de utilidade dos dados para todos os envolvidos onde todos aprendemos e compartilhamos saberes, reforçando nossa crença na possibilidade de ocorrência de mudanças. O envolvimento com a exigência de respostas práticas para problemas graves em nossa formação de professores e o caráter situacional, ou seja, ligada a uma situação específica e busca de respostas para mesma, permitiu sob a perspectiva autoavaliativa, inúmeras reflexões e modificações durante todo o processo que se deu por meio de um feedback contínuo.
Acreditamos que as reflexões e ações aqui realizadas, no sentido de pensar melhor a formação de nossos professores, acrescenta subsídios extraídos da própria percepção dos envolvidos em programas de formação continuada. Temos consciência que a avaliação pós-formação é fértil instrumento para diagnóstico e aperfeiçoamentos futuros dos cursos e intenções da Formação Continuada e a inserção da informática educativa nas práticas docentes.