BESİNCİ OTURUM
KİTLE İLETİŞİMİNDE HOŞGÖRÜ”
Ao longo da história do Sistema Educativo Português as relações entre família e professores sempre foram um assunto polémico. Esta controversa problemática ganhou particular acuidade em Portugal desde que as políticas educativas, especialmente aquelas que incidiram na transformação na administração e gestão das escolas, incluíram os pais como actores sociais, anteriormente esquecidos, quer no panorama educativo quer no legislativo. A sociedade sempre teve um papel influente e activo na realidade do sistema educativo. Até chegarmos ao 1º Ciclo do Ensino Básico, longo foi o caminho percorrido. Com a Reforma Educativa implementada e para melhor entendermos a nossa situação actual, iremos recuar no tempo, com o objectivo de percebermos até que ponto evoluímos e aprendemos, ou não, com os erros que cometemos, ao longo deste caminho de reformas educativas. A investigadora, Paula Allam (2003) elaborou um breve resumo sobre o ensino em Portugal. Destacamos desse trabalho os seguintes tópicos:
• De forma resumida podemos referir que o ensino das letras em Portugal começa no reinado de D.João III que chamou a Portugal a Companhia de Jesus, que abriram colégios em várias cidades e fundam em Évora uma Universidade que se torna um reputado centro de estudos humanistas. Graças ao seu método de ensino, atraem os jovens que enchem os colégios da Companhia, considerados os melhores, mesmo nos países protestantes. Os jesuítas foram, no entanto, um entrave para o desenvolvimento
do país, uma vez que, se dedicavam ao ensino dos jovens de famílias mais abastadas, aquelas que um dia poderiam ascender ao poder. Eles seguiriam os ideais rígidos e incontestáveis que a Igreja defendia.
• O Ensino Secundário estava entregue aos jesuítas e o Ensino Primário aos mestres- escola. Estes eram indivíduos de origem humilde (sapateiros, carpinteiros, artesãos) que exerciam a actividade docente e outras. Aprendiam nos mosteiros com os padres, pois o ensino era controlado pela Igreja. Ensinavam crianças mais abastadas a ler a escrever, a troco de uma refeição.
• O professor do século XVI e XVII era um indivíduo sem qualquer formação profissional e com um estatuto socio-económico muito baixo.
• Esta situação alterou-se com Marquês de Pombal, quando este se apercebeu que a maioria da população era analfabeta. Decidiu que era ao Estado que competia o controlo e coordenação das actividades escolares. Este sistema de ensino estatal, fez com que os mestres-escola fossem substituídos por uma nova geração de profissionais de ensino, os mestres-régios, que passaram a realizar um exame de aptidão, que funcionava como suporte legal para o exercício da sua profissão. Isto dá origem à prisão de todas as pessoas que se dedicavam ao ensino sem terem qualificações, apostando, desta forma, na qualidade do ensino. “A habilitação legal para o ensino,
vai funcionar como suporte legal para o exercício da actividade docente, é a arma mais importante que os mestres vão utilizar para confirmarem a sua condição de especialistas e de profissionais de ensino” (Nóvoa, 1986, p.21)
• Foram instituídos os “estudos menores”, que tinham como função ensinar a ler, escrever e contar, para os filhos varões das classes populares. Para pagar aos mestres- régios é lançado um imposto especial designado por “subsídio literário”, pago pela população. Este facto, coloca os mestres-régios numa situação de grande dependência face às comunidades locais. Por outro lado, os mestres “vão reclamar a sua condição
sentido de obstarem a uma intervenção das populações na «coisa educativa»(Nóvoa, 1986, p.21)
• Note-se a vontade pombalina de estabilizar o ensino público, obrigando a população a contribuir para o desenvolvimento dos estudos e consequentemente do país, pois um povo letrado e informado, é um povo desenvolvido e aberto ao progresso. Pela 1ª vez esboça-se uma carreira profissional no domínio do ensino, sob protecção do Estado.
• Marquês de Pombal implementou uma reforma profunda no ensino, que se tornou imperiosa com a expulsão dos jesuítas. Foram contratados vários professores estrangeiros, pois não tínhamos docentes bem preparados para responder às novas exigências.
• Segundo Ana Benavente (1990, p.49): “A burguesia do séc. XIX produziu muita
legislação e poucas realizações, apesar de iniciativas audaciosas para a época (princípio do ensino gratuito para todos os cidadãos, criação de novas escolas primárias, desenvolvimento do ensino primário feminino).”
• No final do séc. XIX a taxa de analfabetismo continuava elevada, cerca de 70%. Com a Revolução Setembrista e a ascensão do liberalismo, surge outra grande reforma no ensino. Mas apesar disso, os professores continuavam com um nível de vida baixo, pois os seus salários e condições de trabalho eram precários. Em 1878, Rodrigues Sampaio tomou medidas descentralizadoras, defendendo a remuneração dos docentes através das Câmaras.
“O corpo docente se opõe em bloco, exigindo que os professores continuem a ser funcionários públicos e não empregados camarários. Surgem então na imprensa notícias «dramáticas» de professores que vivem na miséria ou morrem de fome, tudo por culpa das autoridades municipais” (Nóvoa, 1986, p.34)
• Em 1911 regista-se uma reforma com mudanças significativas no Ensino Primário, nomeadamente: passou a ser estruturado em 3 graus e 8 anos de escolaridade e mais
tarde estruturado em 2 graus; as Câmaras Municipais passaram a administrar as escolas; os professores viram os seus salários aumentados; abriram mais 3 escolas do Magistério, que se traduziu num aumento de docentes disponíveis; foi criado o 1º Ministério da Instrução Pública; foram criadas escolas móveis para que o ensino chegasse a locais onde não havia escolas. Estávamos em franco desenvolvimento, com professores a participarem em debates e colóquios sobre pedagogia e havia uma intensa actividade participativa em sindicatos.
• Segundo Filomena Mónica (1978 p.133): “A visão salazarista da sociedade como uma estrutura hierárquica imutável conduziu a uma concepção diferente do papel da escola: esta não se destina a servir de agência de distribuição profissional ou de detecção do mérito intelectual, mas, sobretudo, de aparelho de doutrinação. Para o salazarismo não havia, aliás, qualquer razão para justificar as desigualdades económicas, que eram inevitáveis e instituídas por Deus...”
• António de Oliveira Salazar idealiza e gere o Estado Novo. A 28 de Maio de 1926 sobe ao poder, no mesmo dia em que se deu o golpe de Estado que pôs termo à I República. Este era professor na Universidade de Coimbra e depois de exercer outras funções, aceitou o cargo.
No que respeita à educação, Salazar afirmou: “Nós compreendemos – não poderíamos
consentir – que a escola portuguesa fosse neutra neste pleito e ultrapassaria todos os limites que, velada ou claramente, por actos positivos ou por omissão dos seus deveres (...). Queremos, pelo contrário, que a família e a escola imprimam nas almas em formação, de modo que não mais se apaguem, aqueles altos e nobres sentimentos que distinguem a nossa
civilização e o profundo amor à pátria, como os dos que a fizeram e pelos séculos fora a
engrandeceram.” Com isto, Salazar demonstra a importância dada à Educação. Impôs nas
escolas a sua doutrina, o seu método de comportamento e regras de pensamento.
Portugal tinha uma elevada taxa de analfabetismo e coloca-se a questão: Resolver o problema, ou continuar com o povo na total ignorância? O povo sendo ignorante era mais facilmente moldado e por consequência resignado e assim atingiriam os seus objectivos sem serem questionados.
Numa entrevista dada por Salazar, este afirmou: “Considero (...) mais urgente a
constituição de vastas elites do que ensinar o povo a ler. É que os grandes problemas nacionais têm de ser resolvidos, não pelo povo, mas pelas elites enquadrando as massas”.
O verdadeiro problema do povo ser letrado, era o uso que este faria desse conhecimento. Se fosse inevitável esta conquista de sabedoria, a solução seria o encerramento das escolas. A única solução foi proporcionar escolas para todos, onde aprenderiam única e exclusivamente o que o Estado queria que eles aprendessem.
• Uma das medidas tomadas foi a separação dos sexos nas escolas, raparigas numa turma e rapazes noutra. A 1ª Reforma do Ensino Primário do regime, data de 17 de Maio de 1927 e consistia em três escalões: o Ensino Infantil facultativo dos 4 aos 7 anos, que foi encerrado por falta de crianças e professores especializados; o ensino Primário geral obrigatório dos 7 aos 12 anos, formado por 5 classes; Ensino Primário superior dos 12 aos 15 anos, formado por 3 classes. Este ensino foi reestruturado mais tarde e ao Ensino Primário geral foi retirado um ano. As matérias estudadas eram: Geografia de Portugal e Colónias, História de Portugal e Educação Cívica.
• Nas escolas, todas as crianças iniciavam o seu dia de trabalho fazendo uma saudação à Bandeira Nacional.
• O Ensino Primário Complementar existia, para aqueles que depois do trabalho queriam aprender, mas foi extinto a 19 de Setembro de 1932.
• Quando as escolas normais primárias foram restabelecidas, foi exigida a idade mínima de 14 anos, que também foram substituídas pelas escolas do Magistério Primário e destinavam-se à preparação de professores, sendo a estes exigido um exame de admissão e a habilitação de 2º grau de Ensino Primário.
• Em Lisboa foram construídas 12 escolas, mas não havia professores a 30 de Janeiro de 1930, o ministro da Instrução Pública mandou para lá professores provisórios, com idade inferior a 35 anos e com comprovante de que tinham praticado noutras escolas.
Por considerarmos esclarecedoras e relevantes transcrevemos algumas das 113 frases que os livros da 4ª Classe do Ensino Primário continham:
• “Obedece e saberás mandar”
• “Não invejes os que te são superiores, porque estes têm responsabilidades e deveres
que tu ignoras”
• “Se soubesses o que custa mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida”
Com Salazar afastado do poder, torna-se imperativa uma mudança e em 1971 adveio a reforma da Educação com Veiga Simão, Ministro da tutela, que mais não fez do que adaptar "uma ditadura velha aos novos tempos", como disse o Prof. Fernando Rosas. Esta reforma implantou-se através do encerramento de quase todas as associações estudantis do País e pela colocação dos célebres "gorilas" do ministério do Interior nas faculdades de forma a evitar novos focos "subversivos e revolucionários".
• De entre outras medidas, destacam-se: a Instituição da Educação Pré-Escolar oficial, o aumento da escolaridade obrigatória para 8 anos (4 no Primário, 2 no Preparatório e 2 no Unificado) e a entrada para a escola primária mais cedo.
• Ana Benavente (1990, p.58) salienta que houve uma vontade oficial de investir no domínio da educação como se pode ler: “apesar das intenções de modernização e de
generalização do ensino à população portuguesa, a reforma de Veiga Simão, por razões diversas, não mudou a situação de modo significativo. Marcou, contudo, publicamente, a vontade oficial de investir no domínio da educação...”
• Após o 25 de Abril de 1974, verifica-se uma maior consciência em relação à participação dos pais na vida escolar. Com a implementação da nova Constituição após 1974, que apela para a igualdade de oportunidades e direitos, bem como para uma democratização do ensino, estão criadas as condições para uma Reforma de Ensino, mais profundo, onde a problemática da relação escola com a comunidade se começa a esboçar e toma-se consciência de que esta rede de relação é uma das componentes imprescindíveis das escolas eficazes.
O relatório da OCDE de 1984 refere: “Portugal tem que se desembaraçar da
administração exageradamente centralizada e estática que herdou” (citado por Ana
Benavente, 1990, p.45). Apesar das reformas, o aparelho burocrático e centralizador continua a dificultar a implementação das mesmas.
Em 1976, a Constituição da República, prevê e assegura por parte do Estado, a cooperação com as famílias na educação dos filhos. Ainda durante o mesmo ano, o Decreto- Lei n.º 769-A/76, regulamenta a gestão das escolas e refere, pela 1ª vez, a participação de um representante dos encarregados de educação, indicado pela Associação de Pais. A Lei n.º 7/77 foi a primeira Lei das Associações de Pais e consagra o direito da participação das mesmas na política de educação nacional (ensino preparatório e secundário).
A lei n.º 1/82 prevê a primeira revisão da Constituição da República Portuguesa. Estipula a regulamentação da forma de participação de várias associações, entre elas as de pais, na definição da política educativa.
A lei de Bases do Sistema Educativo (n.º 46/86), estabelece os princípios de participação de todos os actores do processo educativo, incluindo os pais/encarregados de educação ou representantes: a nível nacional ou central (CNE); a nível institucional (CONFAP); a nível local (AE, DT, CP, CE, CT).
Começam a ser implementados novos programas mais virados para a escola aberta à comunidade e sempre com vista à participação dos pais na escola: “embora sem carácter
obrigatório, procura-se estimular o mais possível a participação dos pais, através das associações, de órgãos do poder local, de comissões de moradores. Inútil será sublinhar que só a participação interessada de todos no processo educativo poderá vencer as sequelas graves que o fascismo deixou no Ensino Primário...”
(Ana Benavente, 1990, p. 34)
As transformações registadas na estrutura da família nas últimas duas/três décadas foram muitas e variadas e, por isso, devemos relacionar os problemas decorrentes dessas transformações com o modelo da educação pluridimensional e da escola cultural.
As escolas do Ensino Básico têm de responder a novos desafios originados pelas mudanças demográficas e pelas transformações na estrutura familiar. Essas mudanças começaram a fazer-se sentir, em Portugal, na década de 90, coincidindo com o alargamento da escolaridade obrigatória para 9 anos, abrangendo populações cada vez mais heterogéneas
social e culturalmente. Na década de 90, a escola Básica tornou-se uma realidade propulsora de novos problemas, tanto mais difíceis de resolver, quanto mais variados se apresentam os modelos familiares e quanto maior a fragilidade das estruturas familiares de apoio às crianças e aos adolescentes.
Nesta década, a composição social e cultural dos alunos das escolas públicas do Ensino Básico é muito diferente da composição a que os professores se habituaram nas décadas de 60 e 70. É fácil de constatar que o espectacular aumento da oferta através da criação de uma rede nacional de escolas públicas do Ensino Básico possibilitaram a duplicação das taxas de escolarização doEnsino Básico, num curto espaço de 20 anos.
Nunca como agora, em pleno século XXI os professores sentiram o seu espaço de acção no interior dos estabelecimentos de ensino tão desprotegido, em relação à sua “invasão” por parte dos pais e encarregados de educação. Por outro lado, nunca os pais sentiram, tão intensamente, a responsabilidade e a incerteza inerentes a um novo contexto que lhes pede e exige mais do que lhes dá, que lhes fornece poucas pistas ou linhas de orientação para uma acção individual ou colectiva bem sucedida.
Longe vai o tempo em que a escola era vista como mera informadora dos pais. Hoje em dia, a participação dos pais é um dever (que a escola terá de prescrever e fazer cumprir). Mas nem sempre assim acontece, visto que não raras vezes, assistimos a um clima entre pais e professores caracterizado mais pela tensão e pela desconfiança mútua, do que pelo consenso e pela cooperação. Aos pais é atribuída, simplesmente, a missão de corroborar e reforçar as orientações e as determinações definidas pela escola.
Licínio Lima e Virgílio Sá concluem que “um século de reformas educativas, de
críticas e de apelos a uma nova atitude dos pais face à escola parece ter redundado num rotundo fracasso” (Licínio Lima e Virgílio Sá, 2002, p.9).
Mesmo com a Revolução de Abril de 1974 e, apesar da consequente “explosão” da sociedade civil e do ímpeto participativo no interior das escolas, os pais continuam a estar, estranhamente, ausentes, quer do discurso educativo quer da acção organizacional desenvolvida no interior dos estabelecimentos de ensino.
Contudo, pensamos que no caso das escolas particulares há um elevado interesse em participar, embora na prática tal não se verifique por várias razões, entre elas a falta de disponibilidade.
A relação entre família e escola nos países da OCDE está a mudar o seu rumo. Ambas se encontram intimamente envolvidas na educação das crianças, mas os aspectos pelos quais são responsáveis e o modo como essa responsabilidade é delineada, varia com os tempos e as culturas, de acordo com o cenário económico e político. Três factores combinam-se para tornar mais amplamente reconhecidos os papéis da família, a escola e a comunidade na educação.
A educação formal está a tornar-se mais importante do que nunca; os seus métodos são mais diversificados e os seus propósitos mais complexos; e a ideia de que, no futuro, a maior parte das pessoas terá de aprender continuamente ao longo da vida é cada vez mais reconhecida. O envolvimento dos pais na educação dos filhos está agora associado à maior apreensão de conhecimentos. Essa percepção complementa outras tendências: um movimento geral direccionado para a descentralização e autonomia local, com muitos governos a quererem, actualmente, “ tornar as escolas públicas mais em conta para os seus clientes”, e mais pais a exercerem pressão sobre os políticos para uma maior variedade de escolha no ensino. Em muitos países os pais vêm o seu envolvimento na escola como um direito democrático; em alguns, como a França, a Alemanha e a Dinamarca, é mesmo uma norma existente há décadas.
O objectivo desta viragem política é fazer com que a escola dê uma resposta mais cabal às exigências e desejos dos pais e dos contribuintes. Os governos têm uma série de motivos para encorajar a participação dos pais. Há efeitos de eficiência. Na perspectiva da escolha do consumidor, os pais, enquanto consumidores, deveriam poder escolher a escola e a forma como funcionam. Assume-se, por isso, que se os pais pensarem enquanto consumidores terão uma ideia mais concreta sobre o que pretendem e serão mais críticos quanto ao que lhes é oferecido - levando as escolas a responder mais eficientemente às suas pretensões.
Os governos sabem também que o envolvimento dos pais pode constituir como que uma alavanca para elevar parâmetros. Estudos de grande escala levados a cabo na Austrália, Reino Unido e Estados Unidos mostram que as escolas onde os alunos são bem sucedidos (tanto em termos de sucesso académico como de atitudes positivas face à aprendizagem) são caracterizadas por boas relações família-escola. Este envolvimento pode igualmente atenuar desvantagens e melhorar a equidade, sabendo-se que a prestação de uma criança pode ser melhorada mostrando aos pais como apoiá-la mais eficazmente em casa - uma consideração
particularmente importante quando existem diferenças culturais entre os valores do sistema educativo e os da família.
Existem igualmente considerações de ordem financeira. Não só os pais poderão ajudar a captar fundos extra para a escola, como poderão ser um meio económico de mobilizar recursos, auxiliando em visitas escolares, ajudando em actividades desportivas ou assistindo os professores na sala