I. BÖLÜM
1.2. Kişiliği
Este tópico busca discutir as atitudes apresentadas pelos licenciandos pesquisados sobre o objeto “professor do campo”, considerando que este objeto é parte integrante do objeto de interesse do presente estudo: a Educação do Campo. Para que fossem coletadas as atitudes dos sujeitos pesquisados sobre o objeto acima mencionado, foi utilizado no questionário um bloco de questões, que apresentava nove enunciados afirmativos sobre o
professor e a docência e lhes solicitava um posicionamento. Para possibilitar que os sujeitos pesquisados se posicionassem sobre o objeto “ser professor do campo”, ao lado de cada um dos nove enunciados foi colocado uma escala de valores que variava de 1 a 5. Por meio desta escala, também conhecida como Escala Likert, aos participantes foram solicitados marcar o valor que mais se aproximasse da sua concordância ou discordância com o enunciado.
Foram instruídos que, caso marcassem os valores mais baixos na escala fornecida (1 e 2), indicariam a sua discordância em relação ao enunciado anteriormente fornecido. Ao assinalar o valor mediano dessa escala, correspondente ao número 3, informavam um posicionamento neutro em relação à assertiva anterior, ou seja, não concordavam tampouco discordavam com ela. Escolhendo quaisquer dos números mais elevados da escala (4 ou 5), significava a concordância com a afirmação que lhes havia sido fornecida. Dessa maneira, os valores da escala que seguia cada um dos questionamentos apresentados eram distribuídos da seguinte maneira: 1 - discordo totalmente; 2 - discordo; 3 - nem concordo e nem discordo; 4 - concordo; 5 - concordo totalmente.
Por meio desses valores numéricos fornecidos pelas respostas, foi possível obter um indicador da concordância ou discordância desses sujeitos em relação a cada um dos enunciados, assim como o nível de intensidade com se mostraram favoráveis ou desfavoráveis, frente a tais afirmações. Considerando-se que uma atitude se constitui numa predisposição interna de um determinado sujeito em relação a um objeto, que a mesma possui uma direção e uma intensidade, nesse bloco de questões se buscou a apreensão das várias atitudes em relação ao “ser professor do campo”.
Na Tabela 4 estão expostos os valores numéricos inerentes às atitudes dos licenciandos, em relação a cada um dos enunciados concernentes ao objeto “ser professor do campo”.
Tabela 4 – Atitudes dos licenciandos sobre o “ser professor do campo”
Ser professor... Atitude
Favorável Neutra Desfavorável
É útil 97% 1% 2% É atraente 65% 19% 16% É dinâmico 84% 11% 5% É complexo 83% 9% 8% É desafiador 97% 1% 2% É Pesado 78% 13% 9%
É uma profissão bonita 89% 7% 4%
Requer criatividade 96% 1% 3%
Esta tabela apresenta uma divisão em quatro colunas, sendo que na primeira delas estão listados os diversos enunciados que serviram de estímulo para os sujeitos expressarem suas atitudes. Nas próximas três colunas da tabela pode-se visualizar o percentual dos pesquisados que se declararam favoráveis, neutros ou desfavoráveis quanto aos enunciados da primeira coluna, ou seja, revelam o estado afetivo desses sujeitos frente a essas afirmações, em outros termos, suas atitudes. Os valores obtidos foram utilizados, ainda, para determinar a intensidade de cada uma dessas atitudes, servindo para indicar o quanto cada um dos enunciados mobilizava essa predisposição interna.
Como já discutido anteriormente, a atitude constitui uma das três dimensões que compõem as representações sociais, juntamente com a informação e a imagem (ou campo). Trata-se de uma predisposição interna ao indivíduo, relacionada ao estado afetivo peculiar sobre um determinado objeto social, o qual influencia a percepção, avaliação, bem como a tomada de decisões quanto ao modo de agir e de se comportar frente a esse objeto (KRÜGER, 2011).
De acordo com Alves-Mazzotti (2008), a atitude talvez seja geneticamente primordial em relação às outras dimensões representacionais, uma vez que ela é a que se apresenta com uma maior frequência, em relação às demais. Provavelmente porque o estado afetivo do indivíduo forma [...] uma estrutura psicológica estável, ativada todas as vezes que o objeto da atitude for percebido, recordado, pensado ou simplesmente imaginado (KRÜGER, 2011, p. 203). Ao imaginar algo que se encontra concretamente ausente, o indivíduo o torna conceitualmente presente, sendo que essa presença conceitual carrega consigo todos os seus significados que são inerentes a esse objeto (MOSCOVICI, 2012).
Sendo uma predisposição interna, relacionada ao estado emocional e afetivo do indivíduo em relação a determinado objeto, uma atitude se expressa por meio de uma resposta avaliativa. Utilizando-se uma escala apropriada, torna-se possível identificar nessas respostas, a direção e a intensidade das atitudes, uma vez que os indivíduos tendem a se posicionar de uma maneira positiva ou negativa frente a determinado objeto. É justamente a possibilidade de se avaliar uma atitude quanto a sua direção (que pode ser positiva ou negativa) e a sua intensidade (variando de muito fraca a muito forte), que a distingue de outros elementos cognitivos (MICHENER; DELAMATER; MYERS, 2005).
Pode-se verificar com clareza que, praticamente todos os enunciados, desencadearam atitudes favoráveis da maioria dos licenciandos, sendo que os mesmos se declararam desfavoráveis sobre uma dessas afirmações. Diante das declarações de que “ser professor é
útil, desafiador e requer criatividade”, a amostra apresentou atitudes unanimemente favoráveis, cujas intensidades também se apresentaram como as mais fortes. Quando se depararam com a afirmativa de que “ser professor é valorizado e reconhecido”, a maioria dos sujeitos se declarou desfavorável, atitude essa que também apresentou uma intensidade forte.
Verifica-se a ocorrência de divergências entre as atitudes dos licenciandos pesquisados, pois os mesmos identificam o objeto como algo socialmente útil, dotado de certa beleza que o torna atraente, ao mesmo tempo em que reconhecem a sua desvalorização, bem como uma falta de reconhecimento perante a sociedade. As atitudes discordantes, por sua vez, revelam a existência de relações discordantes entre as cognições desses sujeitos, configurando-se num estado de dissonância cognitiva, como o proposto por Festinger (1975).
Para esse autor, o termo cognição pode ser compreendido como “[...] qualquer conhecimento, opinião ou convicção sobre o meio ambiente, sobre nós próprios ou nosso comportamento”, sendo que o estado de dissonância cognitiva se forma após os momentos de decisão, ou quando uma pessoa age contrariamente às suas crenças (FESTINGER, 1975, p. 13). De acordo com Michener, DeLamater e Myers (2005), trata-se de “[...] um estado de tensão psicológica induzida pelas relações dissonantes entre os elementos cognitivos”, que produz certo desconforto mental ao indivíduo, cujas manifestações são percebidas até mesmo fisiologicamente.
Caso não consigam conviver com essas divergências, uma vez que a mesmas acabam por induzir o estabelecimento de um estado de desconforto mental, os sujeitos utilizarão estratégias que lhes possibilitem reequilibrar essas cognições. Tais estratégias se concretizam a partir de uma busca pela concordância, evitando-se informações ou interações sociais inconsistentes com o sistema de valores e crenças previamente construídos (FESTINGER, 1975).
A opção pela docência se apresenta como uma decisão difícil, uma vez que é do conhecimento desses sujeitos a existência de uma desvalorização social da profissão que, contudo, de maneira contraditória, configura-se como uma (senão a única) oportunidade para os mesmos ampliarem seus capitais sociais, ao mesmo tempo em que abre a possibilidade de uma ascensão social, por meio das garantias oferecidas pelo emprego estável no setor público, cujos proventos são relativamente atraentes e fixos (BOURDIEU, 2011).
É dessa maneira que, a partir de uma tomada de decisão difícil, segue-se a busca por elementos ou informações que possibilitem aos sujeitos justificar essa escolha, ou seja, a opção pela docência. O tópico seguinte trata justamente do modo como os licenciandos
pesquisados utilizam as informações disponíveis sobre o objeto em questão que, de acordo com Alves-Mazzotti (2008), são ao mesmo tempo insuficientes e excessivas. Um tratamento intersubjetivo, que possibilita a construção das RS necessárias à redução da dissonância cognitiva e que permite ao objeto adquirir uma coerência interna no grupo.