A performance está aberta ao momento presente e às intervenções que possam
surgir da parte dos atuantes, na modificação da atmosfera criada. Inserindo-se na
realidade como evento a ser vivenciado94, constrói temporalidades porque “o
tempo da performance não imita um tempo exterior a ela, ele é ele próprio, não
procura fugir numa ficção e numa temporalidade exteriores à cena”95. A vivência
94 “O homem não dispõe de nenhum outro meio de viver o ‘agoral e de fazê-lo atual a não ser realizando-o
pela inserção do discurso no mundo. A temporalidade é produzida na realidade e pela enunciação.” (Benveniste, In: Pavis, 2002, p.401)
95
da performance implica o instaurar de um tempo iniciático, à maneira do ritual, no
qual todos os indivíduos se implicam em sua realização. Aproximando-se do ritual,
entendido como sistema simbólico de significação, a performance evoca a
vivência coletiva, compartilhada e conduzida em grupo. É bom lembrar que as
esferas do ritual, teatro e performance são distintas, mas se relacionam “na
história e em sua estruturação de sentido”96.
Em Thn futurn of ritual, Schechner aproxima o teatro e as ações rituais, pois “no
teatro o comportamento é rearranjado, condensado, exagerado e tornado
rítmico”97, como no ritual. O estudioso aponta que as qualidades de repetição,
ritmicidade, exagero, condensação e simplificação, analisadas fisiologicamente,
estimulam o cérebro a liberar endorfinas, substâncias químicas que funcionam
como indutoras da sensação de prazer e supressoras da dor. Se no
comportamento do animal o não cognitivo domina, no humano se instaura a
tensão dialética entre o cognitivo e o afetivo. Para evidenciar a força modificadora
do ritual, Schechner cita como exemplos depoimentos de participantes em
experiências de transe, comprovando o fato de que a experiência vivida no ritual
afeta sua maneira de ver e viver a vida. Considerando as palavras de Schechner:
“o que a arte manipula sob bases individuais, o ritual faz de maneira coletiva”.98
Seria a performance, então, por trabalhar nas duas instâncias, uma arte ritual?
96 ROJO, 2005, p.59.
97 SCHECHNER, 1993, p.230. 98
SCHECHNER, 1993. p.238. Tradução livre de: “What art manipulates on an individual basis, ritual does collectively”.
O trabalho de Renato Cohen explora essa fronteira difícil e polêmica da criação
artística. A potencialização da experiência ritual ocorre através do transe, estado
alterado da consciência conduzido pelo toque dos tambores xamânicos.
O xamanismo enquanto prática de veiculação de realidades paralelas, onde o atuante é o informante de outros mundos revelado é um poderoso dispositivo de permeação com a alteridade. Torna-se, portanto, um referencial direto para as experimentações performáticas99
.
Curioso é que o ritual passa a ser visto como força geradora de novas imagens,
idéias e práticas e não apenas como conservador de comportamentos culturais;
está em jogo seu poder transformador.
Renato Cohen afirma que na história da cultura ocidental os procedimentos de
“mediação entre natureza e cultura, têm se organizado na cena através de duas
vias antinômicas: “a via do logos x a via do mythos”. A performance e o ritual se
inscrevem na via do mythos, “território da ambigüidade e da ambivalência, onde o
performer transita pelo desconhecido, movido por seus impulsos, intuições,
‘aliados primitivos’ e representações míticas”100. O performer tem o papel de
condutor da experiência artística, pois aponta caminhos e reage às ações que lhe
são propostas de modo a favorecer a construção coletiva desse espaço-tempo. “A
vivência da jornada se passa na ordem do extra-cotidiano, tempo de permeação
com o sagrado”101. Ao abrir a dobra do tempo cotidiano e propor o tempo aberto
que recebe a ação construída na fluidez do roteiro disposto a constantes
99 COHEN, 2002. 100
COHEN, 2002.
101
modificações, a performance instaura um tempo-espaço, repleto da constituição
não estruturada do presente. A fenda se abre e ressalta a evidência de que a
construção da realidade é feita por nós (participantes) e se dá a cada momento.
Assim, a performance instaura uma temporalidade não cotidiana, como no ritual,
implicando os sujeitos como participantes ou, até mesmo, testemunhas do evento.
Nota-se que a testemunha, como sugere o significado do termo, ao contrário do
participante, apenas presencia, não tendo uma participação ativa na ação, o que
se aplica em algumas performances em que a realização é mais valorizada que a
interação. O trabalho dnsnnhando com tnrços102, da performer Márcia X, é um
exemplo disso. Vestida de camisola branca, a artista dispõe centenas de terços
brancos formando o desenho de falos no chão de uma sala, durante horas
seguidas. Os participantes apenas presenciam o ritual meditativo da artista,
comungando da presença instaurada pelo ato. Ao final da performance, resta a
instalação, o desenho dos terços, preenchendo o chão da sala. A obra é o
testemunho do ato artístico e o que resta dele. A experiência performativa “leva à
abolição do tempo; mas é ao mesmo tempo uma experiência em que se
redescobre o próprio tempo: é como se toda a história da humanidade pudesse
rever as suas origens de uma maneira imediata, experienciada”103.
102
Essa obra foi alvo de recente polêmica (registrada por diversos meios de comunicação) por ter sido retirada da exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro a pedido (ou pressão) de correntistas conservadores, que viram na associação terço-falo um insulto à religião.
103
dnsnnhando com tnrços, Márcia X, 2003.
A performance, vertente transitória e fugaz, ligada a pequenas parcelas de tempo,
assume significados sobrepostos, realizando a contestação do espaço social e
criando espaços diferenciados, alternativos, lugares outros, que valem pela
experiência que proporcionam. A afirmação da experiência do momento presente
afasta a procura racional pelo sentido, pois como postula Deleuze “não se
pergunta qual é o sentido de um acontecimento, o acontecimento é o próprio
sentido”104.