Com efeito, não é difícil constatar que partes da Dedução Transcendental das Categorias estão comprometidas e de fato podem ser interpretadas como uma objeção de Kant aos argumentos de ficção das identidade e simplicidade do “eu”, base da teoria humeana do feixe. Com isto, vamos reforçar a nossa diretriz inicial estabelecida quando “Da colocação do problema: os argumentos transcendentais” (ver 2.1): lá dizíamos que a chamada revolução copernicana radicalizada pela filosofia kantiana ao instituir que doravante o objeto é dirigido pelo conceito e não o conceito é dirigido pelo objeto, foi consideravelmente influenciada pela leitura de Hume. E nisso há quase consenso. Com efeito, a introdução ao Prolegômenos é testemunha dessa tese: ali, de próprio punho, Kant reconhece o esboço de um modelo conceitual analítico preparado com o fito de refutar o empirismo [cético] humeano. O mesmo pode ser dito quando nos prefácios A e B e na correspondente introdução à Crítica da Razão Pura já se podia coligir referências a Hume, sem contar as implícitas, dentre às quais destacamos a do parágrafo inaugural (C.R.P., B1, p.36), onde “Da diferença entre conhecimento puro e conhecimento empírico” se podem estabelecer as pretensões de base da crítica transcendental. Tais são os argumentos transcendentais que parecem ter o seu momento de maior significado na Dedução.
De fato, a Dedução consiste na prova inquestionável da importância dos argumentos transcendentais na filosofia crítica: ali Kant não vai rejeitar o “eu” como fizera Hume. Ao contrário, vimos que ele vai desenvolver um novo modo de tematizá-lo, inclusive de nomeá- lo: não vai mais falar de “eu”, mas de “eu penso” e, de fato, o “eu penso” se apresenta na filosofia kantiana como um conceito [ou juízo] crítico dos mais importantes num pensamento já repleto de termos paradigmáticos que vieram a se agregar de forma pioneira e definitiva na história das teorias filosóficas. Ao lançar a noção de “eu penso” na Dedução, Kant o faz, inicialmente, sem ter em mente o “eu substancial” cartesiano; seu ponto de partida é o “eu psicológico” de Hume17. O “eu” em Hume, que já havia passado por um processo de redução psicológica, em Kant será submetido a uma nova ordem de redução, digamos, a uma redução lógica que guarda indiretamente alguma relação com a dessubstancialização do “eu” em “eu
17 Bonaccini (2006, p.44) sintetiza com extrema lucidez a réplica de Kant às premissas contrárias à identidade e à
simplicidade do “eu” em T., I, IV, 6: 283, 1: “Contra la primeira va a defender que el concepto de identidad de la autoconciencia no es un concepto empírico, sino un princípio a priori; y, por tanto, que el hecho de que la identidad no pueda derivarse de nuestras percepciones internas no implica que sea una ficción, ní le hace mella a su validez (así cuestionaría en este contexto la tesis empirista de acuerdo com la cual toda idea deriva de impresiones). Contra la segunda premisa argumentará que del hecho de que nuestras percepciones sean separables y distinguibles entre sí no se debe concluir que puedan existir separadamente, sin un yo simple que las funde o las contenga de alguna manera; lo cual tampoco significa que este yo sea una substancia (y así Kant cuestionaría aquí el llamado modelo “atomista” de Hume con respecto a todas las percepciones)”.
penso” descrita em C.R.P. B405-406, p.33118. Assim, no contexto judicativo de “Legalidade e Causalidade” o “eu penso” é a condição a priori de toda determinação do universal sobre o particular o que lhe confere o estatuto de princípio supremo da filosofia transcendental e, como tal, em resposta necessária à teoria humeana do feixe e à psicologia empírica em geral. A seguir, destacaremos alguns aspectos importantes na Dedução que vão dar suporte teórico à crítica kantiana da psicologia empírica de Hume, ou à questão: como uma redução lógica do “eu”19 pode responder às possíveis ambigüidades contidas no projeto cético-naturalista humeano de uma redução psicológica do “eu”? Ora, quando uma questão como essa é levantada pela filosofia ela pode, no entender de Kant, ser solucionada numa instância de abstração superior ao projetado pelo cético, a saber, num plano estritamente crítico de uma reflexão sobre condições de possibilidade ou de fundamentação da experiência mediante argumentos transcendentais20.
18 Em particular, o segundo paralogismo [ou enunciado da psicologia racional], o de que o sujeito pensante é
simples, é criticado por transformar de maneira ilegítima a proposição formal da apercepção, a apercepção pura, num sujeito pensante e, “é certo que, pelo eu, penso sempre uma unidade absoluta, mas lógica, do sujeito (simplicidade), mas não conheço, com isto, a simplicidade real do meu sujeito” (C.R.P., A356, p.337). Assim, inferir um sujeito idêntico é converter de forma ilegítima a premissa da condição formal do pensamento num substantivo; o simples é a “apercepção transcendental” e não o “eu”; e, cometeremos paralogismo sempre que confundimos a “apercepção transcendental” com a “alma” ou o “eu”.
19 Vale dizer que a redução lógica, apriorismo ou a priori, está na raiz de toda a filosofia transcendental. O a priori ou independente da experiência, se refere à estrutura do próprio conhecimento [empírico], mas que não
decorre ela mesma de percepções sensoriais. Isso pode trazer alguns equívocos quando se imagina tratar-se de uma sucessão temporal, que é quase um postulado da Metafísica da Experiência em Kant. Na verdade, segundo Strawson (1966, p.24), a primeira das seis teses - a tese da temporalidade – é a que procura mostrar quais são as características que devem limitar qualquer noção acerca da possibilidade de um conhecimento sistemático da experiência e, à qual, se juntam as demais: unidade necessária da consciência, objetividade, espacialidade, unidade espaço-tempo e analogias. Essas seis teses coerem com a redução lógica, base do conceito de transcendental, significando que na experiência existe algo que independe da experiência, diferencial que Kant introduz em relação a Hume ou, mais exatamente, o que diferencia o “eu penso” kantiano da psicologia transcendental do “eu empírico” humeano da psicologia empírica. Epistemologicamente, independente da experiência é o que pode ser conhecido como verdadeiro ou válido a priori; é, no mais, aquele “eu” que pensa aprioristicamente; o “eu penso” lógico que pré-determina a unidade e a objetividade da experiência. Determina a unidade como lógos dessubstancializado em relação a Descartes e isto serve concomitantemente de premissa, contra Hume, para a tese da objetividade do conhecimento. De fato, para além de todo conhecimento a posteriori ou para além de tudo aquilo que chamamos de redução psicológica, que é extraída da experiência, haverá um conhecimento de outra ordem, conhecimento a priori, que precede a experiência, e cujo objeto não nos pode ser dado pela experiência, já que é efeito de uma redução lógica. Um objeto [transcendental] dessa ordem será o próprio sujeito [transcendental], a estrutura do sujeito [“eu penso”] que em si, explica-se como sujeito que confere unidade e objetividade à experiência. Neste sentido, reiteramos, o “eu penso” é multiuso na filosofia crítica: como unidade categorial [, unidade sintética da apercepção], ele confere objetividade à experiência e nisso é uma crítica à psicologia empírica; nos paralogismos critica os defensores da psicológica racional que pretendiam a partir de si próprio [, do “eu penso”,] constituir uma ciência real do sujeito pensante. A Dedução é, por isso, o cerne do argumento transcendental de Kant contra Hume quando nos mostra que há uma interdependência entre a unidade [da consciência] e a objetividade [da experiência], teses 2 e 3 de The Bounds of
Sense, como veremos em 2.3.1.
20 Para responder ao ceticismo Kant propõe uma solução lógica pautada em argumentações a exemplo das que se
seguem: (a) o que quer que o cético diga, é fato que temos determinadas experiências; e (b) dado que temos essas experiências, algo será preciso para torná-las possíveis, independentemente de que elas venham a ser prováveis. Com efeito, essa é a essência dos argumentos transcendentais em toda sua ubiqüidade (ver nossa “Introdução”): no conjunto da chamada trilogia crítica, ele parte daquilo que está dado na experiência e, com base nisso,
Com efeito, no parágrafo 15 da Dedução [B] Transcendental das Categorias, Kant fala “Da possibilidade de uma ligação em geral”, e que “entre todas as representações [, que apresenta seu objeto a algum sujeito consciente - e é neste sentido que ele representa], a ligação é a única que não pode ser dada pelos objetos, mas realizada unicamente pelo próprio sujeito21, porque é um ato da sua espontaneidade” (C.R.P., B130, p.130). Isto significa que a síntese, que para ele é o termo genérico para “ligação”, nunca pode ser dada pelos sentidos, ao contrário de Hume, para quem as ligações entre percepções nos são naturalmente induzidas pelo costume, a partir dos sentidos, e constituem um efeito do princípio associacionista da faculdade imaginação. Pode-se ver ainda em Kant que “o conceito da ligação inclui também, além do conceito do diverso e da sua síntese, o da unidade desse diverso” (Ibid), e é nessa passagem que vemos pela primeira vez uma alusão preliminar ao “eu penso”, que parece se apresentar na filosofia crítica como uma união lógica conjuntiva (A ∧ B) dos termos “síntese” (A) e “unidade” (B)22. Isso implica que o conceito de “ligação” opera em níveis distintos
argumenta o que teria de ser verdadeiro para tornar essa experiência possível. Assim, insistimos, o argumento transcendental tenta contornar o ceticismo montando os fatos da vida comum como suas próprias premissas. Nesse desiderato, na réplica de Kant à teoria humeana do feixe, o “eu penso” deve assumir uma função eminentemente lógica [e transcendental], sem a qual não vai conseguir responder ao psicologismo cético de Hume. E esta consideração, como veremos, de algum modo vai se repetir com os juízos reflexivos em “Finalidade e Indução”, agora com relação ao psicologismo cético-naturalista de Hume.
21 Veremos na terceira parte que esta concepção está restrita a “Legalidade e Causalidade”, não sendo, portanto,
válida para “Finalidade e Indução”.
22 As acepções teóricas da Dedução e da revolução copernicana se coadunam: como é possível que as
representações mentais - e mais especificamente as representações mentais a priori necessárias - se refiram a seus objetos? Objeto e referência - nossa questão central que perpassa todos os conteúdos de 2.2 - é um tema da Dedução Transcendental das Categorias e da Analítica dos Conceitos como um todo: enquanto a Dedução Metafísica mostrou que há conceitos puros do entendimento - as categorias -, a Dedução Transcendental mostra que sem elas não é possível nenhuma experiência. A gênese de todo esse empreendimento teórico, contudo, está no conceito de ligação, de sorte que se houver algo de inato na filosofia de Kant, devemos atribuí-lo ao termo “ligação” e seus congêneres como, “conjunctio”, “enlace”, “conexão”, “síntese” e derivados. Hanna (2005, p.58), afirma que “a estrutura subjacente do conteúdo do conhecimento é um conjunto de capacidades inerentes de sintetizar (...)”, que são de três tipos básicos: (i) formas puras de intuição; (ii) as categorias e, por fim, (iii) o esquema transcendental da imaginação. A função básica do “eu penso”, é unificar a priori esses três elementos num modelo epigenético da mente. Neste sentido, “a descrição inatista de Kant é a de que a mente é essencialmente um conjunto de capacidades ativas (o grifo é nosso) ou faculdades, cada uma das quais contendo alguns procedimentos formais determinados para a geração de representações” (Hanna, 2005, p.59). Seguem esta linha, autores como Brook (1994, p.12-14) e Kitcher (1990, p.25). Se para a experiência, os conceitos [puros] do entendimento devem ser constitutivos, então tem que haver um ligar (julgar) que não se deve à contingência da experiência, ainda que seja imprescindível para a possibilidade dela. Encontra-se esta conjunctio na medida em que se abstrai dos conteúdos dos conceitos e ficamos apenas com a forma [geral] S é P. Como a ligação dos conceitos se realiza no juízo, como faculdade de julgar e não apenas como faculdade lógica de pensar, temos que a forma da ligação dos conceitos nada mais é que nossa capacidade formal de julgar. Dado que o julgar se deve ao entendimento (C.R.P., B94, p.103), a forma pura do julgar é um produto do entendimento a priori, de modo que os conceitos puros do entendimento, as categorias, correspondem às formas puras do juízo. Esta é a própria Dedução Metafísica: as categorias estão escondidas nas formas puras do juízo; elas não se agregam aos conceitos empíricos, mas já são sempre pressupostos para seu uso objetivo, isto é, são conceitos a priori intrinsecamente estruturais como os que expressamos, por exemplo, com os termos todos, um, não, é, talvez, existe e causa, aos quais recorrendo à tábua lógica de sua época e não assistematicamente como Aristóteles, Kant rotula, respectivamente, nas categorias de Totalidade, Unidade, Negação, Realidade, Possibilidade, Existência e Causalidade. Essa construção é, a propósito, de um lado, severamente reprovada por Strawson (1966, p.76-
quando unifica representações no nível de conceitos e no nível de juízos, o que Kant vai consolidar na seguinte passagem em C.R.P., B131, p.130: “Ligação é a representação da unidade sintética do diverso” e isto significa que deve haver uma fonte de toda a ligação que repousa em uma ligação originária, em um conectar unificador que subjaz a toda e qualquer conexão determinada, seja ela empírica, seja categorial. Em Kant, a idéia dessa ligação originária não está comprometida nem com uma metafísica racionalista - Descartes -, nem empirista - Hume -, mas com uma crítica transcendental -, a noção crítica de “eu penso”. Assim, esse “ato deve ser originariamente único e deverá ser igualmente válido para toda a ligação e que a decomposição em elementos (a análise), que parece ser o seu contrário, sempre (...) a pressupõe...” (C.R.P., B130, p.130), ou melhor, a síntese tem prioridade sobre a análise, já que para fazer análise tenho que ter um conceito dado, e é, para ela, que temos que olhar “em primeiro lugar, se quisermos julgar sobre a primeira origem do nosso conhecimento” (C.R.P., B103, p.109). Contudo, pode-se dizer que essa prioridade da síntese é uma concepção kantiana que só ficará completa e adequadamente esclarecida por intermédio da noção de capacidade de julgar em geral (ver 2.2.3) e mais especificamente através dos juízos reflexionantes que Kant só desenvolverá a partir da terceira crítica.
78,117) a partir da perspectiva da lógica moderna; mas é celebrada por Longuenesse (2005, p.81-116) em seu capítulo IV - “Kant on a priori Concepts: the metaphysical deduction of the categories”. Assim, tomada na sua atividade, a conjunctio remete para a imaginação; na sua unidade para o entendimento; na sua totalidade para a razão. De fato, esta conjunctio, inicialmente chamada de síntese da imaginação no §10, só se transforma em conhecimento possível de um objeto quando se reporta às categorias e ao “eu penso”, estabelecendo as bases de um argumento transcendental: se as categorias são funções de unificação dos juízos, donde o próprio juízo retira a sua unidade? Resposta: do “eu penso”. Assim, quando falamos de síntese em geral Kant está se reportando à imaginação; mas a “síntese pura, representada de uma maneira universal, dá o conceito puro do entendimento” (C.R.P., B104, p.109), ou a categoria: no primeiro caso, estamos diante de uma redução psicológica; no segundo de uma redução lógica. Em retrospectiva, o §10, não é somente o local onde Kant ressuscita a noção de categoria que estava esquecida na filosofia moderna, a fim de dar-lhes um uso diverso do que fizera Aristóteles (ver
Prolegômenos, §39, p.102-107). No §10, compreende-se ademais, que as estruturas sintáticas dos juízos são
estruturas sintéticas [ou semânticas], isto é: sínteses pensadas em forma de juízos na lógica formal, segundo Kant, podem ser pensadas em forma de conceitos pelas categorias [que são conceitos de síntese universais de representação de objetos]. É neste sentido que a tábua das formas dos juízos se constitui na expressão “Do fio condutor para a descoberta de todos os conceitos puros do entendimento” (C.R.P., B91, p. 101). Na passagem T., I, IV, 1: 216, 7 do Tratado, Hume afirma que a “natureza, por uma necessidade absoluta e incontrolável determinou-nos a julgar, assim como a respirar e a sentir”; Kant, nesse aspecto, não é diferente: o julgar designa o próprio sentido da crítica. A diferença entre eles parece estar na contribuição das matéria e forma do juízo para constituir um conhecimento. Na Lógica [Jäsche], Kant define que “A matéria consiste nos conhecimentos dados e ligados para a unidade da consciência no juízo; a forma do juízo consiste na determinação da maneira pela qual as diferentes representações, enquanto tais, pertencem a uma consciência” (L, §18, 101). Em outros termos: a matéria dos juízos está nas idéias [ou conceitos]; a forma está na cópula, ou na categoria. Se considerarmos que o juízo é a expressão de uma síntese feita segundo a unidade da apercepção, concluímos que, enquanto Hume unifica juízos segundo o conteúdo de seus estados mentais - apercepção empírica -, Kant os unifica segundo sua forma - apercepção pura -, que é a origem e o fundamento da objetividade. Conseqüentemente, conceitos puros não podem ser produzidos por objetos, tampouco eles podem, por si mesmos, produzir objetos, pois, no primeiro caso nada teriam de puros, destarte, seriam empíricos (ver Wolff 1973, p.185) e, no segundo caso, já não se trataria de um conceito, mas de uma intuição criadora que não necessita de formas lógicas nem de categorias para unificar a diversidade ou determinar o dado.
Com base nesses passos preliminares que descrevem em linhas gerais que é a síntese e não a análise que vem a ser a atividade precípua do entendimento [no §15], Kant finalmente explicita o que com certa unanimidade parece ser a principal questão da edição B da Dedução: a constituição dos alicerces de sua chamada psicologia transcendental. Intérpretes influentes da filosofia crítica como Allison (1983, p.137 e 2004, p.163) ponderam que o verdadeiro ponto de partida desta Dedução reside no parágrafo 16, quando Kant começa, de fato, a tematizar a unidade transcendental da apercepção como uma mera representação do “eu”23 [- o “eu penso”] sem a qual não poderíamos julgar objetivamente e cuja formulação aparece logo no seu início:
O eu penso deve poder acompanhar todas as minhas representações; se assim não fosse, algo se representaria em mim, que não poderia, de modo algum, ser pensado, que o mesmo é dizer, que a representação ou seria impossível ou pelo menos nada seria para mim. A representação que pode ser dada antes de qualquer pensamento chama-se intuição. Portanto, todo o diverso da intuição possui uma relação necessária ao eu penso, no mesmo sujeito em que esse diverso se encontra (C.R.P., B131-132, p.131).
A partir daqui já se pode delimitar melhor a estrutura da Dedução como um tópico bastante apropriado para a refutação da doutrina cético-naturalista humeana: Kant acredita que os conceitos e princípios puros que constituem uma experiência objetiva, são condições de possibilidade de uma experiência subjetiva. Em outros termos: (i) os juízos de experiência que afirmam a validade necessária e universal da ligação das percepções e por isso precisam das categorias, são correlatos transcendentais [a priori] para; (ii) os juízos de percepção, que são válidos apenas para nós e necessitam somente da ligação associativa de percepções em um certo sujeito pensante24. Com efeito, em última análise, a intenção da Dedução é fundamentar juízos sintéticos a priori como base para juízos sintéticos ou questões de fato na terminologia de Hume, garantindo que as intuições estão necessariamente subsumidas sob conceitos de objetos e que, por isso, a despeito do ceticismo humeano, há condições de possibilidade de uma experiência com validade objetiva.
23 Aqui insistimos numa passagem de Allison (2004, p.172) contida em uma nota apensa ao tópico 2.2 que agora
traduzimos: trata-se deste “eu penso idêntico, qual seja, ‘a mera representação (o grifo é nosso) eu’, [que] pode ser vista como a forma ou protótipo da unidade analítica que pertence a todos os conceitos gerais. Com efeito, é
exatamente esta unidade analítica considerada em abstração de todo conteúdo”, a que Kant se refere como uma
possibilidade puramente lógica: o “eu penso” como ponto de partida de um argumento transcendental que assume uma condição de fundamentação.
24 Kant afirma nos Prolegômenos, §20, p.73-78 que a experiência no sentido de percepção é a mera intuição de
que sou consciente. Em seguida, no §22, ele define experiência no sentido de percepção e no sentido de acréscimo do conceito de entendimento à percepção. Para um maior aprofundamento a esta importante questão que descreve a resposta de Kant ao problema de Hume a partir da especificação de duas ordens de experiência (aquela a posteriori e esta a priori), remeto ao subitem 3.3.2 - “A dedução é indispensável” - de Sales Lima (2003, p.133-140), além de Almeida (1993, p.187-219) e Caimi (2001-2002, p.177-194).
À diferença de Hume, que na teoria do feixe afirmava que quando tentava apreender o “eu” não observava senão um fluxo sucessivo de percepções, Kant acrescenta na passagem acima a necessidade de um “eu penso” que possa acompanhar essa sucessão; não ocorrendo esse “eu penso”, algo em mim poderia ser representado que não poderia de modo algum ser pensado, pois no conceito de representação não está contido analiticamente o seu acompanhamento pela consciência, o que seria absurdo. Contudo, uma proposta pode nos ajudar a dirimir essa dificuldade, que pode estar associada a uma dupla caracterização do conceito de representação (Vorstellung), mormente quando se trata do “eu penso”: uma