A base da alimentação das famílias do Muquém continua sendo feijão, arroz e farinha, complementada com uma variedade de carne, prioritariamente, bovina. O consumo de
legumes, verduras e frutas era eventual, limitando-se aos produtos cultivados na região, conforme as épocas de safra, dependentes dos períodos de chuva, tais como: abóbora, maxixe, quiabo, batata doce, inhame, macaxeira, milho, melancia, banana, laranja, manga, mamão, jaca, etc. Entretanto, constatei que outros alimentos que há, aproximadamente, cinco décadas eram estranhos aos hábitos das populações rurais nordestinas, passaram a fazer parte da dieta cotidiana da comunidade do Muquém. Entre eles, uma variedade de legumes e verduras, tais como: batata inglesa, cenoura, chuchu, tomate, pimentão, alface, repolho, outras, e de frutas provenientes de outros centros produtores do Sul e Sudeste, tais como: maçã, pera, uvas, melão, etc. Da mesma forma, produtos industrializados: mortadelas, salsichas, linguiças, molhos, margarinas e refrigerantes, entre outros, também são consumidos pelas famílias, conforme as condições financeiras de cada uma.
Mesmo assim, antigos hábitos alimentares são mantidos, mesclando-se com hábitos mais modernos. Em uma das conversas com D. Severina ela me disse - “De vez em quando eu faço quarenta39 porque os meninos gostam muito. Eles comem com mortadela frita e refrigerante”, e me explicou: “quarenta é comida de pobre. A gente faz com fubá de milho, água e sal. Bota a água com o sal pra ferver, joga o fubá dentro de uma vez, mexendo ligeiro. Hoje, eu boto margarina na água pra ficar mais gostoso. Aí tira do fogo e quebra ele todinho com a colher. Não deixa nem um bolinho. Quando fica algum bolinho, as meninas reclamam. Antigamente a gente fazia quarenta quando não tinha outra coisa pra comer, hoje a gente faz porque gosta”.
Em outra ocasião, D. Severina, respondendo a uma indagação minha, falou que o café usado em sua casa é Seu Amaro quem torra e explicou o processo - “é feito como antigamente: bota um tacho de barro no fogo, bota o açúcar pra derreter, depois joga os grãos de café e mexe até dá o ponto. Aí espalha ele na mesa do fogão, que já tá forrada de cinza. Quando ele tá frio, fica duro como um beiju, então a gente limpa a cinza, quebra ele todinho em pedaço e pisa no pilão. Depois peneira, junta ele com um pouco de café de pacote (industrializado) e guarda numa lata bem tampada. Tá pronto pra usar”. Perguntei por que juntar com café de pacote e ela respondeu que “antigamente não misturava, mas agora a gente mistura pro café não ficar muito forte, porque a médica disse que café forte faz mal pra saúde.”
Continuando a conversa, D. Severina me explicou como o café é preparado – “bota água no fogo numa chaleira, quando ela tá fervendo, bota o café e o açúcar, mexe bem, tira do
39 Investiguei com D. Sônia e com outros moradores do Muquém, mas não encontrei explicação para a
fogo e deixa ele assentar, o pó fica todinho no fundo da chaleira, aí pode botar na xicra e tomar.” Ela comentou que uma das suas noras lhe deu um coador de café, mas ela não se acostumou com “essa novidade” – “o café não fica com o mesmo gosto do que a gente faz sem coador”.
Logo no meu primeiro dia na casa de D. Severina, comecei a observar, atenta e curiosamente, tudo à minha volta - o espaço físico interno e externo à casa, o movimento das pessoas da família e de outras moradores do povoado, que transitavam nos caminhos em frente e ao lado da casa. Foi assim que presenciei hábitos, costumes e fatos que, aparentemente, deixaram de existir com a aproximação das comunidades camponesas com a “vida moderna”, tipificada como urbana.
Nos primeiros dias no Muquém, tive a sensação de estar vivendo diversos tempos históricos ao mesmo tempo - o velho e o novo, o arcaico e o moderno se entrecruzando, convivendo em harmonia, sem conflitos aparentes.
Minha rotina começava ao me acordar, aproximadamente, às 6h da manhã, seguindo o costume da família. Após cuidar de minha higiene pessoal, antes de tomar o café da manhã, normalmente, eu saia ao terreiro da casa para observar o movimento das pessoas.
No primeiro dia, presenciei D. Severina, Seu Amaro e Tonho varrendo o terreiro em redor da casa com vassouras de mato. Observei que não havia lixo proveniente de produtos industrializados, mas apenas folhas de árvores, que eles juntavam e lançavam nas áreas do terreno reservadas ao plantio de roça durante o inverno. Em seguida, vi D. Severina pegar uma cuia com milho e chamar as galinhas, imitando o cacarejar das mesmas. As aves corriam e pulavam em sua volta, enquanto ela jogava o milho. No meio das galinhas e aves menores, um galo vistoso e altivo se destacava – era o tradicional “pai do terreiro”, cuja função é cobrir as galinhas para fertilizá-las. D. Severina explicou que num terreiro não pode ter mais de um galo. Se botar mais de um, eles brigam, disputando o “posto”, até um dos dois morrer.
D. Severina mantém o modo antigo de criação livre. Durante o dia as aves circulam pelo terreiro comendo vegetais, insetos rasteiros e outras coisas. Por esse motivo, algumas donas de casa, quando pretendem abater uma dessas aves para consumo, confinam-na num chiqueiro próprio, por um tempo determinado, para engordar a ave e “limpar” a carne. A ave é alimentada apenas com alimentos limpos, principalmente, com milho e sobras de comida caseira.
Nesse sistema de criação, a reprodução das aves também é feita de forma livre. As galinhas são cobertas pelo galo “pai do terreiro”, que as fecunda. Os ovos postos por essas galinhas são colocados para “chocar” por uma delas, sobre um ninho de capim ou outras
folhas, localizado num espaço coberto e fechado, normalmente um chiqueiro apropriado, para evitar que sejam depredados por outros animais, como a raposa, por exemplo. A galinha “choca” só se ausenta do ninho para se alimentar.
Ao entardecer, quando começa a escurecer, as aves se dirigem ao poleiro, onde dormem em segurança, sem risco de serem atacadas por algum predador. Normalmente, é escolhida uma árvore alta para poleiro. Na casa de D. Severina o poleiro é uma mangueira localizada no terreiro, na qual foram escorados alguns paus para facilitar o acesso das aves.
Durante o inverno, quando são feitos os plantios de roça, para evitar que a destruam, as aves são confinadas no chiqueiro, à exceção das galinhas que estão com pintos novos. Essas são amarradas por um barbante forte a uma árvore no terreiro da casa. Desta forma, os pintinhos podem circular livremente em volta da galinha-mãe e se alimentarem de sementes, ervas e insetos encontradas no chão.
Presenciei esse evento quando retornei ao Muquém, após o primeiro período de minha estada na comunidade. Ao chegar, surpreendi-me com a mudança: nos espaços das roças, antes secos, onde as galinhas ficavam soltas, havia crescido milho, feijão e mandioca.
A família mantém outro hábito tradicional na criação e consumo de animais domésticos. Observei, logo no segundo dia de minha permanência na casa, uma porca grande confinada em um chiqueiro, na parte traseira da casa. D. Severina me explicou que sempre tem um porco ou uma porca engordando no chiqueiro. Ela compra o animal ainda filhote e vai alimentando com ração e sobras de comida doméstica. Quando ele atinge a idade adulta e está gordo, ela manda abater. O abate é feito por homens do povoado que adquiriram essa habilidade e fazem dela uma fonte de renda.
A maior parte da carne e do toucinho é vendida aos vizinhos, o restante fica em casa, juntamente com as vísceras do animal. Uma parte da carne de casa é conservada no refrigerador; a outra parte, as vísceras e o toucinho são conservados no sal para serem consumidos assados na brasa. Todos em casa gostam muito desse alimento.
D. Severina me disse que aquela porca, que eu vi no chiqueiro, estava quase no “ponto de matar”. A parte da carne a ser vendida já estava toda encomendada pelos vizinhos, discriminando: “dois quilo dum quarto traseiro é pra fulana, três quilo dum quarto dianteiro é pra sicrano...” Esse costume é comum na comunidade, funciona como um intercâmbio comercial informal, de modo que sempre há uma família abatendo e fornecendo carne de porco para outras famílias. No meu retorno, observei, também, que a porca não estava mais no chiqueiro. Havia sido abatida. Ainda provei de um pedaço de toucinho assado na brasa, que D. Severina me ofereceu.