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A abordagem da alteridade a partir da relação estabelecida pelo readaptado com seus pares, colegas professores regentes, é de fundamental importância uma vez que este lugar, a regência de classe, é o lugar de onde partiu o professor adoentado rumo à readaptação.

Assim, a identidade do professor readaptado, na perspectiva da alteridade, se estabelece, neste momento, pela relação consigo mesmo, uma vez que ele se vê representado, em outra circunstância, na figura do outro que é o regente que ele mesmo foi.

O pessoal sabia da minha limitação [no Jardim onde havia trabalhado antes] e... fui bem aceita no retorno. (MARIA)

[...] todo mundo me conhecia, gostava de mim... não teve problema não. (RICARDO)

Nessa escola eu tive um lado muito bom, que foi dos meus colegas, essa questão da valorização no trabalho. Aí eu comecei a me achar enquanto profissional. (CARLA)

[...] não era a maioria [que se dirigia pejorativamente à condição de readaptada], eu tive muito apoio, sempre me dei muito bem com meus colegas. (CARLA)

Na verdade eu tive muito apoio. Os colegas foram bastante compreensivos, a primeira vez que eu tive licença quando eu retornei, eu não conseguia passar do portão da escola. “Não, faz o seguinte, vamos só até ali na... você vai entrar, eu vou entrar com você, vamos até a sala dos professores tomar um café...”, esse apoio foi fundamental para conseguir voltar na primeira licença. (MANUELA) Quando eu saí lá do Serviço Médico e vim aqui para a escola para deixar o papel [encaminhamento para o PRF], eu estava super assim,

eu não conseguia controlar o choro. Vim tremendo, vim em pânico... e o pessoal do administrativo [professores também readaptados] me recebeu, e foram me explicar. E eu fui entender melhor. [...] E foi um momento que eu relaxei. (MANUELA)

As falas apresentadas acima apontam para um suporte do readaptado pelo grupo de professores da escola de onde saíram e para a qual retornam. Apontam, ainda, para a importância desse suporte como fundamental para sua reintegração ao mesmo grupo.

Entretanto, a seguir, a professora Manuela apresenta uma bifurcação desse acolhimento com situações que expressam sofrimento relatado por outros colegas já readaptados.

Existem pessoas que são extremamente carinhosas aqui dentro, [...] eu dividiria em dois grupos, aquelas que querem te dar apoio e que são amigas e te “jogam pra cima”. E existem pessoas [...] eu já ouvi comentários em relação a outras pessoas readaptadas, algumas pessoas readaptadas já choraram pra mim colocando comentários que ouviram bastante pesados, então eu acho que a coisa se divide em dois grupos. (MANUELA)

Tais relatos prosseguem, incluindo outros sujeitos e outras situações que convergem na mesma percepção de discriminação.

Quando eu vinha na escola trazer as licenças, eu sofria a discriminação dos meus colegas, aquela coisa de dizer para mim “mas como é que uma mulher tão bonita como você vem com essa cara boa, com esse corpo lindo, está de atestado médico.” (LEITORA)

[...] os colegas têm dificuldade e acabam colocando a gente... como uma figurinha inútil. Não só professores regentes, os não readaptados que estão ocupando outros cargos além dos cargos de professor. [...] Existe a cultura e existem as pessoas, que se julgam mais fortes e que todo o resto é “chilique”, e aí os comentários vão contaminado o restante das pessoas. (MANUELA)

Aí este ano o diretor me chamou... No começo [...] a sensação que eu tive era que ele estava arrumando um trabalho para mim porque as pessoas diziam que eu não fazia nada. (LEITORA)

Nesse período como “apoio” eu já escutava: “Carla me dá o nome do seu médico porque ah! Estou cansada de sala de aula, quero ir lá no seu médico, quero ser readaptada.” Isso eu escutei várias vezes como se o que eu fizesse na escola não valesse nada. (CARLA)

O sentimento que se percebe no professor readaptado frente à necessidade implícita de se justificar permanentemente diante de seus colegas de trabalho que

questionam o adoecimento é, por vezes, de amargura. Ou seja, mesmo após terem enfrentado a Junta Médica que, conforme relatado anteriormente, abordou com o rigor característico da perícia o adoecimento, o readaptado se vê diante de seus colegas mais uma vez em questão.

Mas ao longo do tempo, eu construí também uma relação de amizade, de respeito, de admiração entre os meus colegas. Eles não olham muito para a professora de leitura. Eles olham muito para a pessoa. (LEITORA)

Leitora aponta em sua fala para a importância assumida pela relação pessoal construída junto aos colegas enquanto reforço o que, na ausência de uma postura vinculada ao respeito profissional em si, funciona como proteção para o readaptado no estabelecimento de seu novo fazer, de seu novo nicho.

Com certeza alguma brincadeira já tinha surgido em relação ao... “é encostado”. Olha a comparação, readaptado é aquela que nem você, encostada. (CARLA)

Na escola falei com meus os amigos e eles riram “Vai pra bibliooteecaaa! ( )” (RICARDO)

Não tinha lugar para mim. Espaço físico. Eu ficava muito na sala de coordenação, na sala dos professores. As pessoas me viam muito sem fazer nada. Porque eu estava sempre lendo, eu estava sempre escrevendo... planejava [atividades conjuntas com a área de Português] [...] Mas as pessoas não me viam dando aula. Então elas achavam que eu estava à toa o tempo todo. Então houve muita crítica com relação a isso. (LEITORA)

Três situações são apresentadas neste conjunto de falas sobre o “lugar” a ser ocupado pelo readaptado na estrutura da escola, na percepção de seus colegas: o primeiro é o do “encostado” referência pejorativa apresentada na fala, quase como um sinônimo para readaptado; num segundo momento, a biblioteca é apontada como o local natural para onde devam se dirigir todo e qualquer readaptado; e por último, é apresentado um “não lugar” tanto físico quanto de trabalho efetivo, ou seja, o readaptado estaria como que condenado a não atuar por não estar em sala de aula.

Por outro lado quando um projeto reconhecidamente bom é mencionado, à fala elogiosa segue-se uma interjeição carregada de preconceito para com a condição do readaptado.

Professora, que projeto legal, como é que você faz... que coisa linda,

na Secretaria não tem um projeto assim, como é que você conseguiu implementar esse projeto de leitura?” “Quando eu

entrei no processo de readaptação”. “Aaahhh, você é readaptada! É

por isso que você tem tempo para fazer essas coisas.” Aí eu já

não sou mais aquela pessoa tão boa que faz um projeto desse dentro da Secretaria de Educação. (LEITORA)

[...] eu tenho a avaliação do primeiro bimestre da oficina de leitura dos meus alunos, fiz questão de compartilhar com os professores. Quando eu disse “quero dizer para vocês que a oficina de leitura é um sucesso”. Começou uma gritaria na sala dos professores, “Claro!

Você só tem dez alunos, óbvio que é sucesso com aquele “tiquinho” de aluno. Claro! Você só dá duas aulas por dia.” Como

se dissesse assim, “qualquer um pode fazer, porque o que você faz não é nada”. Aí eu falei “Olha, eu vou dizer uma coisa para vocês: não é qualquer pessoa que consegue fazer um projeto, implementar esse projeto e esse projeto fazer sucesso. Não tirem o meu mérito neste projeto.” É claro que um dos fatores favoráveis é que eu tenho apenas dez alunos, mas isso faz parte também do projeto (LEITORA)

As falas prosseguem relatando a permanente necessidade de reforço, por parte dos readaptados, de sua identidade de professor diante de seus colegas, bem como da qualidade do trabalho desenvolvido profissionalmente.

Os professores da rede, que já lidam com essa questão de readaptação, têm essa visão, não todos, mas preconceituosa. [...] Os professores de contrato temporário não sabem que nomenclatura é essa. [...] E aí eu explicava. [...] Eu senti um pouco dessa condição de que naturalmente vai acontecer daqui até quando eu me aposente. (RICARDO)

[...] é uma luta diária. O tempo todo a gente ouve “Você não está em sala de aula, você não sabe o que está acontecendo! Você não tem problemas porque você não tem alunos!” [...] (LEITORA)

[...] no dia em que eu falei [sobre sucesso do projeto de Leitura] as pessoas diziam em tom irônico, muitas vezes pejorativo, debochado... “Só tem esse pouquinho de aluno, quer o que? Vai ser um sucesso sempre!” (LEITORA)

É importante ressaltar que as falas recorrentes dos professores Ricardo e Leitora apontando relatos de colegas quanto ao trabalho desenvolvido se dá porque, diferentemente dos demais sujeitos escutados na pesquisa que atuam ou como apoio à direção ou nas bibliotecas de suas escolas, estes atuam com projetos junto aos alunos e aos colegas regentes o que torna a convivência cotidiana muito mais próxima.

Com relação aos outros readaptados escutados, que atuam como “apoio” ou estão lotados nas bibliotecas, a convivência com os colegas regentes é relatada como sendo distante, ou mesmo inexistente, caracterizando uma condição de invisibilidade, com reflexos sobre a reestruturação de sua identidade.

[...] tinha alguns professores que faziam alguns projetos lá dentro [da biblioteca] [...] agora, um relacionamento da gente com o colega, na sala dos professores não tinha” (MARIA)

[...] mas nos Centros de Ensino Médio eu percebo que tem um

certo preconceito sim, com os professores readaptados [...] a

própria situação da gente ficar ali à margem, na biblioteca [...] o isolamento [...]. (MARIA)

A gente é sim mal visto pelos colegas, não em total. Pela

Secretaria de Educação então eu acho que nem se fala [...] (MANUELA)

[...] eu me senti perdida, eu me senti desvalorizada enquanto

profissional. Entre colegas e entre direção houve uma

desvalorização sim. (CARLA)

Nós queremos fazer parte e não ser à parte, à margem. Eu acho

que o professor readaptado é marginalizado. Está à margem do processo...” (CARLA)

A professora Ana Paula traz um interessante relato que remete à relação do readaptado com os alunos e a como tal relação se atrela à noção pré-estabelecida de que professor é somente aquele que atua em sala de aula.

Tem horas que você tem que chamar atenção de aluno porque você vê que é aluno que não te respeita. Porque? Porque você não é professor dele de sala de aula. Mas, meio que “no grito” lá a gente consegue respeito. (ANA PAULA)

A respeito das dificuldades enfrentadas para se conseguir “espaço” para atuação efetiva junto aos professores regentes Leitora descreve situação vivenciada por ela e que retrata a resistência no acolhimento.

Aí foi uma briga para eu conseguir um espaço. Físico. Consegui a salinha da APAM. Que era um depósito. [...] Arrumei a sala [...] para que fosse atrativa. Porque eu preciso disso para leitura, que o meu aluno se sinta bem. [...] E aí foi uma briga. No momento em que eu reivindiquei a sala que era um depósito, automaticamente a sala era de todo mundo. [...] Nesse período eu caí aqui na escola e [...] fiquei um mês de licença médica. Quando eu voltei, a minha sala tinha virado um brechó, [...] fui na sala do diretor e falei “Eu não vou falar com você agora porque eu vou chorar, porque eu estou engasgada, mas aquilo vai sair da sala hoje.” [...] Ele, o diretor, subiu na escada arrancou os cabides, arrancou os arames. Deu briga na escola, gente parou de falar comigo. (LEITORA)

A Supervisora Pedagógica, ao referir-se à forma como percebe a relação entre colegas de trabalho e, sendo também ela professora regente deslocada para a função, descreve:

[Os colegas] Vêem as duas [professoras readaptadas] como pessoas extremamente prestativas, “auxiliares no meu trabalho” [do professor], que é diferenciado do delas, entendeu. Se precisa fazer um mural o professor vai lá atrás das duas “Corte as letrinhas, faça as letrinhas pra mim e faça o mural!” “Ah eu ajudo!” “Ah muito obrigada, tu é prestativa pra ‘caramba’”! (SUPERVISORA PEDAGÓGICA)

O que se denota do relato da Supervisora é que ambas as parte aparentam um “vício” no relacionamento. De um lado o professor regente, que aborda a colega com uma postura desqualificadora, e de outro as professoras readaptadas citadas, que assumem uma postura servil, que as coloca numa posição inferior.

Os relatos apresentados acerca da percepção da relação estabelecida entre o professor readaptado e seus colegas levantam uma questão: O que leva antigos colegas de trabalho a não se reconhecerem como tal, nesse novo espaço de convivência e a regência de classe a ser considerada como o único lugar de legítimo reconhecimento da identidade desse profissional?

Esse questionamento remete à necessidade de uma postura mais amorosa, na perspectiva colocada por Maturana (1998), onde o amor é entendido como o reconhecimento do outro como legítimo outro na relação, ou seja, no caso em questão, parece que readaptados e regentes se desconhecem mutuamente enquanto colegas, e a condição que os diferencia – o adoecimento e a limitação dele decorrente – é posta como empecilho para uma relação respeitosa para ambas as partes. Esta postura amorosa traria benefícios não só para a relação em si, como também para o processo pedagógico no qual ambos encontram-se inseridos, de uma forma ou de outra, evitando o estabelecimento de um conflito de identidade.