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A expressão emocional situa-se no espaço complexo das interações humanas. Cada interação humana envolve posturas, gestos, expressões faciais, olhares, menor ou maior proximidade física, falas ou silêncios, movimentos, intensidades e ritmos... Dependendo da situação específica, da sensibilidade e da compreensão dos interlocutores, pode acontecer um diálogo atento para esses sinais que ampliam, contradizem, enriquecem ou até substituem a linguagem falada.

42 A formação requer a participação presencial em, no mínimo, dois estágios de 35 horas, um como aluno e outro

A literatura a respeito da expressão de emoções e da comunicação por meio do comportamento não-verbal está em rápida expansão. Não faremos aqui uma revisão dessa literatura. Muito resumidamente, realçamos que as funções de diversos comportamentos não- verbais na comunicação e na regulação social têm sido identificadas embora, tradicionalmente, tenha sido dada mais atenção às expressões faciais.

Segundo GUIRAUD (1991:6)43, por exemplo, existem sistemas estruturados e organizados de signos corporais que, se não na sua origem, pelo menos em desenvolvimentos posteriores, constituem um verdadeiro código gestual, em que a relação entre os signos e as reações naturais de que derivam tornou-se há muito obscura, como é costume nas linguagens articuladas. A saudação por meio da inclinação de cabeça, por exemplo, remonta, para esse autor, a uma postura reflexa de submissão, muito arcaica. Esse código apresenta características da linguagem articulada: comunicação, sistema de posições pertinentes, arbitrariedade de signo, variantes cronológicas e culturais e tem sido submetido à investigação pela lingüística e pela semiologia.

Mais freqüentemente, são investigadas as modalidades de movimentos do corpo, o uso do espaço e paralinguagem. Cinésica é o estudo dos movimentos do corpo tais como expressão facial, gestos, olhares e postura; Proxêmica é o estudo do uso individual e social do espaço cultural, por exemplo, a distância mantida entre os interlocutores44. BUCK (1998:315) designa por paralinguagem o estudo das qualidades da voz, fluência, intensidade e ritmo da fala, e sons emitidos pelo aparelho fonador, mas que não são considerados parte do sistema sonoro da língua usada, por exemplo, bocejo, resmungo, grunhido, assobio, sons onomatopaicos.

43 Esse autor realça três disciplinas que estudam os “auxiliares da linguagem articulada”: a cinésica, a

proxêmica e a prosódica. Essa última é ou estudo das entonações e variações da voz por meio das quais se

exprimem sentimentos e intenções dos interlocutores, “à qual competem também os gritos, as lágrimas, os risos,

os suspiros, sobre os quais pouco ou nada se conhece”.

Todos esses aspectos do comportamento não-verbal são importantes na comunicação e na delicada regulação das interações humanas. Contudo, se são concernentes às emoções, ou não, é um campo de controvérsias ainda nos dias atuais, dependendo do que se entende por “emoções”. Por exemplo, HORSTMANN (2003), discute as idéias e experimentos de pesquisadores mais tradicionais, em contraponto com aquelas dos ecologistas do comportamento, expostas anteriormente no referencial teórico. Em pesquisa empírica com mais de 2000 sujeitos, aborda a questão: o que as expressões faciais sinalizam: emoções, intenções de ação ou demanda de ação do(s) outro(s), a quem são dirigidas? ─ afirmando como resultado que as expressões faciais sinalizam emoções.

O controle de ações motoras pode ser por meio de diferentes regiões cerebrais, filogeneticamente mais antigas ou mais recentes na história da evolução. DAMÁSIO (1996: 169-179) afirma a especificidade dos sistemas neurais dedicados às emoções básicas, estabelecidos a partir de estudos sobre lesões cerebrais localizadas e que podem ser avaliados a partir das limitações da sua expressão emocional espontânea. Ainda que a mesma musculatura facial exerça ações motoras semelhantes, essas podem ser coordenadas de modo voluntário ou de modo mais autonômico e involuntário a partir de diferentes estruturas cerebrais. Damásio exemplifica a coordenação por via piramidal45 no caso de um sorriso, diferente da coordenação e da memória de atos motores mais involuntariamente controlados, por exemplo, o riso mais espontâneo provocado por uma anedota. Existem mecanismos neurais que sustentam sentimentos de “como se” o corpo estivesse passando por alterações de estados fisiológicos emocionais, evocados de tal modo que exista o sentimento (experiência subjetiva) sem a alteração fisiológica correspondente. Os atores podem se valer desse tipo de

45 O feixe piramidal é o conjunto massivo de axônios (prolongamentos de neurônios que conduzem o impulso na

direção da saída dos seus corpos celulares) que começa no córtex cerebral motor primário e leva impulsos nervosos aos núcleos (conjuntos de corpos celulares) do tronco encefálico e da medula espinhal por meio dos nervos encefálicos. O sorriso “piramidal” a que se refere é o produzido pela contração voluntária do zigomático, aquele que fazemos quando queremos produzir uma imagem sorridente ao sermos fotografados e dizemos X, em contraste com o sorriso produzido pela contração involuntária desse músculo e do orbicularis oculi. (DAMÁSIO, 1996:170-171)

mecanismo e de observação cuidadosa de expressões, ou então recriar estados emocionais fisiológicos coerentes com a expressão desejada. Nesse último caso, ela parece mais autêntica para os observadores, entretanto, requer maior maturidade e regulação da inibição de estados emocionais desencadeados pelas emoções propriamente vivenciadas (diferentes das representadas).

Professores são atores, no sentido de que regulam a expressão de emoções deliberada e intencionalmente ou não, mesmo em conflito com seus sentimentos, com a intenção de obter determinado tipo de comportamento de seus alunos e/ou expressar comportamento emocionalmente idealizado. Em um dado momento, o que expressam pode ser muito diferente da experiência subjetiva (emoção III) que vivenciam, no trabalho emocional a que se refere HARGREAVES (1998) ou na regulação emocional a que se refere SUTTON, (2004) e que já comentamos anteriormente.

Entendemos que uma mesma expressão, por exemplo, chorar, franzir a testa ou inclinar a cabeça, poderá ser interpretada de modos completamente diferentes, dependendo do contexto. Essa expressão é componente de uma ação específica, acontece em um indivíduo e em uma situação específicos, sob influência de fatores sociais, culturais e históricos. Ainda que não seja espontânea e autonômica, mesmo deliberadamente obtida, de algum modo estará sustentada por alguma forma de sentimento (emoção III), congruente com a expressão ou não, dependendo da interação em foco, e terá sido aprendida por meio dos mecanismos de regulação, o individual e o social.

Nosso interesse foi na identificação, nos professores pesquisados, das expressões emocionais observáveis, mais espontâneas ou menos espontâneas, para delas interpretar um significado que é dependente de situações singulares e específicas do ensino, pois as manifestações emocionais de cada um são situadas, altamente dependentes do contexto, de esquemas cognitivos individuais e sujeitas à influência subconsciente.

Então estabelecemos categorias de comportamentos para observação do registro em vídeo de cada aula: postura, gestos, expressões faciais, proximidade, intensidade e entonação da fala que acompanharam cada segmento analisado, procurando distinguir expressões mais espontâneas (emoção II) e as que caracterizam comportamentos mais orientados para objetivos do ensino, procurando pelos sentimentos, por maior ou menor satisfação. Essas observações foram registradas em intervalos de tempo de minutos e analisadas de modo mais livre, fora de protocolos mais rígidos das tradições mais comportamentalistas.

Consideramos nossa compreensão e interpretação dessas expressões satisfatória pelo fato de termos bastante familiaridade com os comportamentos e interações em sala de aula, adquirida na experiência de décadas como professores de Ensino Médio em diferentes instituições, ao mesmo tempo em que, durante o tempo da pesquisa, não houve convivência pessoal diária, rotineira e contínua ou relações de profunda amizade com os pesquisados (STERNGLANZ e DePAULO, 2004).