Durante as sessões cinematográficas, como verificamos anteriormente, o comportamento do público nem sempre foi o melhor. No dia 1 de Janeiro de 1901, no
Pavilhão Grande, numa festa dedicada à comunidade estrangeira, projectaram-se as últimas imagens da guerra entre ingleses e boers. E, como relata João Maurício Marques, “ (…) entre apupos e disparates, alguns britânicos chegaram a vias de facto com cidadãos madeirenses após terem sido por estes insultados. O arraial de pancadaria atingiu igualmente a orquestra e partiram-se mesmo alguns instrumentos.”242
Em 1918, o semanário Trabalho e União alertou para a “ (…) malcreada imprudencia de alguns espectadores (…)”243 no Pavilhão Paris, que estragou as interessantes sessões de
animatógrafo. Quinze dias depois, o mesmo jornal, relativamente ao mesmo espaço, comentava: “Pena é que os graciosos não deixem os pezinhos em casa”244. Em situações mais extremas e quando o espectáculo não agradava ouviam-se insultos, chegando mesmo alguns objectos a serem arremessados. Tais episódios eram descritos e censurados pelo jornalismo da época. Em 1907 criou-se um decreto municipal para impedir a má educação dos espectadores. A Câmara Municipal do Funchal decretou a “proibição de clamores e gritos”, colocando um polícia em todas as sessões245.
No Teatro-Circo, a 6 de Julho de 1922, “ (…) a meia sessão do espectaculo, o motor cinematográfico avariou-se, de forma que não foi possivel continuar o espectáculo. O público, que a principio se conservou já numa espectativa meio turbulenta, quando apareceu
o aviso de que o espectaculo não podia continuar, rompeu em apupos e protestos violentos, insultando, em alta gritaria, os emprezarios, o operador, tudo e todos, quebrando cadeiras,
242 MARQUES, João Maurício, Idem, p. 11
243 Trabalho e União, ano XII, Nº 565, Sábado, 30 de Novembro de 1918, p. 3 244 Idem, ano XII, Nº 567, Sábado, 14 de Dezembro de 1918, p. 3
pretendendo que lhe devolvessem o custo da entrada, e fazendo tentativas para assaltar a bilheteira.”246
Com uma gritaria ensurdecedora, ouvindo-se frases amaçadoras, foi tentada, sem sucesso, uma mediação por parte do Comissário da Polícia e do Governador Civil. Mesmo assim, o público decidiu assaltar a residência do senhor Leonardo Sardinha (empresário do
Teatro-Circo), chegando com comportamento tumultuoso e palavras provocadoras. A polícia, recorreu a meios mais violentos, chegando mesmo a haver tiros isolados, pôs termo ao sucedido. Situação esta que o jornal lamentou, afirmando: “Devemos justiça com dizer que o sucedido ao motor do aparelho foi um acidente absolutamente natural, em que nenhuma responsabilidade tem o operador nem a empreza e bom será que o publico, em casos idênticos, se não manifeste tão ruidosamente, para evitar apreciações menos lisongeiras para o nosso civismo.”247
Frequentemente, quando havia algum problema técnico que afectasse a projecção e o normal decorrer da sessão, a assistência responsabilizava os técnicos e as empresas. Neste contexto surgiram advertências e explicações, numa tentativa de inibir os frequentadores do cinematógrafo de maus comportamentos. O Correio da Madeira explicou que, quando chegavam ao Funchal, as fitas já tinham percorrido milhares de quilómetros, aparecendo já estragadas, e exigiam dos operadores verdadeiros milagres para poderem ser exibidas de
forma a agradar. E aclarou: “Antigamente, quando os operadores eram uns garotos que nem
andamento sabiam imprimir ao maquinismo – andamento que deve estar sempre em relação ao assunto – ainda a sua falta de perícia concorria para os desastres, que então eram quasi contínuos; mas hoje, não. Adriano de Freitas nunca exibe um «film» ao público que não tenha experimentado, não sò para conhecer do seu estado, como ainda para conhecer o assunto e poder projectá-lo bem.”248
Adriano Filipe de Freitas foi um experiente técnico cinematográfico, que concorreu determinadamente com os mecânicos da capital (ilustração 16). Foi responsável pela inauguração do Teatro-Circo, com um aparelho Gaumont; montou o Salão Ideal, cuja mecânica dirigiu sempre; foi técnico do Pavilhão Paris. Em 1922 dirigiu a mecânica deste
246 Correio da Madeira, ano I, Nº 82, Sábado, 8 de Julho de 1922, p. 1
247 Idem
Pavilhão e do Teatro-Circo. Segundo o Correio da Madeira, Adriano Freitas merecia o lugar que ocupava pelo seu estudo, zelo e inteligente trabalho249.
Outra crítica efectuada pela imprensa, ao público madeirense, era o facto de este não frequentar, com regularidade e em quantidade suficiente, os filmes de melhor qualidade. Deste modo, certas fitas não chegavam à Ilha, porque o número de espectadores o não justificava. A questão colocou-se relativamente ao filme A Chegada dos Aviadores ao Brasil, visto no Coliseu dos Recreios em Lisboa por 200 000 entusiastas, que não viria ao Funchal, uma vez que não teria público suficiente que pagasse o seu aluguer. O Correio da Madeira esclareceu com alguma tristeza, e citamos quase na íntegra, dado o carácter elucidativo da notícia, que “ (…) para o «Pavilhão Paris», poder alugar semelhante fita, seria preciso que tivesse quatro casas «á cunha», o que equivaleria a levar cêrca de quatro mil espectadores.
O empresario sr. Cesar do Nascimento recuou no cometimento, porque – diz êle e muito bem – «Tenho feito enormes sacrifícios com outros «films» tambem de grande nome e poucos me teem dado lucros.»
Para o público dos nossos cinemas – francamente – «films» que não contenham murros, roubos, correrias, pugilatos, não são frequentados.
E no entanto, «A viagem dos aviadores ao Brasil» contendo, ao que dizem, trechos interessantíssimos de apoteoses, episódios trágicos dos Penedos, trechos de Fernando Neronha, seriam um documento digno de ser visto e bem digno do Funchal – se o seu público estivesse orientado na frequencia de «filmes» que saiam do pugilismo.”250
Afinal, não mudamos assim tanto!