1. REKABET VE REKABET GÜCÜ
1.1. TEDARİK ZİNCİRİ YÖNETİMİNDE ETKİLİ OLAN TRENDLER
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Ao longo do processo de conquista, o contato entre os indígenas e os conquistadores europeus caracterizou-se ora com alianças e acordos e ora com intensos conflitos. Nesse contexto, buscamos contrapor os discursos produzidos por esses conquistadores no momento do contato com determinado grupo étnico. É possível observar que, apesar de os discursos estarem engajados na mesma questão de vassalagem, cristianismo e fidelidade a Su Majestad (Rei Carlos V)36, eles se contrapõem
e/ou se assemelham em momentos que os diferenciam quanto aos condicionantes culturais, econômicos, políticos e sociais de cada conquistador em questão.
A partir de 1516, com a expedição de Juan Díaz de Solís37, o Oriente boliviano, bem como o Pantanal, começa a ser ocupado pelos conquistadores espanhóis procedentes de Assunção, que constantemente buscavam uma via de comunicação até as riquezas minerais do Peru. Pelo interior dessa região, os europeus encontraram numerosos grupos indígenas, mantendo relações pacíficas e/ou conflituosas.
Durante a expedição pelo rio Paraguai, em 1543, Alvar Núnez Cabeza de Vaca e sua tripulação mantiveram inúmeros contatos com distintos grupos indígenas do Pantanal e da Chiquitania. Esses contatos, inicialmente, foram possíveis, pois,
viendo que el gobernador castigaba a quien en algo los enojaba, venían todos los indios tan seguros con sus mujeres e hijos, que era cosa de ver; y de muy lejos venían cargados con mantenimientos sólo por ver los cristianos y los caballos, como gente que nunca tal había visto pasar por sus tierras (CABEZA DE VACA, 1984 [1555], p. 164-165).
Logo, Cabeza de Vaca acreditava que os indígenas sentiam medo ao ver os europeus e os seus cavalos, pois nunca os haviam visto em suas terras. Essa certeza que os conquistadores do século XVI têm ao dar sentido aos seus discursos é o que De Certeau, na análise da obra de Roland Barthes, Le discours de l’historie, chamou de o
36 Entre, aproximadamente, 1520 e 1555, o rei da Espanha era Carlos V. Filho de Felipe I, o belo (filho do
imperador Maximiliano I, morto em 1519), e de Joana, a louca (filha de Fernando da Espanha, morto em 1516).
37 Em 1524, um dos tripulantes da expedição de Solís, Alejo García, com mais quatro europeus e,
aproximadamente, 2.000 indígenas Guarani, iniciam outra expedição pelo litoral de Santa Catarina/Brasil até as sierras de la Plata/Andes, trazendo, na volta, abundante carga de ouro e prata (ARCE, 2007, p. 32).
prestígio do aconteceu, “que consiste em esconder sob a ficção de um “realismo” uma maneira, necessariamente interna à linguagem, de propor um sentido” (1982, p. 47). Para Barthes, esses diferentes discursos se articulam sobre um real perdido, que é o passado (realidade que está isolada da linguagem). De Certeau afirma que o significado do discurso historiográfico são estruturas ideológicas ou imaginárias, mas elas são afetadas por um referente exterior ao discurso, por si mesmo inacessível. Ainda conforme Barthes, “o discurso historiográfico não segue o real, não fazendo senão significá-lo repetindo sem cessar aconteceu, sem que essa asserção possa jamais ser outra coisa do que o avesso significado de toda a narração histórica” (apud DE CERTEAU, 1982, p. 47) [grifo do autor].
Ao ler o relato de expedição de Cabeza de Vaca, percebe-se que o seu discurso fez- se através de passagens que mostram que os contatos interétnicos com os distintos grupos indígenas foram amistosos. Quando as alianças com os indígenas não eram concretizadas, devido a não aceitação por parte dos indígenas, ocorria então o que entendemos por conflito interétnico. Porém, nessas situações, Cabeza de Vaca faz questão de relatar que os europeus tentaram fazer a aliança com os indígenas muitas vezes, demonstrando a preocupação do conquistador em ‘justificar’ em nome de Deus e de Sua Majestade a causa do conflito com algum grupo indígena:
[…] llegado a los pueblos (Arrianicosies), pediréis a los indios a dovais que os den de los mantenimientos que tuvieren para sustentar las gentes que lleváis, ofreciéndoles la paga y rogándoselo con amorosas palabras; y si no
os lo quisieren dar, requerírselo heis una, y dos, y tres veces, y más, cuantas de derecho pudiéredes y debiéredes, y ofresciéndole primero la paga; y si todavía no os lo quisieren dar, tomarlo heis por fuerza; y si os lo defendieren con mano armada, hacerle heis la guerra, porque el hambre en
que quedamos no sufre otra cosa; y en todo lo que sucediere adelante os habed tan templadamente, cuanto conviene al servicio de Dios y de Su Majestad; lo cual confío de vos, como de servidor de su Majestad (CABEZA DE VACA, 1984 [1555], p. 270-271) [grifo nosso].
Quando o governador Cabeza de Vaca chegou à cidade de Assunção, onde estava o capitão Domingo de Irala, pediu, em nome de Sua Majestade, que fossem reunidos os indígenas da região, nesse caso, os Guarani. Posteriormente, Cabeza de Vaca proclamou o seu discurso e repartiu ‘presentes’ aos indígenas, visando à proximidade e a torná-los vassalos de Sua Majestade:
[…] cómo Su Majestad lo había enviado a los favorescer y dar a entender cómo habían de venir en conoscimiento de los religiosos y clérigos que para que estuviesen debajo de la obediencia de su Majestad, y fuesen sus vasallos, y que de esta manera serían mejor tratados y favorecidos que hasta allí lo
habían sido; y allende de esto, les fue dicho y amonestado que se apartasen de comer carne humana, por el grave pecado y ofensa que en ello hacían a
Dios, y los religiosos y clérigos se lo dijeron y amonestaron; y para les dar contentamiento, les dijo y repartío muchos rescates, camisas, ropas, bonetes y otras cosas, que se alegraron (1984 [1555], p. 182) [grifo nosso].
De acordo com Neetzow (2001, p. 14), na Europa do século XVI, a religiosidade cristã católica exercia muita influência sobre a população, sendo um reflexo da Idade Média. Assim, os conquistadores espanhóis que empreendiam essas expedições, como Cabeza de Vaca, Domingo Martinez de Irala, Nuflo de Cháves e Schmídel38, fizeram juramento de vassalagem e fidelidade ao rei Carlos V e à religião Católica. Dessa forma, nos relatos de expedições desses conquistadores, observam-se os discursos engajados nas mesmas idéias do juramento ao rei Carlos V.
Outra característica importante a ser ressaltada é a proibição, por parte do governador Cabeza de Vaca, da prática antropofágica ou de canibalismo pelos indígenas, dizendo que esse costume era um pecado e ofensa a Deus, ao rei Carlos V, aos religiosos e aos europeus. Entretanto, no relato de Schmídel, observa-se a prática de canibalismo pelos próprios europeus:
Y aconteció que tres Españoles se robaron un rocín y se lo comieron sin ser sentidos; mas cuando se llegó á saber los mandaron prender é hicieron declarar con tormento; y luego que confesaron el delito los condenaron á muerte en horca, y los ajusticiaron á los tres. Esa misma noche otros Españoles se arrimaron á los tres colgados en las horcas y les cortaron los muslos y otros pedazos de carne y cargaron el hambre. También un Español se comió al hermano que había muerto en la ciudad de Bonas Ayers (1903 [1567], p. 151- 152).
Para Costa (2000, p. 68-69), assim como qualquer relato escrito pelos europeus, esta não é uma narrativa neutra, pois Schmídel, que era protestante e não católico, denuncia o comportamento dos companheiros de expedição católicos ao ingerirem seus semelhantes para sanar a fome.
38 Ulrich Schmídel faz o juramento à religião Católica somente durante a expedição de Don Pedro de Mendoza em 1536 pelo rio da Prata, pois, quando retorna a Straubing, na Alemanha, em 1556, Schmídel
Sobre os “maus costumes” dos indígenas, Viveiros de Castro (2002, p. 188-189) afirma que, durante o processo de conquista e de evagelização dos indígenas, o maior obstáculo a superar não era a presença de uma “doutrina inimiga”, mas os “maus costumes” (como o canibalismo e guerra de vingança, bebedeiras, poliginia, nudez, etc.). Para o autor,
os missionários não viram que os ‘maus costumes’ dos Tupinambá eram sua verdadeira religião, e que sua insconstância era o resultado da adesão profunda a um conjunto de crenças de pleno direito religiosas. […], talvez os jesuítas soubessem disso, no fundo, ou não teriam logo detectado nos costumes o grande impedimento à conversão (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 192).
Segundo Amaral Luz (2000, p. 132), a prática de antropofagia é vista como um elemento estigmatizador de barbárie, justificando guerra justa e consequente exploração dos vencidos. Assim, o autor afirma que há estudos que questionam a veracidade de alguns relatos sobre a antropofagia na América, com o argumento de que poderia haver interesse em condenar povos como ‘comedores de carne humana’ para justificar ações violentas e escravistas. No próprio registro de Azara sobre as expedições europeias na bacia do Prata, há relatos negando a existência de antropofagia entre os indígenas, como os Guarani e os Chiquito. Diz que, nos relatos do século XVI (obtidos por Cabeza de Vaca, Schmídel, Guzman, Irala, entre outros), “[…] casi todas las naciones eran antropófagas, y que en la guerra usaban de flechas envenenadas; pero uno y otro lo creo falso, puesto que nadie de las mismas naciones come hoy carne humana, ni conoce tal veneno, ni conserva tradición de uno ni otro, […] (AZARA, 1943 [1847], p. 100). Longe dessa discussão, Viveiros de Castro (2002, p. 198-207) afirma que, entre os Tupinambá, canibalismo estava associado à guerra e à vingança que “exprimiam a mesma propensão e o mesmo desejo: absorver o outro e, neste processo, alterar-se”. Logo, durante o contato interétnico, os europeus talvez não tenham percebido que “é a vingança o ponto inegociável, não o canibalismo a ela associado”.
Dessa forma, conforme White, “o intuito do discurso é constituir o terreno onde se pode decidir o que contará como um fato na matéria em consideração e determinar qual o modo de compreensão mais adequado ao entendimento dos fatos assim constituídos” (1994, p. 16), sendo este um papel do autor a partir dos seus condicionantes culturais, ideológicos e históricos. Logo, nos relatos dos conquistadores
espanhóis, é possível observar a construção dos discursos engajados na mesma causa, porém os condicionantes históricos e culturais de cada conquistador influenciam nas atitudes durante o contato com a sociedade indígena, na linguagem do relato, bem como na escolha dos assuntos a serem registrados. Por exemplo, nos contatos interétnicos com os grupos indígenas que habitavam ao redor das lagoas Gaíba e Mandioré, o conquistador Cabeza de Vaca proclamava novamente seu discurso engajado na mesma questão de vassalagem, fidelidade a Sua Majestade e ao cristianismo, visando a que os indígenas da região recebessem ‘amistosamente’ a doutrina cristã e que se tornassem vassalos de Sua Majestade:
[…] a desembarcar en el puerto de los Reyes, en el cual hallamos en la ribera muy gran copia de gente de los naturales, que sus mujeres e hijos y ellos estaban esperando; y así el gobernador con toda la gente , y todos ellos se vinieron a él, y él les informó cómo Su Majestad le enviaba para que les
apercibiese la doctrina cristiana, y creyesen en Dios, Criador del Cielo y de la Tierra, y a ser vassalos de Su Majestad, y siéndolo, serían amparados y
defendidos por el gobernador y por los que traía, de sus enemigos y de quien les quisiese hacer mal, y que siempre serían bien tratados y mirados, como Su Majestad lo mandaba que lo hiciese; y siendo buenos, les daría siempre de
sus rescates, como siempre lo hacía a todos los que lo eran; y luego mandó llamar a los clérigos y les dijo cómo quería luego hacer una iglesia donde le dijesen misa y los otros oficios divinos, para ejemplo y consolación de los
otros cristianos, y que ellos tuviesen especial cuidado de ellos. E hizo hacer una cruz de madera grande, la cual mandó hincar junto a la ribera, debajo de unas palmas altas, en presencia de los oficiales de Su Majestad y de otra mucha gente que allí se halló presente […] (CABEZA DE VACA, 1984 [1555], p. 246) [grifo nosso].
Já no relato de Ulrich Schmídel sobre o contato com os indígenas Xaraye que habitavam regiões próximas as lagoas Gaíba e Mandioré observa-se o bom tratamento dos europeus pelos indígenas, assim como as informações obtidas pelos Xaraye sobre outros grupos indígenas que tinham peças de ouro e de prata. Neste trecho, Schmídel apresenta-se como um cristão, devido ao juramento ao cristianismo, mas também mostra-se engajado no contexto histórico do século XVI, que era o da conquista de riquezas minerais:
[…] el rey reunió en su corte á su manera como el más poderoso señor de la tierra; hay que hacerle música á la mesa cuantas veces se le antoja; entonces los hombres y las mujeres más hermosas tienen por obligación que bailarle; el tal baile de ellos es cosa de verse como maravilla, en especial para nosotros Cristianos, de suerte que uno tiene que olvidarse hasta de su boca. […]. Allí nos demoramos unos 4 días, […]. También le dió el rey una corona de oro que
pesaba casi un marco y medio […] y otras cosas más de plata, y dijo después
piezas las había tomado de los Amossenes (Amazonas) en la guerra en tiempos atrás. […] (1903 [1567], p. 215-217) [grifo nosso].
Os contatos interétnicos registrados por Schmídel geralmente apresentam o lado belicoso da conquista, ou seja, os inúmeros conflitos entre os indígenas e os europeus. Schmídel relata que, nas margens do rio Paraguai, havia um numeroso grupo indígena chamado Curemaguaés, que ofereceu muitos mantimentos. Depois, Schmídel relata que seu grupo partiu rumo a outro povoado de indígenas – o dos Agaces (Payaguá):
Cuando dimos con ellos, se enfrentaron com nosotros queriendo pelea y estorbarnos el viaje (…). Matamos a muchos, en tanto que ellos dieron muerte a quince de los nuestros. Los Agaces son excelentes guerreros en el agua; en cambio, no lo son en tierra (…) (SCHMÍDEL, 1903 [1567], p. 169-170) [grifo nosso].
Schmídel tem uma enorme preocupação em registrar detalhes da sua participação durante uma guerra contra os grupos indígenas no decorrer da sua expedição pelo Pantanal e pela Chiquitania. Num episódio contra os Mbayá-Guaicurú, Schmídel menciona o número de inimigos que estavam na guerra, quantos indígenas foram mortos, o número de arcabuzeiros e de indígenas aliados dos europeus no conflito, assim como as vantagens que os europeus tiveram sobre os inimigos durante o confronto:
Así vinieron los antedichos Mayaiess (Mbayá) en numero de 20.000 hombres y pretendieron sorprendernos, mas no nos sacaron mayor ventaja, sino que en esta misma escaramuza quedaron unos 1.000 muertos de la gente de ellos; en seguida huyeron ellos de allí y nosotros los perseguimos hasta su pueblo, mas no encontramos nada allí, ni mujeres ni hijos. Entonces mandó nuestro capitán y tomó unos 150 arcabuceros y 2.500 indios Carios y marchó en pos de los Mayaiess (Mbayá) 3 días seguidos y 2 noches, así que no descansábamos nosotros sino sólo para comer á medio día y dormir 4 ó 5 horas cada noche. Y al tercer día dimos con los Mayaiess (Mbayá) todos juntos, hombres, mujeres y niños en un bosque; mas no eran ellos los Maiaies (Mbayá) que buscábamos, sino sus amigos. Ni cuidado que se les daba á ellos de nuestra llegada allí. Así tienen que pagar justos por pecadores; porque cuando nosotros llegamos á los Mayaiess (Mbayá) estos, matamos y apresamos hombres, mujeres y niños en número como de 3 mil hombres, y si hubiese sido de día, así como fue de noche, no se escapa uno de ellos; porque había mucha gente junta en un cerro, en que había un bosque muy grande. […] (SCHMÍDEL, 1903 [1567], p. 250-251).
O contato com os Xaraye, frequentemente, é apresentado de forma amistosa pelo conquistador Cabeza de Vaca e seus companheiros de expedição Antón Correa e Héctor de Acuña:
[…] llegaron a los pueblos de los indios; y antes de llegar a ellos com um tiro de ballesta, salieron más de quinientos indios de los xarayes a los recibir con mucho placer, todos muy galanes, compuestos con muchas plumas de papagayos y avantales de cuentas blancas, con que cubrían sus vergüenzas, y los tomaron en medio y los metieron en el pueblo, a la entrada del cual estaban muy gran número de mujeres y niños esperándolos, […] (CABEZA DE VACA, 1984 [1555], p. 256).
Nesse mesmo relato, Cabeza de Vaca continua descrevendo o modo de vida dos Xaraye e o modo como esses indígenas receberam os europeus. Posteriormente, “[…] el mismo principal los llevó consigo a su casa, y allí les mandó dar de comer y sendas redes de algodón en que durmiesen, y les convidó que si quisiese cada uno su moza, que se la darían; pero no las quisieron, diciendo que venían cansados; […]” (1984 [1555], p. 258).
Interessante notar que, nesse episódio, o principal (ou cacique) dos Xaraye, chamado Camiré, ofereceu a cada homem uma mulher Xaraye, porém Cabeza de Vaca relata que os espanhóis não aceitaram, pois estavam cansados. Num episódio semelhante relatado por Schmídel durante o contato com os indígenas Mayeaiess (Mbayá), um discurso inverso é apresentado: Schmídel relata que esses indígenas ofereceram três mulheres ao capitão Domingo de Irala. Irala aceitou as mulheres, porém Irala não pôde contentá-las, pois já estava com uns 60 anos. Schmídel também diz que, se os Mayeaiess (Mbayá) tivessem oferecido as três mulheres aos soldados, estes fariam melhor proveito da ‘oferta’:
[…] mandaron ellos á nuestro capitán 3 lindas doncellas, ó mujeres, que no eran viejas. […]. Más tarde, como á la media noche, sucedió que se le perdieron á nuestro capitán sus 3 doncellas; acaso no pudo satisfacer á todas 3, porque era un hombre de unos 60 años; si no las hubiese entregado á nosotros los soldados, tal vez no hubiese disparado; en suma, causa de esto se armó gran alboroto en el real (SCHMÍDEL, 1903 [1567], p. 249-250).
Quando os conquistadores entram na Chiquitania, o contato entre os Chiquito e os europeus é, em grande parte, caracterizado por intensos conflitos. Essa forte resistência que os europeus encontraram foi uma das causas do regresso de alguns soldados espanhóis à cidade de Assunção no Paraguai, abandonando o capitão Nuflo de Cháves e outros companheiros de expedição.
Durante uma entrada, em 1543, na Chiquitania, pelo conquistador Francisco de Ribera39, que acompanhava a expedição do governador Alvar Núnez Cabeza de Vaca, os espanhóis e os Guarani encontram com os Tarapecocie ou Chiquito40. Ribera relata que esses indígenas possuíam objetos de metal, muitos mantimentos e indígenas Orejone, que viviam como seus cativos. Esses Orejone eram originários, provavelmente, das grandes lagoas da borda oeste do Pantanal (Fig. 1):
[…] y vieron cerca de allí una casa grande de paja y madera; y como llegaron cerca de ella, vieron que las mujeres y otros indios sacaban lo que dentro estaba de ropa de algodón y otras cosas, y se metían por las hazas adelante, y el indio los mandó entrar dentro de la casa, en la cual andaban mujeres e indios sacando todo lo que tenían dentro, y abrían la paja de la casa y por allí lo echaban fuera, […] (RIBERA, 1962 [1555], p. 72).
Ribera afirma que conseguiu informações, por meio dos cativos Orejone, sobre as povoações distribuídas na região e sobre outros europeus que estavam junto aos Tarapecocie. Os Tarapecocie “por señas les dijo que se asentasen, y a dos indios orejones que tenían por esclavos, les mandó a dar a beber de una tinajas que tenían dentro de la casa metidas hasta el cuello debajo de tierra, llenas de vino de maíz; (…)” (RIBERA, 1962 [1555], p. 72) [grifo nosso]. Como os conquistadores europeus conseguiam tantas informações se dificilmente compreendiam o que os indígenas falavam? Francisco de Ribera relata, nesse trecho, que a comunicação entre os europeus e os indígenas ocorria por sinais e gestos.
Para Foucault, a troca e a comunicação entre os diferentes grupos étnicos,
Era a forma mais superficial e mais visível desses sistemas de restrição […] constituída pelo que se pode agrupar sob o nome de ritual; o ritual define a qualificação que devem possuir os indivíduos que falam […]; define os gestos,
39 Lacalle considera que os progressos da conquista realizada pela expedição de Alvar Núnez Cabeza de
Vaca foram alcançados pelo conquistador Francisco de Ribera “[…] quien por entre tierras de indios Tarapecocís llegó a Charcas y, por poco, enlaza con los españoles del Perú, […]” (1961, p. 149). Porém, Azara afirma que Cabeza de Vaca não estava presente durante o relato feito por Francisco de Ribera sobre