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Na comparação dos modelos previdenciários do Chile e do Brasil foi possível identificar que ambos seguem a estrutura sugerida pelo Banco Mundial e adotada em mais de oitenta paises em que prestou, não só ajuda financeira para as reformas de adequação necessárias, como também, para implantação do modelo, coincidindo inclusive, com a política do neoliberalismo de “Estado Mínimo”, prevalente nas últimas décadas.

Esse modelo sustenta como melhor solução para a reforma dos sistemas de previdência, a adoção de “pilares múltiplos”, como forma de estabelecer estruturas diferenciadas para enfrentamento das diversas modalidades de riscos inerentes a previdência.

Na fundamentação dessa política, o Banco Mundial aponta que a variável demografia, a qual é apresentada no terceiro capítulo quando avaliada, evidencia e confirma efetivamente o envelhecimento da população, o aumento da expectativa de vida e a redução da taxa de natalidade e que estes fenômenos estão de fato pressionando os países a reverem seus sistemas de previdência, preocupados com o crescente custo fiscal para o Estado.

O estudo do Banco Mundial confirma que a maioria dos planos de pensões públicos, no mundo, não estão desenhados para manter os níveis atuais das pensões e que na década passada, os planos de pensão foram colocados como fundamentais para a estabilidade econômica dos países e como uma garantia às populações que envelheceriam e dependeriam do Estado para sobreviverem.

Essa posição foi aceita tendo em vista, que os modelos eram baseados no sistema de capitalização simples, tanto no Brasil quanto no Chile antes da

reforma. Levava-se em consideração que o crescimento da população seria constante, tendo assim sempre participantes pertencentes à economia ativa que financiariam os inativos de forma permanente.

Todavia a alteração do comportamento demográfico e os novos movimentos de trabalho e emprego, verificado nos paises analisados, não corresponderam às projeções e expectativas, comprometendo a base conceitual do modelo.

Em 1981, verifica-se na medida adotada pelo Chile, que apesar de não solucionar definitivamente o problema de sua previdência, permitiu, entretanto, uma redução no custo fiscal para o governo.

Outros aspectos como a maior participação da mulher no mercado de trabalho, o aumento das taxas de divórcio, o surgimento de novas modalidades de trabalho, formais e informais e o crescente envelhecimento da população levaram a constatação, da influência destes fatores na geração do déficit apresentado pela previdência em ambos os países.

O modelo Chileno está estruturado em três pilares, seguindo as políticas do Banco Mundial. Nesta configuração, sua estrutura permite uma maior participação dos afiliados na geração e gestão dos recursos direcionados para formação de sua previdência, visto que a gestão dos fundos é feita pela iniciativa privada, que tem a obrigatoriedade de prestar contas dos investimentos feitos, dos retornos obtidos sobre os investimentos, da composição de carteira e dos resultados apurados.

O sistema também permite ao participante a portabilidade dos recursos, o que proporciona ao participante a possibilidade de realização da transferência de fundos, no caso da insatisfação com a gestão ou com os rendimentos gerados por

esta. Já no sistema público chileno, isto não era possível, dado que o Estado era o gestor do caixa e não tinha identificado individualmente as contribuições, o que permitia situações de corrupção, uso inadequado dos fundos e fraudes.

No Brasil o sistema público, único gestor dos recursos, continua sem evidenciar ou controlar as contribuições individualmente e como o sistema não é de capitalização não há que se falar em portabilidade.

Apesar dessa possibilidade de interferência do pensionista chileno, percebe-se que boa parte, dos participantes do sistema chileno possuem uma visão deturpada dos rendimentos a serem gerados pelas AFPs, em função de expectativas de rendimentos superiores ao que o mercado se propõe a gerar. Assim, a princípio sentem-se frustrados com os resultados gerados pelo sistema, em decorrência da falta de conhecimento de seu funcionamento.

De qualquer modo a estrutura criada no Chile, permitiu a desoneração do Estado, apesar de ainda existir um “esqueleto” representativo das pensões daqueles que não aderiram ao novo modelo e das pensões mínimas garantidas pelo Estado no novo sistema e que ainda afetam suas contas.

Pode-se concluir que o sistema de capitalização do Chile, com contas individualizadas que permite ao participante a gestão dos recursos, a possibilidade de visualização dos resultados e restringe a utilização dos recursos a projetos com rentabilidade é uma alternativa viável para utilização como referencial para a previdência do Brasil. No entanto tem-se que equacionar alguns pontos complementares, tais como:

a) o fato, do país, ser jovem ou, de médio amadurecimento cria uma condição de ainda não estarem sofrendo, com grande intensidade, o impacto dos efeitos da saída de recursos para pagamento dos benefícios;

b) A necessidade de geração de rendimentos cada vez maiores para suportar a ampliação da expectativa de vida;

c) a necessidade de uma gestão eficiente do volume de recursos envolvidos, de modo a garantir a manutenção das reservas técnicas e a constituição dos montantes necessários para o pagamento dos benefícios;

d) a preservação dos recursos de forma que os mesmos não sejam utilizados como instrumento político ou, de desenvolvimento da econômica, sem a garantia efetiva da taxas de retorno viáveis;

d) a gestão do risco financeiro interno e externo de forma a equacionar a solidez das carteiras, garantidoras dos recursos;

e) a utilização de tábuas atuariais de mortalidade e de esperança de vida que reflitam efetivamente as condições do país.

O segundo problema estabelecido está relacionado ao questionamento quanto a ser função do Estado à manutenção do poder aquisitivo do indivíduo após a sua aposentadoria, ou se seria apenas função do Estado satisfazer as necessidades básicas do indivíduo após a aposentadoria.

Entende-se que o papel do Estado seria o de manter essas necessidades básicas de modo a garantir sua sobrevivência, ficando como sua incumbência essa preservação. No entanto, é necessário também um estímulo ao indivíduo para à formação de uma poupança complementar, estabelecida de forma compulsória ou não(Previdência Privada obrigatória ou facultativa), para manutenção das mesmas condições de vida tidas da ativa.

Com relação à inclusão de categorias que não participaram do processo de formação dos recursos; no Brasil pode-se observar que a utilização da previdência como instrumento de equilíbrio social, os chamados programas de “welfare”, fez com que a incorporação de categorias no sistema, sem a efetiva

definição das fontes de custeio onerasse o sistema. A permissibilidade do recebimento de aposentadorias por categorias que efetivamente não contribuíram como a dos empregados rurais, e a redução dos benefícios recebidos por aqueles que contribuem compulsoriamente, quando registrados com valores altos de salários, fez com que o sistema ficasse desacreditado, trazendo como conseqüência o desestímulo dos indivíduos a participação.

Até mesmo os empregados rurais, quando estimulados a terem seus registros em carteira, abdicam deste direito para aposentarem-se mais cedo, as mulheres aos 55 anos e não aos 60 anos e os homens aos 60 anos e não aos 65 anos como o novo sistema exige.

Observa-se, entretanto, que a inclusão da categoria dos rurícolas no sistema teve caráter social e permitiu realizar parte da tão divulgada distribuição de renda, seja pela manutenção do contingente de pessoas que trabalham no campo, permitindo assim terem condições de subsistência ao entrarem na inatividade, seja pelo consumo que elas propiciam nos municípios que demandam dessa renda e alguns que as tem como única fonte para geração de seu PIB e conseqüentemente, para a manutenção da economia da cidade.

Mas, não se pode ignorar que estas aposentadorias rurais, sem fontes de custeio, são responsáveis por R$28,5 bilhões de reais do déficit da previdência, em 2006, o que representou aproximadamente, 67%, do total do déficit apurado pela previdência social nesse ano no Brasil.

Se o caráter é assistencialista ou social seria necessário que as fontes desses recursos fossem arcadas pelo tesouro, ou por verba prevista em orçamento, tendo fonte de custeio própria, no entanto este procedimento aumenta os gastos públicos e gera custo fiscal.

Como forma alternativa sugere-se que a própria atividade do setor primário deva ser responsável pela geração desses fundos por meio da tributação dos seus lucros ou ganhos, sem onerar a produção.

No que diz respeito à contribuição do rurícola sugere-se ainda que para que ocorra equilíbrio no sistema seria importante a participação deste como contribuinte, ainda que em percentuais inferiores ao dos demais setores da economia, levando-se em conta o nível de renda desses trabalhadores.

Quanto à categoria do funcionalismo público, devem-se fazer as seguintes considerações:

1. De natureza técnica:

Não é possível absorver pelo regime geral da previdência social categorias com condições especiais de aposentadoria, que tem como direito adquirido por exemplo, direito a aposentadoria com manutenção integral dos proventos recebidos na ativa, sem que o Estado ou o beneficiário (aposentado) tenha contribuído suficientemente para a formação dos fundos necessários para geração desses benefícios. Porém deve-se observar a existência de direitos adquiridos por essa categoria de contribuintes que devem ser respeitadas.

2 .De natureza política:

A inclusão de 900.000 funcionários públicos, no governo Collor, na ânsia de uma solução política a problemática da previdência do funcionalismo público, fez com que houvesse ônus ao sistema e que vem causando parte do seu desequilíbrio, tornando ainda mais premente a necessidade de se reformular a participação do

funcionalismo público no Regime Geral, de modo a equalizar as fontes de financiamento e o déficit gerado por esta categoria.

Com relação à influência do movimento demográfico e da expectativa de vida da população, pode-se afirmar que realmente é o maior desafio a ser enfrentado pelos gestores dos sistemas de previdência.

No regime de capitalização simples, o fundamento é a contribuição do participante da economia ativa para manutenção das pensões dos indivíduos que estejam aptos ao recebimento dos benefícios. Com esta premissa seria essencial um crescimento vegetativo positivo.

Desta forma, a redução do crescimento vegetativo e a ampliação da expectativa de vida já identificado no capítulo terceiro, deste trabalho, afetam diretamente os sistemas brasileiro e chileno; o primeiro, por apresentar tendência definitiva de redução, inviabilizando o sistema de capitalização simples praticado no Brasil; e o segundo por aumentar a necessidade de caixa, nos dois sistemas, para os pagamentos das pensões por um período mais longo.

Ressalte-se ainda a questão da aposentadoria dos militares, que apresenta uma legislação específica, não estando dentro do regime geral. Não há como viabilizar um regime de previdência que permita a concessão de aposentadorias, passando de pais para filhos, de forma ininterrupta, à custa do Estado. Até entende-se o referido benefício, em um momento de guerra, no qual a possibilidade de perda do provedor é grande. A cobertura de benefícios dessa natureza, entretanto, deve estar limitada aos períodos de conflitos militares ou de guerra, mas ainda são questionáveis, quando avaliadas, considerando a estrutura da sociedade atual onde a mulher participa cada vez mais ativamente do mercado de trabalho, reduzindo significativamente sua dependência de um provedor, seja na figura do pai ou do marido. Nos demais casos, entende-se que em decorrência de haver a

contribuição por parte do militar a um fundo, referido benefício deva ser calculado sobre a forma de pecúlio e pago somente ao participante ou a seu beneficiário, de uma única vez.

De um modo geral, pode-se afirmar com relação ao sistema de previdência social brasileiro, que há necessidade de reformas que equalizem os problemas de diferentes naturezas, como:

do equilíbrio Social;

da sustentabilidade financeira e equilíbrio de entradas e saídas de caixa; do ajuste às tendências e curvas demográficas traçadas pelos censos; do ajuste às expectativas de vida atuais e projetadas;

da uniformização de todos os regimes de previdência públicos; do teto para todas as categorias;

dos incentivos à permanência em atividade;

da redução do ônus da folha de pagamento, para incentivar a empregabilidade formal.

Especialistas envolvidos nas questões da Previdência Social têm sugerido que o governo deva inspirar-se no modelo Chileno para reformar a nossa previdência, passando a ter os recursos administrados por fundos de capitalização.

O aspecto positivo dessa sugestão é a de que os recursos arrecadados nesse sistema fomentam o mercado de capitais, uma vez que, esses fundos representam hoje, 50%, do PIB do Chile.

Com relação ao desajuste do fluxo de caixa, deve ser observado que os benefícios do sistema atual brasileiro superam o total de contribuições capitalizadas durante a vida contributiva do participante, devendo ser discutido se

é papel do Estado garantir uma aposentadoria mínima ao indivíduo que não teve oportunidade em sua vida produtiva de gerar condições para sua aposentadoria.

Já quanto a adoção do sistema de capitalização privado é necessário observar que, as taxas praticadas pelos administradores de previdência no Brasil, chegam a absorver 50% do rendimento anual das carteiras, corroendo uma grande fração das contribuições dos trabalhadores. Por isso, antes da aplicação ou aceite desse sistema deve haver um esclarecimento geral dos participantes sobre o seu funcionamento e uma fiscalização mais intensiva dos órgãos públicos sobre esses fundos.

Deve haver sempre um comprometimento do Estado em relação à garantia mínima das condições de sobrevivência do indivíduo. Cabendo ainda ao Estado, a complementação dos pagamentos das pensões quando não alcançado o fluxo de caixa necessário à manutenção das aposentadorias, como e feito no sistema chileno atual.

Com relação ao modelo chileno observa-se que um dos aspectos positivos no momento da implantação do novo sistema em 1980 foi a redução das contribuições por parte do trabalhador que eram da ordem de 28% e após a reforma, quem optou para o novo sistema, passou a contribuir com 10%, o que gerou um ganho real de salário da ordem de 18% para o trabalhador. Fator preponderante para influenciar a decisão na mudança de plano. Outro aspecto estimulador da mudança foi à falta de qualidade no atendimento da previdência estatal, existente anteriormente.

Com a implantação desse modelo, o Estado, reestruturou o seu sistema, reduziu o custo de participação, reduziu a sangria dos recursos do sistema e ampliou a capacidade de consumo do indivíduo, por meio da redução das taxas de contribuição, permitindo assim aos participantes um ganho real de salários, a

redução dos custos administrativos e o custo da máquina pública, em decorrência da gestão profissional dos fundos.

Na questão do custo de administração dos fundos privados considerados inicialmente, elevados pelos participantes, identificou-se um ajuste de valor pelo processo competitivo e chegando a patamares aceitáveis na economia de mercado. No entanto, ainda existe pouca concorrência entre os participantes.

A mudança provocou também a geração de poupança e o incremento da economia por meio da utilização dos recursos investidos em títulos públicos e no mercado de capitais.

A ampliação da expectativa de vida e a necessidade de geração de um montante maior de recursos, forçam o gestor dos fundos, no caso as AFPs no Chile, a buscarem taxas de retorno sobre o investimento superiores aos que os títulos de primeira linha permitem, tornando a carteira mais arriscada.

Outro aspecto que afeta os sistemas do Brasil e do Chile é a economia informal que por ter a contribuição com caráter facultativo (é uma decisão do contribuinte participar ou não do sistema de previdência) tem recebido pouca participação.

No Brasil, com um sistema carente de recursos e com problemas estruturais sérios gera a necessidade de ampliar as fontes de custeio tendo como conseqüência à tributação dos salários ou dos rendimentos do aposentado que continua ativo, mas não traz nenhum benefício ao participante, como possibilitar o aumento do valor de sua aposentadoria ou ampliar os seus benefícios, sendo um ônus a sua renda. Já no sistema chileno, como o regime é de capitalização, não há que se falar em contribuição após a aposentadoria.

No aspecto relacionado à inibição da geração de empregos, verificou-se que o sistema de tributação do INSS poderia ser modificado, visando a tributar o faturamento, lucro ou ganhos das empresas e não a folha de pagamento, permitindo, assim, a não inibição da criação de novos empregos.

Como alternativa de implantação dessa opção deve-se levar em conta que a receita oriunda das contribuições sobre essas fontes, em momentos de baixo crescimento do PIB, como os verificados atualmente. Quando o PIB do país cresce na ordem de 2% a 4% a.a., não gera um aumento no volume de recursos suficientes para diminuição dos déficits apresentados, apesar de que este movimento seria o menos prejudicial para o Estado e o que propiciaria uma sustentação do sistema.

Benzer Belgeler