Figura 4.2 Linha do tempo ilustrativo dos principais acontecimentos relativos à temática das Mudanças Climáticas, com foco nas ações do ICV ao longo do período de 1999 – 2009 (fonte: relatórios anuais ICV e entrevista MICOL, 2011)
COP 10/ Buenos Aires (Argentina) COP 8/ Nova Delhi
(India) COP 9/ Milão Itália COP 6 BIS/Bonn (Alemanha) COP 7/ Marraquexe (Marrocos) 1999 2000 2001 2002 2003 2004 COP 6/Haia (Países Baixos) COP 5/Bonn (Alemanha) Trabalhos com Fogo – parceria Amigos da Terra Parceria WWF e CIRAD: foco em conservação florestal Programa Carbono Florestal foco: redução do desmatamento COP 11/ Montreal (Canadá) COP 13/ Bali (Indonésia) COP 14/ Poznan (Polónia) COP 12/ Nairóbi (Kenya) COP 15/ Copenhague (Dinamarca) 2005 2006 2007 2008 2009 Trabalhos com desmatamento foco: consolidação institucional
Pauta climática entra pesadamente na organização foco: desmatamento evitado e
PSA
Crescimento contínuo da org.
Escala Internacional: participação na
Conforme já apresentado no Capítulo 2 desta dissertação, o Instituto Centro de Vida é uma organização que passou por um período de reestruturação após quase 15 anos de sua fundação. Mudanças no foco do trabalho, no objetivo principal da organização e nas estratégias de atuação.
Logo após este período de transição (final de 2005, começo de 2006), a organização começou a se envolver com trabalhos relacionados à pauta climática através do ‘Programa Carbono Florestal’ da Fundação David & Lucile Packard, que tinha como objetivo a redução do desmatamento.
Um novo momento também, mas com essa influencia, de um ator global que vem com proposta de trabalhar no assunto de carbono, inicialmente com preocupação de reduzir o desmatamento (MICOL, 2011).
Segundo o Coordenador Executivo da organização, a pauta climática chega como uma oportunidade que influencia a organização a trabalhar na temática de mudanças climáticas baseado na conveniência de seguir trabalhado com a redução do desmatamento na Amazônia.
De repente chega esta agenda das mudanças climáticas e todo mundo começa a falar que a destruição da Amazônia tá contribuindo para emissão de gases de efeito estufa, que é um dos primeiros fatores que podem ser reduzidos. Para nós é uma oportunidade, antes de ser uma preocupação pelas mudanças climáticas é uma oportunidade. Dessa forma que chega, a gente começa a ter nosso trabalho com desmatamento financiado com recursos vinculados à agenda de mudanças climática. (MICOL, 2011). Alguns serão os atributos institucionais que possibilitam a atuação do ICV em projetos de mudanças climáticas: i. o fato do Mato Grosso ser o estado que tem os maiores índices de desmatamento neste período; ii. o anterior envolvimento da organização com trabalhos voltados para redução do desmatamento e iii. a capacidade desenvolvida pela organização de ‘atuação local, a experiência com fogo, com protocolos municipais e o diálogo já estabelecidos com diversos atores’ (MICOL, 2011).
Até meados de 2007 a organização continuou trabalhando mais fortemente com a temática do desmatamento. Com foco bastante centrado no fortalecimento e consolidação institucional, a organização continua a crescer e gradualmente a ampliar seu escopo de atuação, envolvendo-se em projetos vinculados às mudanças climáticas.
Inicialmente, o trabalho em mudanças climáticas entra na agenda da organização dentro do Programa de Políticas Públicas e Gestão Socioambiental, que trabalhava “em três temas inter-relacionados: Política e gestão florestal, Mudanças climáticas e Desenvolvimento territorial" (ICV, 2007)
Mas foi no começo de 2008 que ‘esta discussão de mudanças climáticas entrou em cheio no ICV, pelo viés do desmatamento evitado’ (MICOL, 2011). É possível ver, através da análise comparativa de contagem das palavras ‘políticas públicas’, ‘manejo florestal’ e ‘mudanças climáticas’ (incluindo a palavra carbono), contidas nos relatórios anuais da organização, que vai ser no biênio 2008/2009 que as palavras mudanças climáticas e carbono vão aparecer o mesmo número de vezes que as demais (ver Gráfico 4.2).
Nesse período, a organização publica seu primeiro material com foco em REDD, intitulado “Reduções das Emissões do Desmatamento e da Degradação Florestal: potencial de aplicação no Estado de Mato Grosso”. Dá-se início às atividades de medição e monitoramento de biomassa florestal, “com a perspectiva de apoiar ações e projetos de REDD e seqüestro de carbono, bem como de contribuir com produção científica própria e em parceria” (ICV, 2009). Outros projetos também na área de clima são desenvolvidos, ampliando o escopo do trabalho em busca de contribuir com ações voltadas à política estadual de mudanças climáticas, a um possível programa de REDD no Mato Grosso, à construção de projeto-piloto de REDD no Norte do Estado, desenvolvimento de instrumentos econômicos como Pagamento por Serviços Ambientais, entre outros.
Gráfico 4.2 Número de vezes que as palavras ‘políticas pública’ (PP), ‘manejo florestal’ (MF), ‘mudanças climáticas’ (MC) e carbono aparecem nos relatórios anuais do ICV.
A organização também optou por ampliar sua escala de atuação, também ampliando o leque de articulação com outras organizações, mantendo os espaços de diálogo nos níveis municipais, estaduais e federais e ampliando para o trabalho na escala internacional. Como uma de ‘suas realizações mais consideráveis do período de 2008/2009’ (ICV, 2009) a
organização participou da COP 15 em Copenhagen, contribuindo através da apresentação de resultados de estudos e trabalhos voltados a particularidades do Estado do Mato Grosso dentro da questão climática.
A ampliação do escopo e o envolvimento com estes trabalhos exigiram da organização uma ‘maior capacidade de trabalho analítico’. A organização acabou incorporando na equipe novos ‘analistas de carbono, com um nível de especificidade e de expertise mais avançada’ (MICOL, 2011), consolidando-se graças à disponibilidade de financiamentos relacionados às mudanças climáticas.
O crescimento que aconteceu no ICV, que passou de poucas pessoas para cerca de 30 agora, é muito ligado à disponibilidade de recursos vinculados às mudanças climáticas, inegavelmente... eu não sei dizer o quanto isso (o crescimento da organização) é devido à incorporação da agenda das mudanças climáticas, mas acontece junto (MICOL, 2011)
Ainda que os tipos de financiadores não tenham variado muito ao longo dos anos (ver Tabela 2, capítulo 2), “a maior parte dos nossos financiamentos agora tem um vínculo com esta agenda de mudanças climáticas” (MICOL, 2011). Financiamentos que já estavam em andamento, como por exemplo, recursos oriundos da Comissão Européia, que anteriormente não tinha vínculo com a temática de mudanças climáticas, agora têm continuidade na organização e estão voltados para o mercado de carbono.
Isso tudo acabou gerando um deslocamento de eixo temático de trabalho, em que, por exemplo, a atuação voltada à conservação da biodiversidade acabou perdendo espaço e equipe, assim como a elaboração de planos de manejo para Unidades de Conservação, com dimensão voltada à biodiversidade.
O foco em biodiversidade é uma das formas da gente poder medir os impactos do desmatamento, poder justificar a necessidade da contenção do desmatamento. A partir do momento em que o tema das mudanças climáticas vem com mais força como forma de justificar a conservação das florestas, a gente passa a dar mais enfoque realmente neste aspecto (MICOL, 2011)
Mas tudo isso tendo sido feito de forma consciente da mudança do contexto global no qual o trabalho de conservação da floresta Amazônica está inserido.
Acho que tem a ver sim com esta mudança de enfoque global. De forma geral, tem um olhar hoje muito mais forte na questão de mudanças climáticas que em biodiversidade, apesar de ser ainda uma preocupação e ainda continuar havendo trabalhos, mas em termos de prioridade de recursos, de atenção, investimento, a agenda de mudanças climáticas ficou maior (MICOL, 2011)
4.2.3 O IMAZON – INSTITUTO DO HOMEM E MEIO AMBIENTE DA