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14. FEN EĞĠTĠMĠ, BĠLĠMSEL SÜREÇ BECERĠLERĠ VE KAVRAM

14.5. KAVRAM EĞĠTĠMĠ ĠLE ĠLGĠLĠ YURTDIġINDA

Nas constituições mais recentes, o ambientalismo passou a ter elevada importância, e nelas foi introduzido “deliberadamente como direito fundamental da pessoa humana, não como simples aspecto da atribuição de órgãos ou de entidades públicas, como ocorria em Constituições mais antigas”526.

A Alemanha se tornou, em 21 de junho de 2002, a primeira nação da União Europeia a garantir, em sua Lei Fundamental, direitos para os animais527. Após uma longa discussão no

parlamento alemão, 542 deputados votaram a favor da inclusão da proteção estatal dos aos animais na Constituição Alemã. O parágrafo 20 da Lei Fundamental passou a ter três palavras a mais e o seguinte teor: “O Estado protege os fundamentos naturais da vida e os animais”.

O direito dos animais ganhou uma posição importante no sistema jurídico alemão, visto que esta norma passa a ser uma obrigação estatal de desenvolver políticas de proteção aos

526SILVA, José Afonso. Direito Ambiental Constitucional. 4 ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 43.

527Artigo 20 a “[Proteção dos recursos naturais vitais e dos animais] Tendo em conta também a sua responsabilidade frente às gerações futuras, o Estado protege os recursos naturais vitais e os animais, dentro do âmbito da ordem constitucional, através da legislação e de acordo com a lei e o direito, por meio dos poderes executivo e judiciário”.

183 animais. Assim, a Constituição alemã pode ser vista como um modelo para outras constituições em todo o mundo.

A Suíça protege constitucionalmente os animais desde 1893, ao proibir, em sua constituição, o abate de animais sem anestésico. No artigo 80º da Constituição deste Estado, é conferido ao Parlamento o dever de fazer uma legislação de proteção animal e se estabelece no artigo 120º, nº 2, a “dignidade das criaturas”, conferindo um valor inerente a todos os seres vivos não-humanos.

Art. 120º Engenharia genética no âmbito não-humano. 1 O homem e seu ambiente são protegidos dos abusos da engenharia genética. 2 A Confederação prescreve disposições sobre a manipulação com material embrionário e genético de animais, plantas e outros organismos.

Para isto, leva em conta a dignidade da criatura, assim como a segurança do homem, dos animais e do meio-ambiente e protege a variedade genética das espécies de animais e vegetais.

A Áustria também trouxe uma norma de proteção em sua Constituição. Estabeleceu no artigo 11, §1º da sua Constituição que deve o Estado austríaco se empenhar na elaboração de normas de proteção aos animais. Nesse sentido, em 2004, foi aprovada a nova lei de Proteção Animal (Austrian animal Welfare law) que cria padrões para a proteção animal no país.

Em 1988, a Áustria já avia aprovado a Lei federal sobre o estatuto jurídico do animal no direito civil. Desde então, o Código Civil austríaco, asseverou que os animais não são coisas528. Esta afirmação teve implicações práticas, já que alterou o regime jurídico da

obrigação de indemnizar, relativa às despesas de tratamento do animal ferido529.

Agora o dono do animal pode ser reembolsado por todas as despesas do tratamento veterinário, mesmo que sejam em valor superior ao valor patrimonial do animal. Observa-se que a indenização não se limita ao valor do animal, como simples objeto, mas sim ao valor

528 § 285 a: “Os animais não são coisas; estes são protegidos mediante leis especiais. As normas relativas às coisas são aplicáveis aos animais, na medida em que não existam disposições divergentes.”

529 o § 1332a ABGB. “No caso de um animal ser ferido, são reembolsáveis as despesas efetivas com o seu tratamento mesmo que excedam o valor do animal, na medida em que um dono de animal razoável, colocado na situação do lesado, também tivesse realizado essas despesas.”

184 razoável do tratamento para a recuperação de sua saúde e bem estar, o que possibilitou melhores cuidados veterinários aos animais feridos.

Assim, nota-se que os códigos civis da Alemanha, Suíça e Áustria, foram alterados e passaram a prever expressamente que os animais não são coisas. Embora não tenham dito que são sujeitos de direito, em que pese a dicotomia girar entre sujeito e objeto, há uma terceira via a sustentar que, se os animais não são coisas, também não são sujeitos, são sui generis/tertium genus530.

A leitura do texto constitucional equatoriano não deixa dúvida quanto à sua filiação ao ecocentrismo. Em nenhuma passagem assenta que indivíduos não-humanos são sujeitos de direito. Tão somente a natureza é titular de direitos. O que se busca proteger são seus ciclos vitais, estrutura, função e processos evolutivos.531

Ressalte-se que a atenção está voltada para a natureza, enquanto complexo ecológico da manutenção da vida coletiva do planeta, assim apesar da evolução do reconhecimento da natureza como sujeito de direito, isso não quer dizer que os animais também foram. Mas, reconhecer que a natureza é titular de direitos beneficia todos os seres vivos, logo os animais, pois a manutenção do equilíbrio ecológico e a preservação dos seus habitats é fundamental para sua sobrevivência.

Em 2008, a Constituição do Equador532 reconheceu a natureza como sujeito de direitos.

O art. 10 da Constituição equatoriana afirma que: “La naturaleza será sujeto de aquellos derechos que le reconozca la Constitución.” Mais adiante, a prescrição vem do art. 71: “La naturaleza o Pacha Mama, donde se reproduce y realiza la vida, tiene derecho a que se respete integralmente su existencia y el mantenimiento y rege-neración de sus ciclos vitales, estructura, funciones y procesos evolutivos.”

530 OLIVEIRA, Fábio Corrêa Souza de. Direitos da natureza e direito dos animais: um enquadramento.

Revista do Instituto do Direito Brasileiro, Lisboa, Ano 2 (2013), n. 10, p. 11325 – 11370.

531 OLIVEIRA, Fábio Corrêa Souza de. Direitos da natureza e direito dos animais: um enquadramento, p. 11339.

185 Em 2010, na Bolívia533, no mesmo sentido da Lei Constitucional do Equador, foi

publicada a Ley de Derechos de la Ma-dre Tierra. A constituição define o seu art. 3º: “La Madre Tierra es el sistema viviente dinámico conformado por la comunidad indivisible de todos los sistemas de vida y los seres vivos, interrelacionados, interdependientes y complementarios, que comparten un des-tino común.” Entre os direitos listados da Mãe Terra: direito à vida, à diversidade da vida, ao equilíbrio, à restauração.

Para a sociedade é mais fácil aceitar, por exemplo, que a Floresta Amazônica tem direito ao seu ciclo natural, ao seu bioma, do que aceitar que os animais têm direito a vida e a liberdade. Com menor resistência se depara a assertiva de que não se deve derrubar mais árvores de pau-brasil do que a assertiva de que não se deve continuar a matar animais para alimentação, salvo estado de necessidade. Sem dúvida, a pauta dos direitos da natureza é menos exótica, menos conflituosa com a cultura humana tradicional, seus interesses, do que os direitos dos animais534.

Neste ano de 2015, a França, após um ano de debates na Assembleia Nacional, passou a ter uma lei que reconhece os animais como seres sencientes. O projeto de lei foi idealizado pela ONG Fondation 30 Milion Amis. O texto altera o status jurídico dos animais no país, atualizando a legislação penal vigente e reconhecendo os animais como seres sencientes, novo artigo 515-14 do Código Civil: “Les animaux sont des êtres vivants doués de sensibilité. Sous réserve des lois qui les protègent, les animaux sont soumis au régime des biens corporels.” e não como propriedade pessoal como o antigo artigo (artigo 528). Assim, os animais não são mais definidos por valor de mercado ou de patrimônio, mas sim pelo seu valor intrínseco como sujeito de direito.

O Código rural francês também protege os animais, no artigo L.214-1 que dispõe: “tout animal étant un être sensible doit être placé par son propriétaire dans des conditions compatibles

avec les impératifs biologiques de son espèce”.

O Código Penal francês criminaliza os maus tratos contra animais, com 2 anos de prisão ou

533 OLIVEIRA, Fábio Corrêa Souza de. Direitos da natureza e direito dos animais: um enquadramento, p. 11331.

534 OLIVEIRA, Fábio Corrêa Souza de. Direitos da natureza e direito dos animais: um enquadramento, p. 11364.

186 multa de 30.000 mil euros, artigo 521-1: “d’exercer des sévices graves, ou de nature sexuelle, ou de commettre un acte de cruauté envers un animal domestique, ou apprivoisé, ou tenu en captivité”.

A vitória abre importante precedente para a vida dos animais no território francês, que incorporou o termo filosófico senciência à suas leis jurícas. Vale lembrar que senciência é a capacidade de sentir, atribuição dada pelos especialistas há muito tempo aos animais. O parlamento francês finalmente percebeu algo que muitas pessoas já sabiam: os animais são capazes de vivenciar seus próprios sentimentos, a diferença agora é que este direito é reconhecido de forma legal no código civil do país.

Em 11 de março de 2013, a União Europeia, através da Diretiva 2003/15/CE, colocou fim a realização de testes em animais para todos os produtos cosméticos comercializados na União Europeia. A Diretiva foi considerada um avanço por banir a experimentação animal, mesmo que restrita ao setor de cosméticos. Em 2010 já havia proibido qualquer tipo de experiência nos primatas. No entanto, na prática, já havia 8 anos que os grandes primatas não eram utilizados pelo grande repercussão da opinião pública sobre o tema.

No dia 15 de maio de 2015 foi a vez da Nova Zelândia. A partir deste dia os animais passaram a ser reconhecidos como seres sencientes, como foi longamente debatido nesse trabalho, o país concordou com os inúmeros dados científicos que afirmam que os animais possuem sentimentos. A lei também proíbe a realização de testes cosméticos em animais.

Como se observa, a todo momento são publicadas leis em defesa dos animais, mesmo que o movimento seja tímido, não se pode negar que em todo mundo normas protetoras dos animais vêm ganhando espaço tanto jurídico, quanto social. A sociedade está consciente da necessidade de mudança, no entanto, o sistema jurídico brasileiro ainda está relutante em reconhecer os animais como seres sencientes e como sujeitos de direito.

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4.4. O MODELO ECONÔMICO ATUAL: UMA BARREIRA A SER ROMPIDA EM