• Sonuç bulunamadı

A identificação dos ícones, como vimos, está diretamente ligada ao conhecimento que os leitores dispõem no momento da leitura. Em relação aos dados da pesquisa, é notória a fragilidade das operações cognitivas realizadas durante a interação dos usuários leigos na interface. A falta de referências para compor estruturas cognitivas faz com que esses sujeitos construam e reconstruam suas hipóteses a todo momento. A quantidade de informações processadas na memória de curto prazo, muitas vezes, ultrapassa os limites humanos (MILLER, 1956, citado por PREECE et. al., 2005 e

LIBERATO E FULGÊNCIO, 2001) e faz com que operações recentes não consigam ser

replicadas em outras ações. Esse problema pode estar relacionado ao que Liberato e Fulgêncio (2001) chamam de “ciclo vicioso”. Segundo as autoras, a falta de referências para o processamento lexical, por si só, não constitui um problema que impede definitivamente o leitor de construir sentidos para o texto porque ele deverá recorrer também a previsões e inferências. Mas essas operações só serão realizadas com sucesso, ou seja, o leitor só conseguirá pistas relevantes para chegar ao significado, se conseguir construir hipóteses adequadas. O “ciclo vicioso” acontece quando o leitor não dispõe de um conhecimento mínimo sobre o material textual com o qual precisa lidar:

se não captamos o sentido (porque não podemos compreender o significado dos itens léxicos) ficamos presos à informação visual; mas se o material visual não nos auxilia na construção do sentido (porque o vocabulário não é transparente) não podemos resolver o nosso problema na leitura e voltamos à estaca zero. Sem a compreensão do vocabulário, ou pelo menos de um número significativo de palavras que permita a elaboração do significado (mesmo que delineado em linhas gerais), todo o processo de leitura se desmantela. (LIBERATO;FULGÊNCIO, 2001, p. 56)

Uma das hipóteses da nossa pesquisa era a de que a dificuldade de processamento de certas unidades do meio digital é potencializada também pela falta de referências em práticas letradas anteriores (como a ação de desfazer). A partir da leitura dos ícones, acreditamos que essa hipótese pôde ser comprovada, já que muitas das ações não foram concluídas simplesmente porque os usuários não sabiam o que procurar. A carência de conhecimentos dos usuários leigos impediu a composição e a complementação dos espaços mentais ativados na rede de integração conceptual construída on-line em cada situação de interação.

Foi o caso de Vanessa, quando precisava colorir o “plano de fundo” do slide ou colorir o preenchimento das caixas de texto. A estudante não sabia identificar o slide como “fundo” e desconhecia a possibilidade de atribuir a ele uma cor. Da mesma forma,

quando Vanessa escolheu um modelo de WordArt com sombra para escrever “9999- 9999” e passou o mouse por vários ícones na tela sem saber o que procurava já que não possuía o frame “sombra”. Nem mesmo a clareza do ícone ( ) ou a sua legenda “Estilo da sombra” pôde ajudar a estudante a identificar esse recurso. Tanto o recurso quanto o ícone eram desconhecidos (não familiares), e esses fatores dificultaram o reconhecimento dessas unidades.

Outra questão importante é a limitação do vocabulário dos leitores, que está intimamente ligada à falta de conhecimentos necessários para compor e complementar o processo de referenciação. Em diversas situações, os sujeitos não conseguiram identificar os ícones porque não sabiam o nome daquilo que estavam procurando.

Vanessa, por exemplo, foi influenciada pela pesquisadora quando procurava um ícone que lhe permitisse inserir contornos no texto. Como a pesquisadora sugeriu que a estudante procurasse um ícone que alterasse a cor da “borda”, ela ficou confusa, porque o ícone, na verdade, se chama Cor da linha, e ela não relacionou os dois nomes. A mesma dificuldade foi encontrada por Vanessa para identificar Plano e fundo e

AutoFormas. Da mesma forma, Luciana não conseguia encontrar a Caixa de texto

porque não conhecia o nome dessa ferramenta, e só a encontrou depois que a pesquisadora citou esse nome.

A questão do vocabulário também influi bastante na identificação de alguns menus porque o nome deles está ligado a contextos muito particulares, como o da produção gráfica ou do cinema. Se o usuário não conhece esses contextos, não consegue reconstruir as projeções realizadas pelos autores para nomear os menus.

Vanessa manifestou verbalmente a sua dúvida a respeito do nome “formatar”. Ela tinha uma informação que não correspondia à função daquele menu, naquele contexto, que era a de que a ação de formatar estava ligada ao apagamento dos dados de um disquete. Tentando buscar outras relações com a ajuda da informação visual (a palavra formatar), Vanessa chegou a citar alguns sentidos mais próximos, como “desenho”, “forma” e “estilo”, mas não suficientes para que ela construísse uma idéia mais ampla do sentido da palavra naquele contexto.

A expressão “formatar”, que dá nome a um menu do Power Point, tem, segundo o Houaiss, datação muito recente (1964) e todas as acepções sob a rubrica da informática. Tem sentido de organizar os dados em um dispositivo de memória, como o

disquete. Sua etimologia vem de “forma, tamanho e constituição, como de um material impresso, sua paginação”. Está muito ligado a questões do universo do impresso, restrito aos profissionais da área.

A palavra “arquivo”, que nomeia o primeiro menu de ambos os programas, segundo o dicionário Houaiss, tem acepções que remetem à organização de documentos e conjuntos de documentos. Por metonímia, pode significar também o recinto onde se guardam esses documentos. Sobre a rubrica da informática, significa

conjunto de dados digitalizados que pode ser gravado em um dispositivo de armazenamento e tratado como ente único [Arquivos podem trazer representações de documentos, figuras estáticas ou em movimentos, sons e quaisquer outros elementos capazes de serem digitalizados (http://houaiss.uol.com.br)

O nome “editar” também foi emprestado do contexto da impressão, das gráficas. Outro sentido que pode ter favorecido a escolha desse nome para o agrupamento de funções que organiza vem da rubrica do cinema, da radiofonia e das telecomunicações. Mesmo que os comandos presentes nesse menu possam estar relacionados a esse contexto (recortar, copiar, colar, localizar, etc.), muito dificilmente o sentido dado para o nome do menu seria entendido pelos usuários que não compartilham dessas informações.

O acesso a esses três menus aconteceu, na grande maioria das situações, de forma arbitrária e sem nenhum critério de seleção. Quando desconheciam as ações de

Copiar, Colar e Desfazer (contidas no menu Editar), os sujeitos percorriam com o

mouse todos os menus, do início ao fim. A única exceção foi quando Gustavo acessou esse menu tentando localizar uma ferramenta para aumentar a espessura do pincel. Mesmo assim, sua estratégia foi construída a partir de uma hipótese equivocada, porque o menu Editar não possui opções para alterar propriedades dos textos e das imagens. Essas opções geralmente se concentram no menu Formatar.

Outros menus, como Exibir e Inserir (do Power Point), Cores e Imagem (do Paint) trazem sentidos mais facilmente compartilhados pelos usuários leigos. As opções contidas nesses menus foram mais facilmente localizadas, apesar de algumas exceções. Vanessa acionou sem problemas o menu Inserir quando desejava incluir uma caixa de texto no documento. Rose clicou sem hesitar no menu Imagem, localizando a opção

Inverter/girar, mas depois recorreu a esse mesmo menu tentando encontrar alguma

procurava a ferramenta para Desfazer. Quando tentava encontrar a barra de ferramentas que altera as propriedades do texto, Rose foi direto ao menu Exibir e localizou a opção

Barra de ferramentas. Luciana tentou o menu Exibir para inserir uma Caixa de texto,

sem sucesso.

Parece que a identificação dos nomes desses menus é realizada com sucesso quando os leitores conseguem construir roteiros (scripts) bem-definidos no espaço da tarefa. A qualidade da definição desses roteiros depende também de outros conhecimentos, como o nome e a função da ferramenta que estão procurando. Vanessa provavelmente acessou sem problemas o menu Inserir porque construiu um script parecido com “preciso inserir um texto”. Rose acessou corretamente o menu Imagem porque tinha consciência de que estava manipulando uma imagem, e não teve o mesmo sucesso quando procurava uma ferramenta para inserir textos e desfazer ações porque a estrutura de navegação do programa não correspondia às expectativas construídas pela estudante. Rose também, provavelmente, projetou para o espaço da mescla o sentido da palavra “exibir” e o script que construiu para “exibir uma barra de ferramentas”. Luciana, ao contrário, construiu um script inadequado para incluir uma caixa de texto: em vez de “inserir caixa de texto”, ela construiu “exibir caixa de texto”.

No Power Point, outra opção também ofereceu dificuldades para os usuários. O menu AutoFormas contém modelos de formas predefinidas que podem ser “desenhadas” nos slides, mas possui um nome pouco sugestivo e não foi identificado por Vanessa. A estudante, inclusive, verbalizou espanto quando a pesquisadora lhe informou que nessa opção encontraria o desenho da estrela. Luciana encontrou a ferramenta a partir de um gesto arbitrário, praticamente acidental, depois de tentar localizar a estrela no menu Desenhar, localizado ao lado do AutoFormas.

Reveladora foi a forma como Rose processou o sentido do menu Ajuda. Quando a pesquisadora sugeriu que a estudante poderia encontrar funções também pelos menus, a opção Ajuda foi a primeira a ser acionada. Por duas vezes, Rose tentou “pedir ajuda”, clicando nesse menu. A estudante, por desconhecer os mecanismos de ajuda presentes nos programas de computador, projetou no espaço da mescla elementos dos frames que conseguiu ativar nos espaços input, muito provavelmente ligados à sua experiência com a expressão “ajuda” fora do ambiente digital.

Para concluir, acreditamos que o reconhecimento das unidades só será realizado com sucesso se o leitor puder elencar conhecimentos que lhe permitam construir mapeamentos a partir de referências a práticas exclusivas do ambiente digital. Esquemas sobre outras práticas podem não ajudar, como no exemplo acima, quando a falta de referências de Rose a respeito dos sistemas de ajuda no computador direcionaram sua atenção para uma área do texto que não atenderia às suas necessidades naquele momento. A adequação do ícone à sua função deve acompanhar sempre o critério de proximidade com a escala humana de compreensão, ou seja: as referências devem ser próximas daquilo que os usuários conseguem identificar e relacionar.

Benzer Belgeler