A "Reforma Bancária", promovida pelo Governo Militar em 1964, provocou uma mudança no perfil dos bancos brasileiros. Até então, as instituições nacionais eram de pequeno porte e atuavam, a sua maioria, num alcance apenas regional e de forma segmentada para um público específico (BESSI; GRISCI, 2004). Esse processo de expansão geográfica e mercadológica associado à crescente concentração do capital financeiro aumentou a concorrência entre as instituições que foram em busca de conquistar novos clientes e a principal estratégia utilizada para isso foi através da expansão da sua rede de atendimento ao público:
Assim, os bancos se estabelecem perto dos consumidores potenciais, onde as negociações ocorrem localmente para captar seus recursos para investimentos e oferecer, em contrapartida, crédito para seus empréstimos (CAMOCARDI, 2013, p.13).
Paralelamente, o incremento da industrialização no cenário nacional exigiu também mudanças na atividade bancária, conforme salienta Frischtak (1992). Desde meados da década de 1960, cada agência agregou múltiplos serviços que não se relacionavam com as atividades bancárias tradicionais, transformando-se em um local de pagamento de contas diversas, fazendo uma intermediação entre o público em geral e o governo ou as empresas de utilidade pública:
Se, inicialmente, a sua função básica estava ligada à guarda de grandes valores e ao financiamento de vultosas operações comerciais, industriais ou fundiárias, no transcurso do período, concomitantemente à formação do parque industrial brasileiro e à crescente urbanização e especialização dos serviços, ela alargará o seu alcance, em primeira instância, voltando suas atenções para um ampliado segmento da população, a classe média, para, em seguida, transformar-se em “lojas de prestação de serviços”, respondendo pela cobrança de tributos, pagamento de salários do funcionalismo público e de grandes empresas, como também em agente financiador do consumo de bens que a indústria nacional passou a produzir (automóveis, eletrodomésticos, etc.) (SAMPAIO NETO, 2012, p.79-80).
Para atender então às novas demandas, os bancos efetuaram mudanças no processo de trabalho: “sendo introduzidas a mecanização, a padronização, a normatização e a rotinização dos procedimentos bancários, compondo o cenário propício para o início de mudanças tecnológicas e organizacionais mais profundas.” (BESSI; GRISCI, 2004, p.10).
Do mesmo modo, segundo Mazzacoratti (2000, apud SAMPAIO NETO, 2012), para atender as mudanças no processo de trabalho bancário, o leiaute das agências bancárias passou a se organizar numa lógica semelhante à linha de montagem de uma indústria. Isso resultou em modificações em todos os setores que compõem o seu programa de necessidades, reconfigurando as áreas de atendimento ao público e de trabalho interno e até as áreas de apoio, equipamentos e suporte passaram a ter uma maior importância:
[...] um novo público, não-correntista, passou a exigir uma maior área de atendimento, e o grande volume de pagamentos recebidos, o desdobramento do setor de expediente, originando a área de “serviços especiais”; com a mecanização dos serviços e a desburocratização de uma série de operações, área do expediente, anteriormente isolada, passou a atuar como retaguarda dos caixas, auxiliando-os nos serviços. (SAMPAIO NETO, 2012, p.80).
Figura 1.37 - agência BNB - Imperatriz-MA.
Fonte: arquivo histórico digital do BNB.
Registro do início dos anos 1980 mostrando a especialização do atendimento aos clientes e a presença ainda do balcão.
Projeto: Paulo Cardoso da Silva, 1977.
Houve, portanto, uma expansão da área de atendimento dentro das agências, o que aumentou a demanda por espaço interno nos edifícios. Ao mesmo
tempo, com o avanço da clientela e a especialização do trabalho bancário (figura 1.37), verificou-se a necessidade de uma maior separação entre as áreas de atendimento e retaguarda e, deste modo, o balcão, elemento usual dos leiautes das agências, gradualmente desapareceu dos projetos.
Com a ampliação dos produtos e serviços ofertados e do potencial de público a ser atendido, dentro de um cenário de expansão das instituições bancárias, “as agências passam a assumir um papel de destaque no conglomerado financeiro ao qual se encontram vinculadas” (JINKINGS apud USTÁRROZ, 2008, p.20).Desse modo, a partir do final dos anos 1960, os projetos dos edifícios destinados às agências adquiriram então uma importância estratégica para as instituições bancárias, por serem o local que possibilitava a prestação dos serviços e o relacionamento com a clientela crescente:
Assim, novas formulações arquitetônicas passaram a ser requeridas nos projetos das agências, por um lado, para melhor responderem aos reelaborados programas de necessidade e, por outro, numa ação de marketing, para firmarem uma imagem de solidez e modernidade das instituições junto às comunidades às quais se propõem a servir (SAMPAIO NETO, 2012, p.80).
Essa imagem de solidez e modernidade foi expressa, conforme já foi explicitado, pela adoção de projetos dentro das premissas da arquitetura moderna que vinha sendo gradativamente adotada pelos edifícios bancários desde a década de 1940, mas se tornou plenamente aceita nos anos 1960, após a inauguração de Brasília (STRÖHER, 1999).
A significativa produção arquitetônica do período interpretado como “modernismo persistente” consolidou, portanto, o modelo fordista de agência bancária, tanto em termos de organização do leiaute interno, como do próprio trabalho bancário, caracterizado agora pela mecanização e assumindo a crescente importância da função de atendimento ao público. Nesse período, a abertura de novas agências foi a principal ação para conquista de novos clientes e, desse modo, a arquitetura assumiu uma importância mercadológica fundamental para os bancos.
É importante ressaltar que os bancos públicos também tiveram um processo similar de crescimento, inclusive os bancos estaduais. No caso específico do Ceará, por exemplo, o banco público do estado, o Banco do Estado do Ceará (BEC), que havia sido criado em 1964, também construiu importantes edifícios nesse período, como a nova sede, o chamado "BEC dos Peixinhos" de autoria do
arquiteto José Neudson Braga, importante marco da arquitetura moderna em Fortaleza (figuras 1.38 e 1.39).
Figura 1.38 – Perspectiva do projeto original
para sede do BEC, Fortaleza-CE. Figura 1.39 - Edifício-sede do BEC, Fortaleza-CE.
Fonte: acervo do autor do projeto Projeto: José Neudson Braga, 1968.
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Fonte: https://caminhosarquitetura. wixsite.com/neudsonbraga/obras-bec.
Projeto: José Neudson Braga, 1968.
O BNB, como instituição financeira federal, também estava inserido nesse cenário político e econômico e, como outros bancos, teve uma grande expansão de sua rede de atendimento, com a construção de novas sedes estaduais e o significativo aumento do número de agências, dentro da sua área de atuação. Este conjunto de edificações constitui o objeto de estudo desta pesquisa e, conforme ocorreu com outras instituições financeiras do período, a arquitetura moderna foi a linguagem projetual e construtiva utilizada nestes exemplares.
A construção do conjunto de edificações do BNB aconteceu, portanto, dentro desta fase do “modernismo persistente”, que coincide quase integralmente com o recorte temporal da pesquisa, de 1968 a 1986. Essa correspondência
evidencia não somente que o BNB foi influenciado pelo contexto nacional, quando iniciou o seu processo de expansão, como também o foi ao final do mesmo, com o agravamento da crise econômica da década de 1980 e o lançamento do Plano Cruzado.
Para sintetizar e validar a reflexão histórico-crítica, segue um gráfico mostrando as três fases da periodização proposta para a arquitetura moderna bancária no Brasil, situando alguns marcos na linha do tempo:
Gráfico 1.1 - linha do tempo da modernidade relacionada à arquitetura bancária no Brasil.
Fonte: elaborado pelo autor.
A periodização supracitada permite situar no tempo e, também no espaço, as manifestações e a evolução da tipologia bancária, assim como relacionar às dimensões sociais (econômicas, políticas e simbólicas). Ademais, é possível inferir com base neste panorama, especificidades na relação entre as instituições financeiras (públicas ou privadas) e a produção, uso e apropriação da arquitetura em função da sua inserção histórica e geográfica.
Em um contexto regional, particularmente no Nordeste do Brasil, a relação e a forma como aconteceu o processo de expansão do BNB e a constituição do seu acervo moderno, assim como as razões das autorias dos projetos serem majoritariamente originadas no Ceará, independentemente dos lugares onde os edifícios foram construídos, serão analisadas no próximo capítulo.
2. O DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE E A ARQUITETURA MODERNA