• Sonuç bulunamadı

Não é minha intenção me enveredar por um caminho de aprofundamento teórico tentando explicar os fundamentos da homossexualidade, pois não se trata do mote deste trabalho. Entretanto, com a permissão do professor, tenho que trazer esta característica de Metamórfus para tentar compreender até que ponto a sexualidade está inserida no fazer docente, principalmente do que diz respeito à expressão desta sexualidade.

Metamórfus é um professor visivelmente delicado em seus gestos, sua voz e sua expressão corporal. Considero que estas características não estão necessariamente ligadas à homossexualidade, entretanto, existe um imaginário social, construído culturalmente, em que estas características estão diretamente ligadas à homossexualidade.

Pois bem, Metamórfus têm traços femininos e revela-se homossexual, entretanto, nem todo homossexual carrega traços femininos. Estou insistindo na expressão da homossexualidade de Metamórfus, baseado na idéia de público e ator. O público reconhece no ator seus traços. O ator acredita que o público os reconhecem, mas não sabe exatamente que traços são visíveis. Para o homossexual, os traços visíveis são os da sexualidade.

Neste sentido, diz Metamórfus que “A questão da homossexualidade me atordoou… pois eu achava que, de que maneira eu poderia ser alguém, se eu tenho estas características, se eu tenho esta opção”. Aqui já aparece um construto social importante, pois a homossexualidade, ainda é encarada socialmente como um desvio de conduta e como incompetência. Outro fator é: como ser professor e homossexual?

“Até tu começares a te dar conta que isto é uma coisa tua, que tu podes ser uma grande profissional…” O que Metamórfus pretende dizer é que o imaginário social não está apenas fora do ator, ele já foi introjetado. Desta forma, o ser homossexual é entendido como pervertido, incompetente para a docência e que, se assim o são, quais os valores passariam para seus alunos? Além disto, existe um outro fator importante: qual o olhar que seus alunos, que também estão imersos na cultura da exclusão para a homossexualidade, na cultura de que existe apenas uma sexualidade pura, honesta, branca e normal, teriam sobre ele? E como os pais destes alunos o tratariam? E como as escolas o receberia?

Há, então, duas forças importantes que estão constantemente em luta por um posicionamento. A primeira é uma força externa, (re) construtora desta identidade e capaz de facilitar a introjeção de valores através da cultura. A segunda é como esta introjeção e as identificações realizadas estão internalizadas. Como esta (re) construção identitária está manifesta através das muitas formas de expressão. Importante salientar que a auto-imagem e auto-estima estão diretamente ligadas à forma como este sujeito vê e é visto pelo todo social.

Metamórfus se entende por homossexual desde seus quatorze anos. Uma homossexualidade que não foi assumida diante do pai, mas que se sabe não deixa de ser identificada. Esta sexualidade foi, por assim dizer, um entrave em muitas relações que Metamórfus mantém durante sua vida e revela que “minha forma autoritária era uma forma de me impor diante da minha homossexualidade”.

Ser autoritário, além de ser uma identificação com a forma do pai, como disse anteriormente, é uma maneira de tentar impor respeito para aqueles que, como o pai, poderiam pisar em sua auto-estima. Outro fator é que Metamórfus tem a crença de que um homossexual não é respeitado; então, este respeito deveria passar pelo autoritarismo.

Mesmo assim, há um fracasso enorme nesta tentativa, já que o ato agressivo com os alunos acaba causando uma contra-posição, em que o aluno se defende e acaba por revoltar-se, devolvendo a agressividade, poder e contra-poder.

Neste sentido, como a sexualidade de Metamórfus é visível, e esta característica, de alguma forma, impõem-se como discriminada, os alunos usam seu poder criando mecanismos de instigação através de apelidos, histórias, desenhos, caricaturas e brincadeiras depreciativas.

“Me passava a coisa vexatória. O vexame. Chamar-me de bicha, de isso ou de aquilo. A gente tem esta característica. Tá, e aí, como é que eu vou ser professor? Naquela época eu não tinha esta visão…”

Hoje, Metamórfus assume sua sexualidade, já não tenta mais esconder-se atrás de uma máscara autoritária e colhe os frutos de uma utilização mais afetiva positiva com seus alunos. “Agora acho que não tem tantos apelidos. Acho que apelido sempre tem, mas existe um respeito. Isto ocorre até entre adultos… a gente pode brincar… os alunos brincam, também comigo, mas tu sentes a diferença de um apelido para outro”.

A mudança de entendimento não é externa, pois não acredito que a sociedade tenha mudado tanto assim em relação à homossexualidade. A visão comportamental e cultural de Metamórfus é que se (re) construiu. Ele identifica maneiras de se relacionar e acredita que sua sexualidade não é mais um condicionante impeditivo de sua docência. Ao contrário, poderá ser um contributo para uma atuação mais livre, afetiva, expressiva e rica, dependendo da forma

como os laços de respeito, que pelo visto começam inicialmente pelo respeito próprio e pela descoberta de suas possibilidades e potencialidades.

“Hoje, quando eles me chamam de costelinha, é acompanhado de um abraço… com um beijo… eu não penso mais na minha sexualidade… raramente”. Hoje, Metamórfus não se vê como um homossexual que é professor. Ele é um ser humano, que exerce uma profissão docente e que tem uma sexualidade. Já não permite que a homossexualidade esteja à frente, mas sabe que ela está ali presente, fazendo parte de seus filtros identitários, ele é um todo complexo e que pode e deve ser respeitado por isto.

Benzer Belgeler