Nos dois discursos, de mãe social e filha, a figura paterna é apresentada como um personagem que não assume a sua função. No discurso da mãe social, o pai é apresentado assim:
Eu nasci em Manaus, no dia 17 de fevereiro, no carnaval. Na época que estava todo mundo festejando, 4 horas da tarde. E assim, minha infância foi feliz. Feliz assim, pai e mãe juntos. Mas a gente tinha muita dificuldade, basta dizer que meu pai é, basta dizer que é um alcoólatra, é uma pessoa assim que bebe todo final de semana é um alcoólatra. Minha mãe era mãe e pai pra todos os efeitos, acho que por isso eu me identifico muito aqui, porque mãe e pai pra todos os efeitos. Aí nós crescemos Então, minha mãe começou, porque meu pai não tinha condições de dar uma vida,
não digo digna, mas o sustento da família, aí minha mãe foi ser lavadeira.Isso, com
o dinheiro da venda é que era sustentada a família, porque mau pai não trabalhava, não arranjava mais emprego de jeito nenhum. O dinheiro que ele recebia era pra ele mesmo tomar os gorozinhos dele. Então eu acho que foi feliz porque o papai e a mamãe nunca se deixaram, a gente tinha de exemplo. (...) Acho que isso ela nunca perdoou ele. Aí depois que nós crescemos, ela deixou de mão. Assim, eu decidi que eu nunca ia me casar, porque eu tô vendo a minha mãe. Aí esta minha mesma
cunhada disse: tu não queres ter filhos, tu não queres casar, então vai criar filho dos outros, ela dizia pra mim. (...) Ele chegava à noite, bêbado e jogava água na gente, e queria café e a gente tinha que fazer e tudo tinha que ser na hora pra ele.
Aí eu fui tomando raiva, não, não quero mais isso pra mim. (Milena)
No seu discurso, Milena apresenta um pai que não tem condições de “dar uma vida”, não consegue dar o sustento ou subsistência dos filhos ou ainda a sua sobrevivência. O lugar de pai que implica em reconhecer e satisfazer as necessidades dos filhos foi ocupado, inicialmente, pela mãe e mais tarde pelos irmãos e também por ela, os quais assumem através do seu trabalho o cuidado com a família.
O pai é apresentado como portador de duas doenças: o alcoolismo e a inércia, totalmente absolvidos pela mãe e, mais tarde, por Milena ao assumir o lugar da mãe e mantê- lo nesse mesmo lugar, até a sua morte. Ficam evidentes, no discurso, as repetições sobre o alcoolismo e sobre a sua incapacidade, como se encontrasse na repetição uma justificativa para a negligência, assim como para a sua permanência nesse lugar, ocupado anteriormente pela mãe. O pai, castrado pela doença, é substituído por uma mãe forte, com potência para fazer o seu papel, potência transferida por identificação à filha, tornando-as, simbolicamente, mulheres fálicas, temerárias, capazes de ocupar o lugar do homem (Fennichel, 2000).
A justificativa para a mudança de papel é dada num dos trechos do seu discurso, onde a palavra meu é substituída por mau, revelando sua percepção sobre a figura paterna. Ele foi um mau pai, que praticava maus-tratos, de ordem física e objetiva, chegando próximo à violência, e de ordem subjetiva, por sua omissão frente às necessidades dos filhos.
Porém, apesar dessa apresentação negativa da figura paterna, o do seu papel fálico na relação, o vínculo edípico é reconhecido, na medida em que, apesar da fala de mágoa e frustração em relação a ele, assume o lugar da figura materna, provendo e cuidando dele.
A aliança e fidelidade a ele apontam para um vínculo tão massivo e adoecido que deixa, como legado, o distanciamento da sua sexualidade e afetividade. Escolhe não apenas não casar, escolhe não se relacionar afetivamente com ninguém, o que é justificado numa fala racionalizada, por não querer repetir a história da mãe. Apesar da coerência da justificativa, a escolha por uma vida solitária permitiu que se dedicasse totalmente aos cuidados do pai, até o momento de sua entrada na instituição.
Sua entrada na organização é marcada por dois eventos: a decisão de não investir num relacionamento afetivo e a decisão por deixar o pai aos cuidados de outras pessoas. Sua resolução implica em abandonar um tipo de cuidado e assumir outro, porém, a sua relação cuidadora do pai se perpetuou até a sua morte.
Para Agnes, a trajetória persegue outro caminho, mas com uma mesma finalização.
Porque minha mãe não tinha condições de me criar e meu pai batia muito nela. Encontro com eles de vez em quando. Eu tive um tempo aí com minha mãe, só que eu não gosto dela não. Ela não sabe ser mãe, ela quer ser o que não pode. Ela acha que tudo o que ela foi, o que ela é ainda é, quer que eu seja também. Ela diz: ah, eu sou burra e tu és também. Olha a sacanagem (sorri), eu estudo pra caramba e ela ainda vem me chamar de burra. Aí ela fala tanta coisa, chama cada palavrão. Tudo o que a mamãe me ensinou, ela diz que ela não é minha mãe. Como não é minha mãe? Se foi ela que me criou. Pra mim mãe é quem cria. Eu amo muito ela, eu agradeço muito a ela, minha mãe verdadeira, ter me colocado aqui. (Agnes)
O trecho do discurso acima é a única menção que Agnes faz em relação à figura paterna. Assim como acontece com os pais de Milena, os seus não se separam, mas não oferecem condições dos filhos cresceram na sua companhia. O casal se basta, mas não aos filhos. Para Milena, o único motivo de felicidade está no fato de os pais permanecerem juntos, apontando para um valor familiar, o da perpetuação dos vínculos.
A lacuna dolorosa criada por um pai negligente na história de Milena é a lacuna negada da história de Agnes. Ela não fala demoradamente sobre o pai, como faz Milena, ela, simplesmente o localiza na origem do seu abandono, fonte de sua angústia narcísica.
Para Eiguer (1998), esse é um fenômeno previsível nas transmissões, pois a reprodução de conflitos e de repetições de histórias se dá a partir da não resolução do ascendente. Ao reaparecer no herdeiro, acontece de maneira automática, impulsiva e intensificada. Assim, a vivência de falta de parentalidade da figura paterna de Milena é reproduzida como a exclusão consciente que Agnes faz do pai biológico, o que não significa que tenha excluído o conflito inconsciente ligado à figura paterna.
Na história de Milena, supomos uma aliança invisível que, de acordo com Ribeiro e Bareicha (2008), é uma aliança de manutenção e perpetuação da família. Na medida em que um de seus membros não assume o seu papel, outro assumirá o seu lugar para que a família seja preservada. Apesar de não perceber justiça nessa lealdade, pois nem todos são leais, é ela quem assume a parentificação em relação às irmãs e depois, em relação ao pai, mesmo percebendo-se imatura e não preparada, é ela quem assume o lugar de cuidadora. Assumir uma nova família, não a afasta da missão de perpetuação da sua família de origem.
Para Agnes, a lacuna é resolvida pela aliança com a nova família. O que será perpetuado não é mais a sua família de origem e, sim, o vínculo que lhe supre a carência. Essa é a sua noção de justiça parental, que se organiza a partir do abandono.
Eu era muito chorona, eu chorava demais. Era muito difícil eu me apegar com uma pessoa. Mas fui logo com ela assim. A mãe que a gente estava morando, ela não cuidava de mim. Eu ainda mamava, na mamadeira, e ela não comprava. E quando
eu fui morar com a mamãe, ela foi toda amorosa, de mãe sabe? Ela sim, ela sim é mãe. Acho que sem ela... Sei lá. Eu amo muito ela. […] E eu era muito chegada na mamãe também, tudo o que eu sabia eu falava pra ela, aí meus irmãos ficavam mordidos. A Adélia principalmente, porque eu sabia cada podre dela e eu falava mesmo. A mamãe perguntava e eu não ia mentir pra mamãe. Mas toda vez minha irmã diz: ah, mas ela não gosta de ti, ela quer que você vá embora. Aí eu tinha vontade de me matar, sabe. Várias vezes quando eu era pequena eu tentava me matar. Eu quero fazer uma faculdade e ser advogada. E, morar com a mamãe, fora da aldeia, o quanto antes. E ter minha casa própria. Levar minha irmã Aída pra morar comigo. Ela conhece a mãe dela, mas só que a mãe dela não está nem aí pra ela. Ela liga assim, pros filhos, o Anderson e Adson que ela criou, mas pra ela, ela não liga. Porque ela teve a Aída e deu a Aída. Pra mim ela ainda é um bebê. Pra mim ela ainda é um bebê, tem 12 anos. Eu acho que gosto mais da dela do que da
Adélia. Eu nunca me dei bem com a Adélia assim. (Agnes)
Os vínculos parentais são redefinidos a partir das identificações e da parentalidade construída e não mais pela consanguinidade. A aliança é com a mãe social, mesmo custando a inimizade dos irmãos sociais, a ponto de assumir com ela a parentificação, será ela quem assumirá o lugar de cuidadora da mãe social. Há a percepção de que os pais biológicos não conseguiram serem pais, psiquicamente falando e, diante disso, não há desejo de investimento afetivo. Essa é a sua noção pessoal de justiça familiar.
Há uma postura de avaliação das formas de vinculação tanto em relação às suas mães, a biológica e a social, quanto entre os irmãos biológicos e os irmãos sociais. A necessidade de estabelecer comparações nos evidencia umas dúvidas sobre essas lealdades. Mesmo que opte, no discurso, pelos vínculos sociais, o vínculo consanguíneo continua lhe pressionando para que assuma também alianças de perpetuação.
O próximo ponto de transmissão percebido nas histórias de Milena e Agnes, a percepção da sexualidade puberal.