• Sonuç bulunamadı

Bourdieu Noktasında Simgesel (Sembolik) Şiddet

A representação sobre a morte está presente nos discursos das participantes de maneiras bastante distintas, isso porque, segundo Kovács (1992), cada indivíduo traz dentro de si uma morte, ou a sua própria representação da morte, atribuindo a esta, personificações, qualidades e formas. Essa construção, que é individual, está associada ao momento de vida em que se encontram, a sua história pregressa, aos mecanismos envolvidos nessa formulação que resulta em posições distintas sobre a morte e aos temores implicados nessa representação. A mãe social traz, no seu discurso, uma vivência temerosa a respeito da morte, do morto e dos rituais fúnebres, que a acompanharam e transformaram-se durante toda a sua vida, com maior ou menor intensidade. No relato do momento atual, o temor da morte se liga aos filhos sociais e à possibilidade de perda do seu amor.

É eu já melhorei assim, depois que minha mãe faleceu, eu melhorei assim, mas eu tenho medo, eu não gosto de velório, eu vou, mas eu não olho. Quando eu estudava, eu lembro que quando eu era criança, eu passava pela porta do cemitério correndo, nem olhava. Eu sou muito medrosa. Um medo que vem assim, não sei de onde, um medo de não dar conta, de não conseguir no final do ano não dá bom resultado. E se eu não tiver o retorno que eu espero eu fico abalada, e eu sou assim, eu tenho medo que os meninos não cheguem lá em determinado tempo, que eles saem daqui e não vou, eu tenho medo até de eles saírem daqui, e é tipo uma superproteção demais, que às vezes eu acho que até sufoco. De mandar pro bairro deles e chegar lá e acontecer alguma coisa, um exemplo eu te dou, eu tenho a família de um grupo de cinco que mora em Petrópolis, aí aconteceu aquela chacina que aconteceu lá em Petrópolis, aqueles rapazes, pronto, já trago pra mim assim: não, não vai mais. Tudo pode acontecer, porque lá tem muita coisa pra oferecer, muita coisa ruim. O bairro lá é muito ruim mesmo. Lá onde a mãe dele mora é boca de fumo. Aí eu penso o que vai ser desses meninos se eles forem pra lá? E assim, eu fico com aquela coisa. Aí Tereza diz assim: tenho que mandar mãe, pra passar o final de semana, eu digo: ah não! Pelo amor de Deus. (Mara)

Na sua explanação, localiza o medo no cemitério e no velório num tempo remoto, na sua infância, medo que a acompanha até o momento da morte da mãe, quando o medo se modifica e é transferido para o insucesso e para a ideia da morte real ou simbólica dos filhos sociais.

O sentimento de culpa pela morte da mãe, como citado anteriormente, remete a uma má elaboração desse luto (Kovács, 1992), evidente na presença de objetos introjetados

persecutórios e numa experiência marcada pelo medo da perda, que contagia a filha social que se identifica com as fantasias mortíferas transmitidas pela mãe social.

Contaminada pela ideia de morte, Mara a estende para outros aspectos da vida, como a sua atuação profissional, por exemplo. O medo de não dar conta, não obter o resultado esperado, traduz o temor pela morte da sua identidade profissional, do reconhecimento e da possibilidade de obter prazer nesse campo.

A morte da mãe deixa como legado, ainda, o temor pela perda de outros objetos de amor, como os filhos sociais. As fantasias de não retornarem para casa, da violência que podem sofrer ao visitar a mãe biológica denunciam os sentimentos ambivalentes em relação a eles. A princípio, sofre com a ideia da perda, numa posição masoquista, causando uma dor antecipada por uma morte que não aconteceu, por outro lado, fantasiar a morte dos filhos pode ser uma maneira de matá-los afetivamente, ou se abster da construção de vínculos.

As fantasias de morte se ligam ao momento do encontro dos filhos sociais com a mãe biológica, simbolizando, em primeiro lugar, a competição pelo amor dos filhos e o medo de que transfiram para ela o amor que lhe é devido. Por outro ângulo, a fantasia de morte dos filhos, no bairro onde mora a mãe biológica, pode funcionar como uma forma de punição pela traição e abandono anunciado pela reintegração à família de origem.

Com a decisão de contrariar a posição da instituição em preservar o vínculo com a família biológica, Mara busca se proteger do abandono, ao mesmo tempo em que provoca outro tipo de morte, a privação dos filhos de vínculo que ela não consegue oferecer, por conta do pacto denegativo. Os filhos sociais são duplamente privados do afeto materno, assim como ela mesma.

Os aspectos mórbidos da personalidade da mãe social estão presentes, também, na filha social, que os demonstra a partir do temor por figuras terroríficas.

Quero fazer três faculdades: de jornalismo, direito e eu tava torcendo pra veterinária, só que eu deixei assim de lado. Eu vou começar ganhar, não ganhar assim... Mas vou começar a procurar uma coisa assim pra fazer. De manhã eu trabalho, de tarde eu estudo, só pra mim ter minha própria casa, que eu não quero depender de ninguém. Nem de meus próprios irmãos. Como eu falo assim pra eles também: quando eu crescer eu vou ter minha própria casa e eu não quero vocês dependendo de mim. (…) É difícil ficar longe assim. Por exemplo, as minhas duas irmãs estão lá em casa, porque esses dias não tiveram aula, aí eu fico lá em casa. Aí como durmo eu e a minhas duas irmãs, aí eu to dormindo sozinha. Aí eu sinto falta

delas. Que elas dormem comigo no mesmo quarto.É, porque eu tenho medo (risos).

Medo de dormir sozinha sei lá. Ainda mais que, sei lá, antes de dormir eu penso nas coisas que podem acontecer assim. Não muito assim, eu fico pensando assim: se o diabo viesse me pegar agora? O que eu faria? Tipo, aí fico imaginando. Aí eu sozinha dentro do quarto. (Alice)

Esse trecho é iniciado com a exposição das expectativas para o futuro, com uma carreira dividida entre três interesses distintos e a necessidade de independência financeira e emocional. Na sua projeção, seu futuro é de autonomia e realização profissional, o que se contrapõe à situação atual, na qual sente falta das irmãs, principalmente na hora de dormir, quando lhe ocorrem fantasias de morte e perseguição.

Segundo Kovács (1992), as fantasias persecutórias têm a ver com sentimentos de culpa e remorso, além de pavores de aniquilamento, desintegração e dissolução. As fantasias seriam revivências de temores mais primitivos e igualmente intensos, como o terror da castração, a perda do amor e do objeto, com o predomínio da pulsão de morte.

Se na primeira parte do discurso, Alice nega os irmãos, eles são resgatados como fundamentais na segunda parte, como se, somente a sua presença fosse capaz de conter o temor e as fantasias persecutórias.

A adolescente compartilha com a mãe social os temores e as fantasias de morte, porém, com o acréscimo da negação explícita da relação com os irmãos. Se para a mãe social, a rejeição manteve-se parcialmente inconsciente, para Alice, é consciente e imediatamente revertida pela necessidade de proteção contra as fantasias de destruição. Se, para a mãe a resolução é o distanciamento e a privação afetiva, para a adolescente, é a reaproximação e preservação dos vínculos familiares.

Apesar do conteúdo compartilhado, o que prevalece é a aliança com a família biológica, uma espécie de lealdade que reflete uma identificação mais remota e genuína com a família de origem em que, mesmo diante de uma contaminação com a morbidez da mãe social, a referência ainda é a primeira família.