4.2. Araştırmanın Bulgu ve Yorumları
4.2.4. Cinsiyet Rol ve Tutumların Evliliğe Bakış Açısına Yönelik Bulgular ve
As mães sociais, apesar de condenarem em seus discursos a violência sofrida na infância, reproduzem na sua relação com alguns filhos sociais, aquilo que Ramos e Oliveira (2008) chamam de ciclo da violência, no qual indivíduos tratados de modo agressivo ao longo de suas vidas tendem a utilizar os mesmos métodos com seus filhos. As manifestações violentas não se expressam exatamente como aconteceram na sua vida pregressa, se na infância, as mães sofreram maus-tratos físicos, a reprodução acontece, na maior parte das vezes, por meio da violência psicológica e da negligência. Essas manifestações são defendidas nas experiências de enfrentamento de filhos sociais percebidos como violentos e perigosos, como uma prática educativa e tática de preparo para a vida fora da instituição.
Nessa justificativa, a atribuição de responsabilidade pelos maus-tratos cometidos é dirigida à criança e ao adolescente, como uma maneira de explicar e minimizar a violência. Nos relatos das mães que referiram adotar práticas educativas baseadas na violência física, os filhos sociais são descritos como detentores de uma natureza agressiva, desobediente e perigosa, o que os coloca no lugar de agressores e elas, as vítimas.
O que se percebe é uma dificuldade de romper com os padrões construídos nas suas famílias de origem, justificada pela compreensão de que agressão recebida quando criança ajudou na constituição do caráter, como se expressa no discurso abaixo.
Mas minha mãe não, minha mãe já era mais explosiva. Ela batia, ela batia mesmo. Não tenho o que reclamar também, porque as peias que ela deu, serviu. É muito danada, porque eu era muito... Eu judiava de meus irmãos. É porque eu era a mais velha, eu queria que eles me respeitassem. Até a mais velha, eu queria comandar.
(Maiara)
Ramos e Oliveira (2008) entendem que a procura de benefícios que justifiquem a agressão funciona como uma validação da educação que receberam, uma espécie de alívio, satisfação ou reconhecimento das boas intenções e do amor dos pais ou responsáveis que o educaram.
Também a partir da compreensão da transmissão da violência, Ribeiro e Bareicha (2008) propõem três conceitos que explicam essas identificações. O primeiro deles é o conceito de lealdade invisível que traduz a inclusão da noção de justiça e da equidade dentro da família e da cultura, permitindo que as repetições sejam justificadas pelo restabelecimento da ética. As lealdades funcionariam como elementos de ligação nos relacionamentos familiares e sociais.
O segundo conceito é de justiça familial que condena, no meio familiar, as manifestações de má fé, injustiça, exploração entre os membros, o abandono, a vingança e, até mesmo, a doença e infortúnio. Por outro lado, os autores compreendem que a percepção do afeto, cuidado e atenção faz com que a injustiça seja minimizada e até mesmo, perdoada. A situação pode ser comparada a um balanço, pelo qual se a avaliam os créditos e os débitos, representados pelas dívidas, obrigações, méritos. Esse acerto de contas se realiza no espaço intergeracional e traz consigo a necessidade de decisão de cada indivíduo, sobre os seus rumos, em outras palavras, caberá ao indivíduo a decisão de carregar consigo, esquecer, vingar ou cobrar as injustiças sofridas. No trecho do discurso de uma filha social, a noção de justiça familial é assim descrita:
Não, bater ela não bate não, mas o que ela fala... Ofende essas coisas, que fica
assim... Que já gostava da nossa mãe quando ficava lá...Não, nossa mãe assim, ela
batia assim na gente, mas quando era depois ela tava lá com a gente, pedia desculpas, ela abraçava a gente. Eu disse: olha a nossa mãe pode ser o que for, mas ela nunca falou assim da gente. (Ana)
Nesse caso, no ajuste de contas que Ana faz sobre a relação com a mãe biológica e a mãe social, a mãe biológica é perdoada pelas agressões físicas que praticava, pois há a percepção do seu arrependimento e do seu afeto, confirmando com ela a aliança que perpetuará o vínculo e a noção de família. A mãe social, por sua vez, pratica contra ela a violência psicológica, mas não manifesta arrependimento ou afeto positivo, mantendo a
relação com um saldo negativo e fazendo com que a aliança não se fortaleça, ao contrário, fortalecendo a aliança da sua outra relação familiar.
No discurso, manifesta-se também uma espécie de triangulação que envolve as duas mães e a adolescente. A mãe social, num dos vértices do triângulo, perde a sua força por essa avaliação negativa provocando um distanciamento da filha e um fortalecimento da relação desta com a mãe biológica.
O terceiro conceito é o de parentificação, processo que, de acordo com Ribeiro e Bareicha (2008), se caracteriza pela inversão de dependências, passando os filhos a cuidar dos pais, por meio de complexo e invisível sistema de méritos e dívidas. Contabilizando tudo o que recebeu de cuidados, carinho, cumplicidade, o filho sente-se comprometido com a retribuição, uma forma de pagamento de dívida com os pais, o que, muitas vezes distorce as relações familiares.
Esse tipo de vínculo é percebido nos discursos, principalmente naqueles escolhidos e preservados pelos participantes, devido ao peso emocional que carregam. A escolha da figura parental para que haja a constituição do fenômeno da parentificação passa, também, pelo processo de identificação e pode ser expresso por meio da violência. Tomamos como exemplo o relato de Maiara que, agredida pela mãe na infância, assume o lugar de agressora dela, na vida adulta.
Para Kopittke (2005), a violência, na sua manifestação grupal, aponta para um predomínio do processo primário, com descargas pulsionais que acontecem por implosão e explosão em alguns de seus membros, caracterizando relações que carecem de sentido. Nesses casos, de acordo com a autora, as representações simbólicas das leis e da cultura são insuficientes para frear os atos dirigidos a agredir os corpos e as mentes dos indivíduos.
Apesar da instituição de abrigamento buscar o cumprimento das leis que regulamentam sua existência, essas são insuficientes e ineficazes diante da subjetividade dos indivíduos que assumem o lugar de cuidadores e das crianças e adolescentes abrigados. A experiência violenta anterior, vivida ou presenciada, é traduzida para o cotidiano das relações atuais, onde os limites entre o eu e o outro são desconhecidos e as diferenças intoleradas, evidenciando uma patologia vincular.
A experiência de violência se repete, pois não foi dotada de significação, principalmente a que se refere à internalização de normas e regras, tornando necessária a sua repetição e busca de sentido. Os afetos não se ligam à imagem da situação violenta e dolorosa, não criando repúdio ou evitação, ao contrário, se ligam a atos que traduzam a angústia vivida.
De acordo com Eiguer (apud Kopittke, 2005), a transmissão de traumas ou de segredos vergonhosos como crimes, incesto, suicídio e violência, pode gerar patologias relacionadas à insuficiência de superego. Para ele, os segredos e traumas podem se tornar representações fantasmas, inscrevendo-se em gerações futuras ou atuais, sem, no entanto chegar a ser representado conscientemente pelo pensamento ou palavra.
A violência manifesta nos discursos dos participantes é contada a partir do lugar de vítima e nunca daquele que a comete. A consciência seletiva não permite que se verbalize ou assuma a reedição da violência vivida, introjetada e usada como um padrão de conduta junto aos novos vínculos, grupos ou organizações familiares. Além disso, a violência é sempre identificada no outro, seja ele o filho social, os pares ou a própria instituição, como se houvesse uma cristalização do papel de vítima e uma negação da transposição desse lugar. A dificuldade em proceder à autocrítica dá evidências da internalização superegoica deficiente e da necessidade de manutenção dos vínculos vividos.