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O Brasil vivenciou nos meses de abril e maio de 2012 um intenso debate político, jurídico e ideológico sobre as cotas raciais e o mérito constitucional do ProUni. Foi julgada no Supremo Tribunal Federal (STF) a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) impetrada pelo Partido dos Democratas (DEM) contra o sistema de reserva de vagas na Universidade de Brasília (UnB). O Ministro relator do processo, Ricardo Lewandowski, rejeitou o pedido, e o STF por unanimidade considerou constitucional o sistema de cotas raciais para o ingresso de alunos afrodescendentes em universidades públicas. Para o Ministro, as políticas de ação afirmativa adotadas pela UnB estabelecem um ambiente acadêmico plural e diversificado, e têm o objetivo de superar distorções sociais historicamente consolidadas.7

No mesmo período foi julgada a ADI 3330, apresentada pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenem). O Ministro do STF, Joaquim Barbosa rejeitou o pedido, e o STF por ampla maioria considerou constitucional. O Ministro sustentou que o ProUni é coerente com diversos dispositivos constitucionais que preveem a redução das desigualdades sociais. Ao financiar a bolsa total, para alunos de famílias com renda de até 1,5 salário mínimo, e parcial, para aqueles egressos de famílias com renda de até 3 salários mínimos, o ProUni representa um importante fator de inserção social, disse o Ministro.8

As políticas de ações afirmativas são mecanismos de que o Estado dispõe para repor e atenuar as desigualdades que marcam a sociedade brasileira no que se refere a oportunidades de acesso à Educação Superior de uma grande parcela da juventude, em especial, a juventude negra.

Analisar juridicamente políticas públicas de inclusão imediata, contrárias ao conservadorismo histórico vivido em nosso país, é quebrar paradigmas e reconhecer minorias em sentido qualitativo como participantes ativas do processo democrático nacional. (AGOSTINHO; FILHO, 2011, pp. 456)

Segundo o Dicionário de Relações Étnicas e Raciais, de Ellis Cashmore, o verbete

ação afirmativa é definido como a política (medida ou programa) que visa ir além da tentativa de garantir igualdade de oportunidades individuais ao tornar crime a discriminação, e tem

7 Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=206042&caixaBusca =N>. Acesso em: 10 ago. 2012.

como beneficiários os membros de grupos que enfrentam preconceitos (CASHMORE, 2000, p. 31 apud BRANDÃO, 2005, p. 27).

O debate sobre as cotas raciais surge relacionado às minorias étnicas raciais nos EUA na década de 70, como forma de compensar as desigualdades e reparar historicamente o preconceito racial estabelecido naquele país ao longo de décadas.

Segundo Gary Orfield, da Universidade de Harvard (EUA), as políticas de ação afirmativa se inserem no quadro das políticas concebidas nas décadas de 1960 e 1970, que “buscavam resultados concretos para melhorar as condições de vida das minorias”, não visando apenas à igualdade individual. (BRANDÃO, 2005, p. 06) No Brasil, as políticas afirmativas se apresentam com mais destaque a partir de 1999, com a discussão no Senado Federal do Projeto de Lei nº 298/99, que previa a destinação de 50% do total de vagas nas universidades públicas para estudantes que cursaram todo o ensino fundamental e médio em escolas públicas, conforme Brandão (2005, p. 55). Como objetivos dessas medidas, temos a necessidade de incluir na Educação Superior grupos historicamente excluídos, como os afrodescendentes e os jovens de baixa renda. Como parte deste processo, surge o debate em relação às cotas raciais no país. Em vários momentos, ao longo dessa discussão, surgiram polêmicas em torno das cotas raciais e cotas sociais no Brasil, considerando a primeira uma reparação racial e a segunda uma reparação de segmentos excluídos socialmente.

As ações afirmativas podem ser definidas como um conjunto de políticas públicas e privadas de caráter compulsório, facultativo ou voluntário, concebidas com vistas ao combate à discriminação racial, de gênero e de origem nacional, bem como para corrigir os efeitos presentes da discriminação praticada no passado, tendo por objetivo a concretização do ideal de efetiva igualdade de acesso a bens fundamentais como a educação e o emprego. (GOMES, 2001, p. 40)

No Brasil, conforme dados do IBGE (2012), 50,7% da população se declarou negros e pardos em 2010. A juventude de baixa renda se constitui como um contingente considerável desse universo e não há como negar que ainda existe uma forte discriminação racial em nosso país. Além disso, o tema das políticas afirmativas está relacionado, principalmente, à necessidade de ampliação do acesso à Educação Superior aos segmentos da população, em especial, à juventude negra, até então, distantes dessa realidade.

Além do ideal de concretização da igualdade de oportunidades, figuraria entre os objetivos almejados com as políticas afirmativas o de induzir transformações de ordem cultural, pedagógica e psicológica, aptas a subtrair do imaginário coletivo a ideia de supremacia e de subordinação de uma raça em relação à outra. (GOMES, 2001, p. 44)

A discriminação racial se reflete em todos os setores da nossa sociedade, independentemente da condição socioeconômica. Para Brandão (2005, p. 34), “no Brasil a discriminação racial persiste, a pobreza tem cor e sua cor é negra. Para combater essa desigualdade é que os movimentos de combate à discriminação racial defendem as políticas de ação afirmativa”.

O sistema de cotas não se configura como o único mecanismo de garantia de acesso à Educação Superior. Assim como o ProUni, possibilita maior oportunidade aos jovens negros e de baixa renda, que são geralmente excluídos pelo sistema tradicional do vestibular, não pelo mérito, mas sim em função das dificuldades enfrentadas ao longo de sua trajetória educacional.

[...] é preciso ter claro que as ações afirmativas não se resumem à questão das cotas, seja no mercado de trabalho, seja para o ingresso no ensino superior. Outras medidas podem ser adotadas, como, por exemplo, o estabelecimento de metas e preferências e o sistema de incentivos e bônus fiscais – utilizados como instrumentos de estímulo para que o setor privado também adote medidas de ação afirmativa. (BRANDÃO, 2005, p. 45)

O Estado deve investir na melhoria da qualidade da educação básica e do ensino médio, de forma a garantir formação a esses alunos – sejam eles de baixa renda, negros, pardos ou brancos, e assegurar mecanismos que favoreçam o acesso desses jovens à Educação Superior, entre eles, o ProUni.

Atualmente no Brasil, além do sistema de cotas, outras iniciativas estão sendo implementadas no sentido de reduzir as desigualdades do acesso à universidade e ampliar as oportunidades para os jovens chegarem à Educação Superior. São elas: 1) Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni); 2) O Fundo de Financiamento ao Estudante de Ensino Superior (FIES); 3) Acessibilidade na Educação Superior – Programa Incluir; 4) Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES); 5) Programa Milton Santos de Acesso ao Ensino Superior; 6) Reserva de Vagas – PL 3627/2004. O Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) foi instituído pelo Decreto nº 6.096, de 24 de abril de 2007. O Reuni tem por

objetivo: ampliar o acesso e a permanência dos estudantes nas Universidades Federais, através de um maior investimento do Governo Federal direcionado para a ampliação de vagas na graduação, incluindo a abertura de vagas nos cursos noturnos das IFES; a contratação de docentes, através da instituição de concursos públicos; a redução do custo por aluno; a flexibilização dos currículos e o combate à evasão.

O Fundo de Financiamento ao Estudante de Ensino Superior (FIES) foi instituído através da Medida Provisória nº 1.827, de 27/05/1999, e regulamentado pela Lei nº 10.260, de 12/07/2001. O fundo tem por objetivo financiar a graduação na Educação Superior para estudantes sem condições de arcar integralmente com seus custos.

Até 2102, o FIES já beneficiou 532.303 estudantes em todo o país, conforme relatório da Controladoria Geral da União (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2012)9. Para alunos do ProUni que possuem bolsa parcial de 50%, o Governo Federal disponibiliza, em processos seletivos específicos, o financiamento de 50% dos encargos educacionais efetivamente cobrados pela IES, o que corresponde a 25% dos encargos educacionais totais.

O estudante efetua o pagamento ao término da graduação, com o prazo de quitação proporcional ao tempo de utilização do contrato – uma vez e meio o prazo do período em que cursou a graduação.

O Programa Incluir tem por objetivo apoiar propostas desenvolvidas nas IFES, no sentido de superar situações de discriminação contra estudantes com deficiência. Conforme Edital nº 03, de 26 de abril de 2007, “o Programa Incluir constitui-se em uma iniciativa da Secretaria de Educação Especial e da Secretaria de Educação Superior que visa implementar política de acessibilidade plena de pessoas com deficiência à Educação Superior”. Além disso, o Incluir visa fomentar a criação e a consolidação de núcleos de acessibilidade nas IFES, os quais respondem pela organização de ações institucionais que garantam a integração de pessoas com deficiência à vida acadêmica, eliminando barreiras comportamentais, pedagógicas, arquitetônicas e de comunicação (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2012).

Os núcleos atuarão na implementação da acessibilidade às pessoas com deficiência em todos os espaços, ambientes, materiais, ações e processos desenvolvidos na instituição. As ações desenvolvidas pelo núcleo deverão integrar e articular as demais atividades da instituição, como os projetos de pesquisa, estudo, intercâmbio, cooperação técnico-científica e extensão para a inclusão educacional e social das pessoas com deficiência.

9 Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=242&Itemid= 525>. Acesso em: 15 mai. 2012.

O Plano Nacional de Assistência Estudantil – PNAES foi criado em 2008 e tem por objetivo apoiar a permanência de estudantes de baixa renda matriculados nos cursos de graduação presencial das IFES. Visa assegurar a igualdade de oportunidades entre todos os estudantes e contribuir para a melhoria do desempenho acadêmico, através de medidas que busquem combater situações de repetência e evasão do Ensino Superior público.

O PNAES oferece aos estudantes que necessitam a moradia estudantil, alimentação, transporte, atendimento à saúde, inclusão digital, cultura, esporte, creche e apoio pedagógico. Os programas e ações são coordenados pela própria IFES, incluindo o acompanhamento e a avaliação do desenvolvimento do Programa. O critério de seleção está relacionado ao perfil socioeconômico dos alunos, e é estabelecido conforme a realidade de cada instituição.

O Projeto de Lei 3.627 (BRASIL, 2004) tem como objetivo garantir a reserva de 50% das vagas nas IES públicas para alunos egressos da escola pública. Conforme previsto no artigo 1º, “as instituições públicas federais de Educação Superior reservarão, em cada concurso de seleção para ingresso nos cursos de graduação, no mínimo, cinquenta por cento de suas vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o Ensino Médio em escolas públicas” (BRASIL, 2004). O PL ainda está em tramitação no Congresso Nacional e aguardando ser votado.

Benzer Belgeler