Num recente comentário na revista Nature, dois pesquisadores da Universidade de Cambridge revelaram que cerca de dezenas de seus colegas admitiram o uso regular de drogas como Adderall, um estimulante, e Prodigil, que promove o estado de vigília, para melhorar seu desempenho acadêmico.
Jornal da Ciência da Sociedade para o Progresso da Ciência
As grandes dúvidas que se instauram já preconizadas por tantos estudiosos da educação são as seguintes: Qual o papel do sistema educacional? Até aonde vai sua responsabilidade? Quem ele está formando? Um homem? Um profissional? Um cidadão? Qual deve ser o “produto acabado” da escola?
‒ O que define a carreira acadêmica?
‒ Para quais objetivos os profissionais deveriam se formar docentes?
‒ O crescimento dos números de profissionais no mercado garante uma identidade a eles?
‒ Quais os benefícios e malefícios encontrados no dia a dia da profissão?
A contínua expansão do ensino superior associada às mudanças no atual cenário do trabalho tem produzido uma nova lógica nas atividades acadêmicas. Aspectos como uma nova organização dos processos de trabalho assim como a constituição de uma concepção funcional do ensino superior reconfigura as instituições e, consequentemente, o trabalho docente.
Freitas (2007) define a carreira acadêmica “(...) como um conjunto de atividades relacionadas ao ensino, à pesquisa, à formação de novos pesquisadores e à publicação técnica exercida pelas mais diferenciadas razões” (FREITAS, 2007, p. 187).
A autora elenca alguns requisitos para a prática docente:
a) o gosto pela leitura, pelo estudo, pelo debate, pela provocação, pela dúvida e pela escrita; b) o gostar de pessoas e de estar com elas;
c) a tolerância à ambiguidade, à incerteza e a um horizonte de longo prazo, visto que a relação com o conhecimento e seus produtos não é algo imediato;
d) o saber lidar com a ausência de recompensas materiais e simbólicas; com feedbacks rápidos, derivados da interação na sala de aula e com feedbacks lentos, derivados do trabalho de pesquisa e da publicação de seus resultados.
A pesquisadora argumenta que, especialmente na universidade, o acadêmico, na maioria das vezes, é solicitado a desenvolver os papéis de professor e pesquisador ao mesmo tempo, porém nem sempre esses papéis estão em sintonia com as exigências psíquicas de cada um deles.
Uma, entre outras exigências impostas ao professor, refere-se à titulação, por isso a autora ressalta o primeiro requisito colocado anteriormente para a prática docente, o gostar de estudar, pois os títulos devem ser desejados, buscados, conquistados e divulgados.
Freitas (2007) explica que não se escolhe a Academia pelo salário que ela paga, mas, principalmente, pelo trabalho que lá é realizado. Nesse momento, a autora detém-se ao sentido e às alegrias advindas do próprio trabalho. Entre outras vantagens, seguem-se as destacadas pela professora:
‒ No mundo acadêmico, as inquietações intelectuais tendem a ser “respeitadas”;
‒ A busca e o contato com outros universos de ideias, de autores, de lugares e de temas favorecem uma rica vida interior;
‒ A existência na carreira acadêmica de atividades cuja avaliação é rápida.
O profissional sabe, por sentir nas “entranhas”, relata a professora, quando ministrou uma bela aula, quando os seus ouvintes estavam atentos e interessados, quando os assuntos se encadearam naturalmente, quando o aluno que tinha dúvida ficou esclarecido e satisfeito, quando o genuíno interesse ligou professor e aluno.
Quanto às atividades de avaliação lenta, a autora afirma que também geram uma enorme satisfação e elas ocorrem quando se defende uma tese, quando se publica um artigo, quando se tem um paper aceito num congresso importante, quando um livro é lançado, quando o seu orientando defende a sua tese e quando ele se faz orientador e escritor. Esses
feedbacks são verdadeiros alimentos para a alma, pois, para a professora, captam imediatamente o que existe de mais puro na conta de ego ideal do professor, de seu narcisismo e da sua capacidade de sublimar. Afirma que é absolutamente saudável uma pessoa se alegrar e se orgulhar de si quando fez um bom trabalho e quando ele é reconhecido por pessoas que ela admira.
Freitas (2007) ressalta que, como toda profissão, a acadêmica também tem regras, rituais e cobranças. Mas, desde que o docente cumpra as questões básicas, o acadêmico tem graus de liberdade e de autonomia sem equivalentes em outras profissões. Isso não significa dizer que o acadêmico trabalhe menos, mas que exerce um maior controle sobre o seu tempo e o conteúdo que faz. Ressalta que, apesar da tendência de existir cada vez mais a uniformização, a padronização e a taylorização, a sala de aula, o trabalho acadêmico prescinde de rasgos de originalidade, ousadia, teimosia e afirmação de autonomia intelectual. Pode-se obrigar um professor a adotar um livro ou cronometrar o tempo que ele dedica a cada tema; por outro lado, não se elimina o traço individual e a maneira como cada professor realiza o seu trabalho, como interage com a classe, como manifesta suas emoções no cumprimento de seus deveres, como escolhe exemplos que dão brilho ao assunto ou autores que tiveram contribuições geniais. Finaliza enfatizando que o acadêmico é, por natureza, um rebelde aceito, caso contrário, seria mais barato e menos complicado contratar um robô.
E quais seriam os ossos do ofício, muitos deles já evidenciados neste capítulo anteriormente?
Como já dizia o poeta Fernando Pessoa, pensar dói. Freitas (2007) corrobora que a ignorância é algo bastante confortável e não é à toa que muitas vezes o ser humano prefere “fazer de conta que não sabe” certas coisas que explicitam contradições, paradoxos e ambivalências. Explica que há muita diferença entre saber o que fazer e o poder fazer, o que não raro gera um sentimento de impotência, inadequação e de consciência estéril. Entretanto, afirma que isso não significa que a teoria na prática seja outra, apenas significa que a teoria é geral e a prática sempre se dá numa situação específica e sob condições específicas.
A pesquisadora apresenta também a confirmação de que o mundo acadêmico é um universo com um elevado nível de aspiração e um comportamento entre pares que, no discurso, prega a diferença, mas que, na realidade, cobra a homogeneidade e o espelho. Diz tratar-se de profissionais que se levam muito a sério, que têm dificuldades em separar o professoral do pessoal, sentem fortes cobranças imaginárias ou reais, competem de maneira sinuosa e escorregadia vivendo a discordância como uma ofensa pessoal, mesmo sabendo que a polêmica e a dúvida devem fazer ser parte do seu dia-a-dia. Constroem alianças corporativistas e clivagens totêmicas em vista de suas filiações teóricas que excluem os que não compartilham das mesmas ideias. Continua esse argumento enfocando que, na Academia, os pecados capitais assumem dimensões mortíferas: colegas e chefes escondem informações como se fossem tesouros raros; a superficialidade e a colagem são desonestas; a soberba afasta o que precisa de esclarecimentos e apoio; nenhum tema é defunto morto o suficiente quando se quer estudá-lo; as críticas são vistas melindrosamente como traições que merecem revides; o guloso assume todas as posições em todos os espaços possíveis de alianças; e o invejoso poderá ter um infarto feliz, mas o seu colega-rival não terá o paper aceito, o artigo publicado, o livro divulgado ou o reconhecimento explicitado.
Assim, a autora argumenta que quando o ambiente de trabalho é ruim, na verdade ele é péssimo e os grupos vivem o tempo para fabricar e potencializar intrigas. Freitas (2007) enfatiza ainda que é inegável a necessidade do mundo acadêmico dar satisfações à sociedade sobre a sua produção, o seu desenvolvimento e as suas conquistas. É essencial que órgãos de controle regulem o exercício acadêmico e cobrem resultados. No entanto, percebe-se que existe, não apenas no Brasil, mas também no exterior, uma supervalorização da produtividade, certo descaso com a qualidade dos produtos gerados pelas pesquisas, certo incentivo ao irrelevante metodologicamente correto e um afrouxamento na qualidade da formação dos pesquisadores futuros.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a profissão docente é hoje considerada como uma das mais estressantes, uma profissão de risco (OIT, 1984). O excesso de trabalho tem sido produzido pela mudança na prática de ensino e de pesquisa, com a incorporação de novas tecnologias que, se ajudam, também aceleram enormemente o ritmo de trabalho. Além das competências relacionadas à área de conhecimento específica e às salas de aula, um acadêmico deve ser um entendido em comunicação eletrônica, preparar o seu material didático usando instrumentos cada vez mais sofisticados, enviar seus artigos e livros por meio de sistemas on-line, cadastrar-se e atualizar suas informações junto a diversas entidades, acompanhar financiamentos junto a órgãos de fomento, avaliar o trabalho de seus alunos e aconselhar melhorias, dar pareceres para revistas e congressos, enfim, não basta ser apenas uma sumidade na área. Os apoios antes oferecidos pelas áreas administrativas foram eliminados, os prazos são cada vez mais apertados, as oportunidades são sempre mais disputadas, os números são cada vez mais elevados, a cobrança é cada vez mais feroz.
Nesse sentido, Mancebo (2007) assim como Freitas (2007); Ferreira, Nascimento e Salvá (2012); e Sevcenko (2000) afirmam que agora o professor é responsável não apenas pela sala de aula e pelo desenvolvimento de sua pesquisa, mas por um crescente número de tarefas como o preenchimento de inúmeros relatórios e formulários, a emissão de pareceres, a captação de recursos para viabilizar seu trabalho e até para o bom funcionamento da universidade. Sevcenko (2000, p. 7) citado por Mancebo (2007, p. 77) referiu-se a essa faceta do trabalho docente com ironia: “O professor ideal agora é um híbrido de cientista e corretor de valores”. Relata o autor que uma grande parte do tempo do docente é dedicada a preencher relatórios, alimentar estatísticas, levantar verbas e promover visibilidade para si e seu departamento.
Outro quesito que Freitas (2007) chama atenção é em relação à escrita de textos, sobre a necessidade do pesquisador ter que publicar vários artigos por ano. Percebe-se que essa discussão não está perto de terminar. Tanto que Freitas, em 2011, retoma essa questão da imposição feita aos acadêmicos para a publicação de artigos científicos. É necessário afirmar que a autora não é contra as publicações, mas sim ao modo como tem sido conduzido.
Freitas (2011) enfatiza que a pesquisa é um investimento social e deve ser colocada em debate no que diz respeito àquilo que faz e como é feita. Explica que o compromisso maior da pesquisa deveria ser produzir e elevar conhecimentos para a melhoria da vida individual e coletiva em suas múltiplas dimensões e interfaces, ou seja, o conhecimento acumulado deveria ser moralmente responsável diante da vida e da sociedade. Na verdade, a
autora se refere ao fato de que a supervalorização da produtividade acadêmica tem gerado um descaso com a qualidade do que se produz ou, no mínimo, negligência de sua importância.
A autora explica que o que se encontra hoje “(...) é um desfile de assuntos repetidos, batidos e, algumas vezes, medíocres, porém bem estruturados de acordo com a avaliação que pareceristas têm de preencher para revistas e congressos” (FREITAS, 2011, p. 1158-1163). Nesse ponto, a pesquisadora explica que o acadêmico, como sabe o modelo de avaliação a ser adotado por aquele congresso ou revista, o conteúdo e a relevância às vezes não são considerados. “É o reino do irrelevante metodologicamente correto. Se a fórmula garante a aceitação ou a publicação, para que inventar moda?” (FREITAS, 2011, p. 1160-1163).
A autora justifica que tal postura talvez se deva ao fato de que o professor- pesquisador-publicador-orientador ‒ a nomeação que a autora dá ao professor no texto ‒ é um faz-tudo.
Um problema muito sério que merece maior reflexão é a observação eloquente que a autora coloca no que pode acontecer: na pressa de terminar o artigo para submetê-lo a uma avaliação o mais breve possível, não é de todo impensável que muito de uma bibliografia referenciada tenha sido lida apenas no abstract, ou seja, referencia-se o que sequer foi lido. Outra versão comportamental ainda mais reprovável é quando se conhece um autor por meio de outro: olha-se na bibliografia a referência completa no livro consultado e se faz de conta que o autor não lido nem no abstract foi realmente lido e, portanto, usado como referência legítima. Então, nos perguntamos: de que impacto estamos mesmo falando?
Nesse momento, para a referida autora, a competição aparece no discurso, fala-se em equipes; na avaliação, fala-se em indivíduo tendo que matar vários leões ao mesmo tempo para não morrer no próximo triênio. O que triunfa parece que é o individualismo. A professora pergunta-se o que muito professor-pesquisador-orientador deve se indagar.
O que nos motiva a compartilhar informações, que conseguimos a duras penas, com nossos colegas, se estamos em competição com eles e somos avaliados individualmente? Que efeito terá esta competição quando decidirmos “queimar alguém” ou não contribuir com uma “azeitona em sua empada”, reprovando o seu paper ou artigo para publicação? Até que ponto a blind-review é mesmo blind? É irreal pensar que existe fogo amigo na Academia? Podemos ser inocentes, mas não ingênuos (FREITAS, 2007, p. 1161).
E aí as estratégias de defesa para sobrevivência no ofício entram em cena tais como os conluios espúrios para publicação, as alianças estratégicas do tipo “eu faço, ponho o seu nome; você faz, põe o meu nome”, roubar ou plagiar ideias de colegas e alunos, obrigar
orientandos a apontar coautorias indevidas ou nomear o orientador como primeiro autor indevidamente.
A autora termina enfatizando que os pesquisadores-publicadores-orientadores não são vítimas dessa situação, uma vez que são os próprios que endossam os papers, os artigos, as dissertações e as teses. Os professores, diz ela, de olhos fechados, concordam com os modelos de avaliação que as instituições das quais fazem parte como membros de conselhos pedem- lhes e perpetuam o que já sabem ser pervertido.
Mas comunica e convida a todos os acadêmicos a reivindicar mudanças, participando delas. Afirma que há possibilidade de recusa, de se sugerir, propor novas ideias, provocar novos insights.