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O trabalho na sua essência é invisível. Só a palavra e a experiência vivenciada podem expressar, parcialmente, o investimento de energia que constitui o trabalho.

Rosângela Dutra de Moraes

Bendassolli, Soboll e Andrea (2011) anunciam que o uso da terminologia “clínica” pode, equivocamente, remeter à ideia de uma clínica de consultório, de um modelo clínico individualista que acaba por minimizar ou, até mesmo, ignorar as ramificações sociais, dando ênfase apenas aos processos intrapsíquicos do sujeito na clínica. Pode-se pensar ainda que se trata de uma clínica do sofrimento ou do trabalho psiquicamente nocivo.

Na verdade, a clínica está atenta ao sofrimento e aos aspectos deletérios do trabalho, transcendendo-os e enfatizando os processos criativos e construtivos do sujeito. Ela oferece condições para que o indivíduo tenha a capacidade de mobilizar, de agir e de resistência face ao real do trabalho. As clínicas do trabalho defendem a centralidade psíquica e social do trabalho e são compreendidas como uma atividade concreta e, ao mesmo tempo, simbólica constitutiva do laço social e da subjetividade dos trabalhadores. Por isso atribuem importância sobre as demandas trazidas pelo mundo do trabalho aos pesquisadores. Outro ponto comum entre as abordagens das clínicas do trabalho é o reconhecimento de que o sofrimento no trabalho possui diversas formas de manifestação e que está sedimentado nas questões de ordem social, econômica e cultural (BENDASSOLLI; SOBOLL; ANDREA, 2011).

Para Bendassolli, Soboll e Andrea (2011, p. 6), uma premissa compartilhada pelas clínicas do trabalho se refere à “(...) necessidade de lutar contra a vulnerabilidade social, contra a ocultação do real do trabalho e as formas de alienação e invisibilidade social”.

Entre as teorias que regem as clínicas do trabalho existem algumas divergências epistemológicas, teóricas e metodológicas, mesmo que o objetivo final seja compartilhado. Por isso é necessário que o pesquisador e/ou clínico escolha uma teoria e metodologia de referência.

Mendes, Lima e Facas (2007) esclarecem que clínica em Psicodinâmica do Trabalho é o espaço para a fala e a escuta dos trabalhadores, que sofrem em função da realidade exposta pela organização do trabalho, sendo realizada por meio de sessões coletivas com os trabalhadores.

Karam (2012, p. 55) explica que uma clínica se dá nos pequenos coletivos a partir da construção de um espaço de discussão:

Um espaço onde podem ser formuladas livremente e, sobretudo, publicamente, as opiniões eventualmente contraditórias, visando a proceder arbitragens e tomar decisões sobre as questões que interessam o futuro do serviço, do departamento, da empresa ou da IES e que, portanto, também dizem respeito ao futuro concreto de todos os membros que os constituem.

Compreende-se, portanto, que clínica em Psicodinâmica do Trabalho busca integrar a ação na clínica. A ênfase é a organização do trabalho (nas suas dimensões visíveis e invisíveis, prescrita e cognitiva, afetiva, intersubjetiva, política e ética), sendo o propósito conhecê-la, para visualizar as vivências de prazer e sofrimento, os processos de subjetivação, as patologias e a saúde-adoecimento. Identificar como os sujeitos constroem as estratégias defensivas para enfrentar o real da organização do trabalho é primordial para a análise clínica, visto que é essa organização que promove e configura a construção dessas estratégias. Dessa maneira, o foco são as ações utilizadas para confrontar a organização do trabalho, que é responsável pelo modo como as estratégias são construídas e desenvolvidas, à medida que oferecem espaços para expressão do sofrimento, para reconhecimento e cooperação, favorecendo a saúde e/ou surgimento de patologias.

A clínica do trabalho tem como princípio metodológico fundamental a interpretação da fala para a ação e visa à perlaboração de modos defensivos (MENDES; ARAÚJO, 2012).

Referindo-se à clínica da Psicodinâmica do Trabalho, Mendes e Araújo (2012) afirmam que o termo articula a ação ao ato de linguagem, uma vez que a fala assume uma eficiência quando passa pelo processo de elaboração-perlaboração coletivo, possibilitando a passagem do espaço de discussão para o espaço de deliberação. Essa clínica possibilita a reconstrução da capacidade de refletir e assim criar estratégias individuais e coletivas de confronto com as circunstâncias originárias de sofrimento na tentativa de prazer no trabalho.

Nesse sentido, na clínica do trabalho, não só se oportuniza o espaço para a fala, mas também o espaço para pensar. Como é sempre coletiva, promove para o sujeito a oportunidade do exercício de se colocar no lugar do outro no momento em que faz a fala fluir

entre um grupo de trabalhadores que, muitas vezes, não reflete sobre as dimensões invisíveis do trabalho (MENDES; ARAÚJO, 2012).

Para a transformação desse sujeito, Mendes e Duarte (2013) relatam que a discussão das vivências de prazer-sofrimento provenientes da dinâmica das situações de trabalho é construída ao longo das sessões.

Segundo as autoras, para a realização da clínica, o profissional precisa desenvolver saberes sobre o trabalho e o sofrimento humano. O profissional deve ser um aprendiz de si mesmo e dos seus afetos. É condição essencial, além de se apropriar da teoria, ter uma prática. O contato com seu próprio sofrimento e com o sofrimento do outro se dá na relação, na vivência, no real, no trabalho vivo.

De acordo com Mendes e Duarte (2013), a clínica permite a fala-escuta do sofrer. O trabalhador, ao se apropriar do sofrimento, atribui a ele um novo sentido, ressignificando-o. Assim, por meio da mobilização subjetiva, pode tolerar e superar esse sofrimento originário, vivenciando, no lugar dele, um sofrimento criativo, que é motor para a ação sobre o real do trabalho, por colocar o sujeito em contato com o trabalhar, com o trabalho vivo e o viver junto.

Na clínica da psicodinâmica, a demanda deverá partir de um coletivo, seja formal ou informal, não do indivíduo. A demanda individual deverá ser atendida pela clínica do sujeito. É no coletivo que se encontra a potência política para a mobilização subjetiva, é aí que o psíquico e o social se encontram como dimensões inseparáveis (MENDES; DUARTE, 2013).

Outro fato destacado por Mendes e Morrone (2012) é a observação de que é possível que não se obtenha respostas às hipóteses pré-formuladas ou não se encontre tudo aquilo que se pretendia, mas mesmo assim vale a pena a clínica, uma vez que pode haver uma desestabilização do coletivo e a quebra dos mecanismos de adaptação a situações profissionais.

Lancman (2011) também coloca que a clínica possibilita um confronto de opiniões e a criação de um espaço público de discussão permitirá uma democracia nas relações de trabalho e a produção de um novo conjunto de regras. Enfatiza ainda que talvez esse seja um dos pontos mais importantes desenvolvidos pela Psicodinâmica do Trabalho ao se opor a certas visões deterministas que, se levadas ao pé da letra, transformariam os trabalhadores em observadores impotentes de um mundo perverso que os reduz a sujeitos passivos: os trabalhadores são capazes de se proteger, encontrar uma saída, possuem capacidade de emancipação, de reapropriação, transformação e reconstrução da realidade.

Lancman (2011) também faz um alerta ao enfatizar que a existência de um espaço de palavra, espaço público, poderia ser uma prática nas empresas mesmo fora do âmbito de uma intervenção em Psicodinâmica do Trabalho. As trocas possíveis poderiam ser muito úteis, pois permitiriam a elaboração compartilhada de vivências, facilitando a experiência da elaboração coletiva do sentido do trabalho.

Por fim, ao adentrar-se como clínico, o pesquisador encontrará um trabalhador com um sofrimento marcado pela individualização, o desamparo, a impotência, a solidão e, ao mesmo tempo, mobilizado para trabalhar, para se sentir útil, produtivo e reconhecido. Esse é um sujeito entre o sofrimento e o prazer, a saúde e o adoecimento, um sujeito em luta (MENDES; DUARTE, 2013).

A clínica atua na revelação das defesas e na construção de novas formas de confrontar o real. Sair do narcisismo, da perversão e tornar-se um sujeito sofredor é a condição necessária para a inquietação, a desestabilização e a mobilização para construir, de modo coletivo, novas regras para produzir e viver junto. Esse é o papel da clínica Psicodinâmica do Trabalho (MENDES; DUARTE, 2013).

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