Nicolini (2003) explana que, a partir de 1900, surgem os primeiros cursos em Administração de que se tem notícia no Brasil, quando duas escolas particulares passaram a ministrar o estudo ‒ no Rio Janeiro, na Escola Álvares Penteado, e em São Paulo, na Academia de Comércio. Contudo, somente em 1931, o curso foi regulamentado, com a criação do Ministério da Educação e a estruturação do ensino em todos os níveis.
A mudança e o desenvolvimento da formação social brasileira, a partir da Revolução de 1930, demandavam a preparação de recursos humanos, na forma de técnicos e tecnólogos de várias especializações, assim como métodos de trabalho mais sofisticados. Foi, portanto, nesse período, para atender às necessidades demandadas pelo crescimento econômico, para o desenvolvimento de infraestrutura social e transportes, energia, comunicação, que efetivamente houve a consolidação dos cursos superiores em Administração (NICOLINI, 2003).
Com o governo Vargas, seguido por Kubitschek, o ensino de Administração estruturou-se a partir da influência gerada pela Fundação Getulio Vargas e, mais especificamente, pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, criada em 1954.
Com os governos militares e o “milagre econômico”, o Brasil privilegiou as grandes empresas, multinacionais e estatais, principalmente estas últimas. O ensino, assim, expandiu- se em ritmo acelerado, resultado da regulamentação da profissão e do bacharelado em Administração, procurando suprir a demanda por tecnocratas gerada por esse tipo de desenvolvimento. Em 1993, após dois anos do governo Collor e intensas mudanças que projetavam o Brasil no contexto de uma economia globalizada, a reforma da regulamentação tenta orientar as escolas para a formação de profissionais aptos a enfrentar o mundo e suas novas demandas (NICOLINI, 2003).
Como consequência histórica, o ensino de Administração consolidou-se em um Brasil marcado essencialmente pela divisão de trabalho, a especialização e o mecanicismo que permearam e permeiam, muitas vezes, o modelo de ensino. Essencialmente o Brasil supriu suas necessidades importando conhecimento já sistematizado em outros países, movido pela necessidade de se desenvolver e aliado à impossibilidade de gerá-lo em curto prazo. Tal fato aconteceu também devido à falta de caráter investigativo no desenvolvimento das ciências administrativas no país. Instituições universitárias, onde se desenvolvem pesquisas, sedimenta-se um conhecimento que é essencialmente dinâmico, que acrescenta, desenvolve- se e adapta-se às condições socioeconômico-culturais desiguais, a partir da revelação de seus
mecanismos e de como manuseá-los. Em instituições onde o ensino é a única atividade, o conhecimento administrativo torna-se rígido e estático: rígido, pois a inexistência da pesquisa torna seus mecanismos desconhecidos e não permite ajustamentos; e estático porque só se torna possível a reprodução dos conceitos. Registre-se que a expansão do ensino de Administração se fez primordialmente por meio de instituições desse tipo (NICOLINI, 2003).
De acordo com o Conselho Federal de Administração de São Paulo (CFA-SP), a área de Administração é uma das áreas que apresentam o maior número de matrículas no curso de graduação e dados do Portal INEP relatam que a maioria das vagas desses cursos é oferecida pelas IES privadas.
Rodrigues (2013), ao citar Bertero (2006), explica que o curso de graduação em Administração é procurado por quem deseja ou tem necessidade de um diploma universitário, mesmo sem demonstrar um interesse genuíno pelo curso. Não faz parte do universo mental da maioria dos matriculados a possibilidade de aspirar a uma carreira nessa área e poder chegar à cúpula de grandes organizações ou muito menos frequentar outro curso, mais próximo dos seus sonhos, uma vez que seu nível de aspirações é compatível com sua extração social e reais perspectivas que o país oferece à maioria de seus cidadãos.
Paula e Rodrigues (2006) enfatizam ainda que a combinação entre uma grande procura de vagas e o custo relativamente baixo de implantação de um curso de graduação em Administração parece ter tornado esse curso atraente para as universidades privadas. Cursar Administração talvez esteja ligado somente à ideia e obrigação de se obter um diploma e manter-se empregado, seja no cargo que for.
Nesse sentido, Alcadipani (2011), em 1999, juntamente com Bresler, desenvolveu um artigo em que enfatizava que as faculdades e universidades brasileiras passavam por um nítido processo de McDonaldização. De 1999 a 2011, Alcadipani (2011) escreveu que a situação só piorara.
Cursos enlatados, o esvaziamento da reflexão, os ataques à liberdade acadêmica, a busca por ensinar aquilo que supostamente funciona, o uso desenfreado de apostilas, a transformação do aluno em cliente, a difusão de formas de avaliação de desempenho de professores similares a de empresas e a quantificação da produção acadêmica já eram traços do ensino superior brasileiro em 1999. De lá para cá, a situação apenas se agravou. A Academia está prestes a virar fast-food. O modelo gerencial passou a ser visto como a solução para os problemas das organizações educacionais. Começou-se a desenvolver avaliações de desempenho de professores que mimetizam os processos de avaliação de executivos, os planos de carreira estão cada vez mais próximos ao de empresas, os alunos passaram a ser vistos como clientes e os cursos como produtos. Inseridos em tal lógica, professores são premiados ou punidos, muitas vezes, levando-se como fundamento principal a pesquisa da satisfação dos alunos com relação ao curso ministrado pelo professor. Tais avaliações discentes seguem uma lógica que não difere muito da lógica das
pesquisas de satisfação de clientes que acabam de consumir um produto. A transformação do aluno em cliente transformou o professor em um mero prestador de serviços, muitas vezes subtraindo dele as funções de educador e o forçando a ser um “animador de auditório”. O problema do aluno-cliente é que a lógica do ensino- aprendizagem é subvertida pela lógica do consumo-satisfação que, muitas vezes, destoa da formação de um sujeito reflexivo e maduro. Diante do cliente, o professor- prestador de serviço não deve medir esforços para satisfazê-lo. A consequência mais típica é o estabelecimento dos “pactos de mediocridade” em que o aluno finge que apreende e o professor que ensina (ALCADIPANI, 2011, p. 346).
Os aspectos referenciados por Alcadipani (2011): cursos enlatados, o esvaziamento da reflexão, os ataques à liberdade acadêmica, a busca por ensinar aquilo que supostamente funciona, o uso desenfreado de apostilas, a transformação do aluno em cliente, tendem a afetar diretamente a qualidade do curso de Administração.
Nicolini (2003) enfatiza que as competências desejáveis ao administrador, quando não são inatas, têm de ser desenvolvidas ao longo do curso, pressupondo o estudante como sujeito de seu próprio processo de formação. É importante tratar os alunos como indivíduos que devem e têm condições de contribuir para o enriquecimento dos temas e abordagens desenvolvidos durante sua formação. O estudo das organizações, muito rico, é de uma complexidade notável, o que traz uma dificuldade natural para apreendê-lo, de acordo com o autor. Mesmo assim, ainda que complexo, o estudante pode ter a chance de desenvolver a consciência crítica que lhe permitirá uma melhor compreensão do fenômeno organizacional, desde que participe do projeto para sua formação.
Depois de evidenciado o cenário atual do contexto do ensino superior e do curso de Administração no Brasil, o prazer e o sofrimento docente será tratado a seguir.