ORMAN ÜRÜNLERİNDE VERİLEN KANUNİ HAKLAR
4.1. KANUNİ HAKLARIN KAPSAMI :
Em 1963, quando Jacques Derrida profere sua conferência, inicia-a reconhecendo-se discípulo de Michel Foucault254. Confessa-se incomodado como a
“enfant”255 que, mal começa a falar, já se sente flagrado em erro. Contudo, ciente de que
este incômodo lhe vem, sobretudo, não diretamente pela figura de Foucault, mas por via do “mestre que fala nele antes dele para censurá-lo”, Derrida decide que é hora de “quebrar o espelho” e começar a falar. Num gesto típico de sua postura filosófica, Derrida traz este desconforto à baila tomando-o como traço de uma presença (do mestre) que (já) se tornara ausência: “Essa interminável desventura do discípulo se deve talvez a que ele não sabe ou ainda esconde de si mesmo, que, assim como a vida verdadeira, o mestre talvez esteja sempre ausente”256. Não é fortuito que Derrida inicie sua fala
mencionando a questão da ausência. A ideia de ausência e presença está no coração da démarche derridiana e da sua leitura do cogito cartesiano.
Os objetivos de Derrida, de um modo geral são dois. Em primeiro lugar, refutar a leitura foucaultiana do cogito e a suposta rejeição por parte do meditador da experiência da loucura, e em segundo lugar, mostrar a inviabilidade da tese defendida em História da Loucura. Neste tópico daremos ênfase ao segundo objetivo.
Todo esforço de Derrida será o de mostrar como Foucault, ao tentar denunciar o enclausuramento e a segregação da loucura, acaba por enclausurá-la num sentido determinado. Lembremos rapidamente o percurso da obra para situar a questão da
254
Sobre este tema, vale a leitura da entrevista que Jacques Derrida concede a Elizabeth Roudinesco, publicada sob o título “De que amanhã....”, que traz o tópico “Escolher sua herança”.
255
Conforme nos lembra a nota do tradutor da edição brasileira, o vocábulo francês “enfant”, vindo do latim “infans”, não falante, cobre bem o sentido específico que Derrida quer enfatizar aqui. Cf DERRIDA, J. “Cogito e História da Loucura”, p. 63.
centralidade do par razão/desrazão. Durante o Renascimento os loucos tinham uma vida errante e a loucura era tida como uma experiência a ser interpretada, ou seja, a loucura trazia um discurso consigo que podia ensinar algo sobre a experiência humana. Fazendo coincidir o acontecimento da grande internação com a exclusão da loucura da ordem das razões, a Idade Clássica inaugura, segundo Foucault, uma nova era, a da partilha razão/desrazão. Esta partilha é concomitante ao silenciamento e segregação dos loucos e outras formas de vida desarrazoadas no Hospital Geral, que não é, na verdade, uma instituição terapêutica, mas uma casa de reclusão. A loucura agora é interpretada como desvio moral, opção moral, desrazão. No final do século XVIII, com o desenvolvimento da psiquiatria, os loucos ganharão estatuto de doentes e serão separados dos demais internos passando a receber tratamento médico sob controle institucional. Entre a tomada da loucura como doença e a sua experiência errante no Renascimento há a partilha razão/desrazão.
Com efeito, à descontinuidade do pensamento, à alternância entre instantes mais ou menos sensatos, a esta “audácia hiperbólica”, ao jogo de nuances entre razão e desrazão, Derrida contrapõe a violência da imagem da razão e da desrazão determinadas sob a forma de estrutura histórica. A impossibilidade desta contradição determinada desencadearia a impossibilidade da tese de Foucault. Diz Derrida:
Ao querermos escrever a história da decisão, da partilha, da diferença, corremos o risco de transformar a divisão em acontecimento ou em estrutura sobrevindo à unidade de uma presença originária; e de confirmar assim a metafísica em sua operação fundamental.
Na verdade, para que uma ou outra dessas hipóteses seja verdadeira e para que se possa escolher entre uma e outra, é preciso supor, geralmente, que a razão pode ter um contrário, um outro da razão, que ela possa se constituir ou descobrir um contrário, e que a oposição da razão e de seu outro seja de simetria. Está aí o fundo das coisas257
.
Com efeito, Derrida questiona o que é fazer a história da partilha razão/desrazão.
Fazer história da origem da história? Aquilo que determinaria a partilha, o golpe de força, o enclausuramento, aos olhos de Derrida funcionaria como um inconveniente centro da estrutura, uma espécie de contradição em termos, ainda mais quando se toma como divisor de águas da estrutura um acontecimento histórico. Derrida quer saber qual o privilégio da filosofia em relação aos acontecimentos históricos: “Não sei até que ponto Foucault concordaria em dizer que a condição prévia de uma resposta a essas questões passa primeiro pela análise interna e autônoma do conteúdo filosófico do discurso filosófico”258.
Para Derrida, Foucault buscou fazer uma história evitando tomar a loucura como objeto do saber psiquiátrico para não cair na armadilha de tomá-la já objetivada, exilada como o outro da linguagem. Derrida comenta que, se por um lado, o gesto “audacioso” de fazer a loucura falando de si é muito “sedutor” e é o que confere uma “admirável tensão” à obra, por outro, isto é “o que há de mais louco” neste projeto. Derrida dirá que esta dificuldade assombra o projeto da História da Loucura porque não é possível fazer uma história contra a razão, porque o conceito de história é racional, não se pode denunciar a ordem dentro da ordem porque a ordem perpassa toda a linguagem européia, é a linguagem da razão ocidental. Em resumo, não adiantaria Foucault fazer uma história que tem por objetivo deixar o outro falar porque o reconhecimento do outro em sua alteridade a reforça, uma vez que a alteridade é concebida dentro da própria linguagem. É como se Derrida perguntasse: se os loucos foram silenciados e se a arqueologia é uma ordem, fazer a arqueologia deste silêncio não seria a repetição de um “ato perpetrado contra a loucura”259? As próprias palavras de Foucault utilizadas no Prefácio de 1961 são
citadas para mostrar que o autor era cônscio desta limitação de seu projeto: “A percepção que busca apoderar-se deles [dos loucos] em seu estado selvagem pertence necessariamente a um mundo que já os capturou. A liberdade da loucura só se ouve do alto da fortaleza que a mantém prisioneira.”260
Por estas razões, compreende-se que Derrida mostre-se perplexo diante do “golpe
258 DERRIDA, J. “Cogito e História da Loucura”, p. 33. Itálicos nossos. 259 DERRIDA, J. “Cogito e História da Loucura”, p. 17.
de força” proposto por Foucault. Para ele, o que Foucault não poderia deixar de ter visto é “que toda história não possa ser, em última instância, outra coisa que a história do sentido, ou seja, da Razão em geral […] a significação mais geral de uma dificuldade por ele atribuída a uma experiência clássica vale bem além da idade clássica”261. Para
Derrida, a separação entre loucura e razão teria tido lugar, não com Descartes, mas desde quando a filosofia instala a divisão entre Sócrates e os pré-socráticos e inicia-se a história da filosofia. Desde então, o logos é configurado numa matriz, as regras que condicionam todo um discurso filosófico, uma episteme no sentido derridiano do termo, um projeto que unifica toda a história da filosofia que ele chamará de “metafísica da presença”. Algo que se confundiria com o que chamamos de razão.