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O importante a reter deste quadro que acabamos de descrever é que, dependendo da perspectiva assumida pela crítica ou das circunstâncias argumentativas, Descartes bem podia ser considerado um cético. Mas, será que, apenas por ter exercido a dúvida e utilizado “argumentos céticos”, Descartes pode ser considerado um deles?

Popkin, pensador empenhado em buscar marcas do ceticismo em todo o pensamento ocidental, afirma que, “malgré lui”, Descartes foi confundido por muitos dogmáticos como cético. Diz ele que a postura cartesiana era considerada como de um ateu porque Descartes aboliu o princípio a partir do qual se podia adotar um fundamento seguro, rejeitando, ao mesmo tempo, a autoridade, o senso comum e a experiência sensível. Alguns dos principais argumentos levantados foram: não é possível questionar a “honestidade de Deus”207 pelo argumento do gênio maligno ou Deus enganador e

depois querer imputar o argumento baseado na clareza e distinção de nossas ideias pois, justamente, a nossa ideia de Deus nunca é clara e distinta.

As críticas do padre Bourdin foram expostas nas sétimas objeções. Mostravam um Descartes cômico que teria levado a dúvida longe demais. Dizia ele que o método cartesiano "tem medo da premissa maior seja ela qual for"208 pois desconfia das velhas

fórmulas, apesar de trazer um inimigo novo (o gênio maligno). Neste sentido, Padre Bourdin diz que tudo que o leitor de Descartes tem que fazer é esperar, como se ele dissesse: "espere até que eu saiba que Deus existe e até que eu veja que o Espírito maligno está acorrentado"209.

Segundo Popkin a posição assumida por Descartes assume ares de uma resistência inglória. Diz que é como se a Reforma tivesse aberto “a caixa de pandora” por procurar os fundamentos do saber e da religião. Descartes teria se colocado numa situação delicada ao tentar conciliar as duas frentes num “esforço heroico”210 que foi mal

207

POPKIN, Richard. “Descartes: sceptique malgré lui” In História do cetiscismo de Erasmo a Spinoza, São Paulo, Ed. Francisco Alves, 2000. p. 314.

208 BOURDIN apud POPKIN, idem, p. 304. 209 BOURDIN apud POPKIN, idem, p. 304.

compreendido, pois apesar de nunca ter sido considerado como cético pelos próprios céticos, foi acusado de ceticismo pelos dogmáticos.

Mas não é razoável afirmar que Descartes é cético tão somente porque ele exercitou a dúvida. Ainda em 1628, bem antes da preparação das Meditações, nas Regras para a direção do espírito, Descartes já havia fixado a dúvida como parte do seu método filosófico com o objetivo de livrar o espírito dos prejuízos. Além do mais, a dúvida teria papel fundamental no processo de subjetivação enquanto “resíduo indubitável”211 do pensamento. O evidente é indubitável. Portanto, mais do que uma

postura cética, a dúvida cartesiana revela-se um antídoto às falsas opiniões.

É verdade que Descartes sofreu grande influência de Montaigne, filósofo que duvidava da instabilidade das opiniões humanas, mas ao contrário deste, Descartes depositava grande fé na razão. Ao contrário da dúvida cética, a dúvida cartesiana, enquanto parte do método, demandava requisitos para ser praticada, “a mente desligada de preocupações”212, ter atingido idade madura, estar no “sossego seguro num retiro

solitário”213, dispor de “todo vagar para (se) entreter com os pensamentos”214, estar “livre

de paixões que perturbasse”215, nem ter “nada que distraísse”216, e acrescentaríamos

ainda, não ter o “cérebro ofuscado” pelos vapores da negra bile.

Mas se Montaigne também praticou a dúvida, como o fez? Henri Gouhier disse que “A dúvida é para Montaigne um macio travesseiro: para Descartes é uma imperfeição que, como tal, é insuportável”217. Koyré traz uma caricatura exagerada sobre

o tema mas vale a pena mostrar. Ele polariza Montaigne e Descartes colocando-se junto a este último:

A nossa dúvida não será um estado de incerteza negligente – será uma ação, um ato livre, voluntário, e que levaremos às últimas 211

LEOPOLDO E SILVA, Franklin. Descartes e a Metafísica da Modernidade, p. 22.

212

DESCARTES, R. Meditações Metafísicas, p. 93.

213

DESCARTES, R. Meditações Metafísicas, p. 93.

214

DESCARTES, R. Discurso do Método, II, p. 42.

215 DESCARTES, R. Discurso do Método, II, p. 42. 216 DESCARTES, R. Discurso do Método, II, p. 42.

consequências […] Porque a dúvida, o cético e Montaigne sofrem-na. Descartes exerce-a. Ao exercê-la livremente, dominou-a. E assim se libertou dela218

.

Popkin ao contrário, diz que os céticos não sofrem a dúvida, mas que Descartes sofreu-a. Em carta a Elizabeth, ele diz que não precisávamos ficar presos às dúvidas o tempo todo embora fosse necessário passar por isso uma vez na vida219. Henri Gouhier

vai no mesmo sentido ao afirmar que “a dúvida metódica foi uma lição de nove anos de aprendizado que, na vida de Descartes, segue o inverno de 1619-1620”220, e que ela

significou um “adeus brutal à infância”221.

Por outro lado, Popkin, citando Samuel Sorbière, diz que "A Époche deve ser tomada em pequenas doses... como um remédio doce e benigno que nos salva de opiniões mal dirigidas, e não como um veneno que erradica tudo até os primeiros princípios de nosso raciocínio"222

.

Na mesma direção, Porchat Pereira diz que a postura cética não causa sofrimento. E não teria nenhum sentido se assim fosse, pois somente quem deposita grande fé na razão pode ser levado a sofrer com um raciocínio. Porchat diz que mesmo os argumentos céticos mais terríveis, mais auto-destrutivos, não abalariam a époche pois não se objetiva em estabelecer a verdade definitiva mas saber como as coisas nos aparecem no momento em que elas nos aparecem. Vejamos o que ele diz:

Mais importantes ainda pareceram-me os comentários que Sexto acrescenta à sua exposição do caráter autodestrutivo das proposições céticas: elas não têm qualquer significado absoluto, mas tão-somente um significado “relativo e relativo aos céticos” (H.P. I, 207); ao proferi-las, o cético diz o que lhe aparece (tò phainómenon) e anuncia, sem dogmatizar, sua própria experiência, sem nada asserir

218 KOYRÉ, Alexandre. Considerações sobre Descartes. Lisboa: Ed. Presença, 1992, p. 36. 219

DESCARTES, “Carta a Elizabeth”, de 28 de junho de 1643. In DESCARTES. Correspondance avec

Élisabeth et autres lettres. Introdução, bibliografia e cronologia de JM BEYSSADE e Michelle

BEYSSADE. Paris: GF Flammarion, 1989, pp. 73-76.

220

GOUHIER, H. Descartes: Essais sur le “Discours de la méthode”, La Métaphysique et la morale. Paris: Vrin, 1973, p. 114.

221 GOUHIER, H, idem.

positivamente acerca da real natureza das coisas (H.P. I, 15; 208). Suas proposições exprimem sempre sua experiência, não buscam – nem têm a pretensão de – dizer o real, o que quer que esta palavra possa significar em seu uso filosófico. Ele não as profere como se fossem absolutamente verdadeiras. Seu significado e seu alcance são inteiramente relativos a essa mesma experiência a que remetem. Uma experiência que não pode senão reconhecer aquele que a experiencia. Seu conteúdo é o aparecer que as proposições céticas dizem.223

Para o cético, a certeza é mais testemunho de insanidade que a dúvida. É o que diz Montaigne: “A impressão da certeza é um testemunho certo da loucura e incerteza extrema”224. Então se estamos confiantes na razão e objetivamos a certeza, qualquer

falha assumirá o caráter de erro, e até culpa. Precisamos da certeza só enquanto estivermos muito apegados a nossa falibilidade enquanto desvio, opacidade. Como o cético tem essa consciência profunda da falibilidade, ele sabe que há uma hora em que se perde a clareza. Por isso mesmo, o cético não sofre a dúvida. Ao contrário, ele nos atrai com esta perspectiva festiva da finitude. Esta ideia nos convence de que nós não perdemos nada por perdermos a fé nas nossas certezas. Mesmo porque, como Foucault nos mostra, se “no limite, a vida – daí seu caráter radical – é o que é capaz de erro”225,

talvez não precisemos nos agarrar tanto às certezas.

Benzer Belgeler