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No presente capítulo são apresentados resultados e análises para cada uma das questões

do questionário aplicado.

O questionário foi aplicado aos 68 professores da EBAPE/FGV. Deste total, obteve-se 44

respostas, ou seja, 65% dos professores responderam ao questionário. Pode-se deduzir que o

número de respondentes atinge ao objetivo proposto, uma vez que Bauer e Gaskell (2004),

admitem um limite máximo no número de respostas numa pesquisa entre 15 e 25 respondentes.

No presente estudo considera-se que o limite estabelecido para um referencial representativo

deveria ser, de no mínimo, 30 questionários respondidos.

Nas três questões fechadas (vide o apêndice) foi realizado tratamento por meio do método

estatístico. A primeira questão fechada foi “As decisões administrativas são tomadas com base:

(a) mais pela lógica/raciocínio; (b) mais pela intuição e (c) por ambas, em quase igual

proporção.” Os resultados foram: 34% dos respondentes (15 professores) responderam que as

decisões são tomadas com base mais pela lógica/raciocínio; 11% dos respondentes (cinco

professores) responderam que as decisões são baseadas mais pela intuição e 55% (24 professores)

acreditam que as decisões estão baseadas tanto na lógica/raciocínio quanto na intuição.

Entretanto, relevante é ressaltar que oito dos 24 professores que optaram pela resposta (c)

observaram que a proporcionalidade depende do conhecimento e das informações de cada caso

Confrontando-se as respostas da primeira pergunta com o arcabouço teórico

desenvolvido, pode-se deduzir que o processo decisório é caracterizado por dimensões de base

racional e intuitiva, conforme preconizam Goldberg (1993), Motta (1988, 1999), Parikh,

Neubauer e Lank (1998) e Vergara (1991, 1993).

Os resultados de estudos sobre a intuição de Parikh, Neubauer e Lank (1998), Vergara

(1993) e Vergara e Branco (1994) confirmam o uso da intuição nas tomadas de decisões

organizacionais.

A tabela 1 sumariza a primeira pergunta fechada.

Tabela 1 – Síntese estatística das respostas à pergunta “As decisões administrativas são tomadas com base...”

As decisões administrativas são tomadas com base:

RESPONDENTES (Quantidade numérica de

professores)

PERCENTUAL (%)

(a) mais pela lógica/raciocínio 15 34

(b) mais pela intuição 5 11

(c) por ambas, em quase igual proporção

24 55

Para a pergunta “A formação acadêmica do administrador se baseia mais pela

racionalidade instrumental?” obteve-se relativo consenso: 91% dos respondentes (40 professores)

acreditam que sim, enquanto 9% (quatro professores) acreditam no contrário.

Tal resultado vem ao encontro da crença do autor desta dissertação: a racionalidade

instrumental permeia e influencia a formação do administrador, implicando a falha ou

desinteresse da academia em proporcionar outras formas de construção do conhecimento aos

estudantes. Tal constatação é corroborada por Motta (1988), Guerreiro Ramos (1989), Enriquez

(1997), Barros e Passos (2000) e Tenório (2004). É inegável a influência da racionalidade

instrumental na formação acadêmica do administrador. É nessa linha de pensamento que surgem

as críticas ao ensino da administração: atualmente é privilegiada mais a capacitação analítica do

que a capacidade subjetiva, aqui incluída a intuição. Cabe evocar-se o pensamento de MacIntyre

(2001) sobre a imprevisibilidade nas relações humanas e a equivocada generalização legiforme

que a ciência social pretende assumir para a sua legitimização.

Para a última questão fechada “O desenvolvimento da intuição está presente na formação

acadêmica do administrador?”, a opinião dominante, embora não consensual, é que ela não está

presente para 59% (26 professores) dos respondentes, enquanto 18 professores (41%) acreditam

que a intuição se faz presente na formação do administrador.

Para as duas questões abertas, foi utilizada a análise de conteúdo. Enquanto que na

primeira pergunta as categorias foram previamente estabelecidas, porém admitindo-se a inclusão

ou exclusão de categorias, na segunda as categorias foram criadas a partir das respostas obtidas.

Na primeira pergunta foram definidas sete categorias: 1- decisão/percepção sem recurso a

métodos lógicos/racionais ou sem dados/fatos completos; 2- previsão; pressentimento; 3-

percepção inerente; compreensão inexplicável; sensação/sentimento que vem de dentro,

caracterizada pelo imediatismo e pela espontaneidade; 4- integração de experiência anterior;

processamento de informações acumuladas subjetivamente; 5- processo subconsciente; 6-

premonição e 7- sexto sentido. Destas, as três últimas foram descartadas – processo

subconsciente, premonição e sexto sentido –, pois não se obteve respostas que se enquadrassem

nelas. A não definição da intuição como premonição ou sexto sentido é um ponto positivo, pois

se afasta o caráter de misticismo que o termo pode erroneamente induzir.

Importante é ressaltar o alerta de Bauer e Gaskell (2004): como a análise de conteúdo é

uma construção social, ela é permanentemente um ato de interpretação. Assim, o autor desta

dissertação está cônscio de que as opiniões dos respondentes estão fortemente influenciadas pela

interpretação e análise do pesquisador. Contudo, permanece o que já foi dito: não existe

neutralidade científica.

A primeira pergunta foi: “Na sua opinião, o que é intuição?”

Para essa pergunta, utilizaram-se três definições prévias, sintetizadas de Santos (1964) e

Cabral (1971), que nortearam as categorias:

1- Percepção: formação da noção do mundo exterior pelo homem; capacidade de

compreensão; ordenação das sensações pela consciência; processo pelo qual o

indivíduo se torna consciente dos objetos e relações no mundo.

2- Pressentimento: ação ou ato de pressentir, de sentir com antecedência um fato

3- Previsão: ação ou ato de prever, de ver com antecedência; antecipação mental

de fatos que podem ocorrer; antevisão; declaração sobre um acontecimento

ainda não observado, subtendendo-se considerável soma de conhecimentos

factuais pertinentes a esse acontecimento e de princípios gerais que nele podem

influir.

Para as quatro categorias que foram empregadas no enquadramento das respostas

procedeu-se à análise de conteúdo, apoiando-se em um procedimento estatístico, após a devida

interpretação e adequação das mesmas.

Na primeira categoria definiu-se intuição como: decisão/percepção sem recurso a métodos

lógicos/racionais ou sem dados/fatos completos. Dos 44 respondentes, 10 definiram intuição

dessa maneira, ou seja, 23%.

A definição de intuição da segunda categoria foi: previsão; pressentimento. Nove

professores acreditam que intuição está enquadrada nessa categoria, o que corresponde a 20% dos

respondentes.

Definiram intuição como percepção inerente; compreensão inexplicável;

sensação/sentimento que vem de dentro, caracterizada pelo imediatismo e pela espontaneidade,

25% dos respondentes, correspondendo a 11 professores.

A última categoria definiu intuição como a integração de experiência anterior;

processamento de informações acumuladas subjetivamente. Treze professores, ou seja, 30%,

tiveram suas respostas incluídas nessa categoria.

A tabela 2 busca sintetizar o exposto.

Tabela 2 – Síntese estatística das respostas à pergunta “Na sua opinião, o que é intuição?”

CATEGORIA RESPONDENTES

(Quantidade numérica de professores)

PERCENTUAL (%)

Decisão/percepção sem recurso a métodos lógicos/racionais ou

sem dados/fatos completos

10 23 Previsão Pressentimento 9 20 Percepção inerente Compreensão inexplicável Sensação/sentimento que vem de

dentro

(caracterizada pelo imediatismo e pela espontaneidade) 11 25 Integração de experiência anterior Processamento de informações acumuladas subjetivamente 13 30

Não respondeu à pergunta 1 2

TOTAL 44 100

Pode-se perceber que a intuição é um assunto controverso. As respostas estão quase que

significado da intuição já foi anteriormente mencionada por Westcott (1968), Vergara (1991,

1993), Goldberg (1992) e Burden (1993).

Os resultados da pesquisa confirmam que as dimensões anteriormente mencionadas –

filosófica, psicológica e administrativa – estão presentes nas definições dos respondentes, seja

por meio do conceito bergsoniano, que evoca o imediatismo e a espontaneidade, seja pelo

conceito junguiano que a traduz como a percepção inconsciente. “Instinto da razão” foi como

definiu a intuição um dos respondentes. Um outro professor a definiu como “uma forma de

conhecimento acumulado adaptado a partir de experiências sucessivas de ‘serendipidade’

(tradução livre do inglês Serendipity)”.

A noção de que a intuição é vista como uma antítese da lógica/raciocínio confirma a

pesquisa de Parikh, Neubauer e Lank (1998). Contudo, ao contrário da pesquisa desses autores

realizada no Brasil com os administradores, que afirmam o uso mais da lógica/razão (53,5%), os

professores da Ebape acreditam que a intuição está presente no processo decisório (66%),

corroborando a pesquisa desenvolvida por Vergara (1993) no seu estudo (89% dos gestores

asseguram tomar decisões intuitivas).

Porém, claro está para os respondentes, que a intuição é um importante componente das

decisões administrativas. Seria a dificuldade de se definir a intuição, o motivo do seu desuso na

formação acadêmica, uma vez demonstrada sua capilaridade no resultado da pesquisa

desenvolvida?

A segunda pergunta aberta foi: “Caso a resposta anterior seja positiva [o desenvolvimento

contexto acadêmico?”. Dos 44 respondentes, 18 afirmaram que a intuição está presente na

formação acadêmica do administrador (41%).

Para essa pergunta foram criadas três categorias, com base nas respostas dos professores.

A primeira categoria foi: esforço comunicacional nas interações acadêmicas entre docentes,

discentes e instituições. Três respondentes foram incluídos nessa categoria, o que corresponde a

17% dos 18 professores.

A segunda categoria estabelecida foi: estudos de casos; análises de realidades distintas;

trabalhos de grupos; estágios; análises, simulações e exercícios diversos. Dez professores

responderam que a intuição se manifesta por meio da categoria, o que corresponde a 55% dos

respondentes.

A terceira categoria abarcou as respostas que sugeriram disciplinas mais subjetivas. Cinco

professores foram enquadrados na categoria, o que equivale a 28%.

Assim, a maioria dos professores acredita que por meio da aplicação de estudos de caso,

análises e exercícios, a intuição se faz presente na formação acadêmica.

Tabela 3 – Síntese estatística das respostas à pergunta “Caso a resposta anterior seja positiva [o desenvolvimento da intuição está presente na formação acadêmica do administrador?], como ela se

manifesta no contexto acadêmico?”

CATEGORIA RESPONDENTES

(Quantidade numérica de professores)

PERCENTUAL (%)

Esforço comunicacional nas interações acadêmicas entre docentes, discentes e instituições

3 17

Estudos de caso; análises de realidades distintas; trabalhos de

grupos; estágios; análises, simulações e exercícios diversos

10 55

Disciplinas mais subjetivas 5 28

TOTAL 18 100

A realidade, porém, requer mais profundidade do que a apresentada. O autor desta

dissertação não acredita que a segunda categoria por si só desenvolverá a intuição. Conforme

observa um dos professores: “os ‘curricula’ dos cursos de Administração precisam ser revistos

radicalmente para a formação de verdadeiros administradores”. É este o pensamento da maioria

dos professores (59%) ao afirmarem que a intuição não está presente na formação acadêmica do

administrador.

Um outro professor observou que a intuição “inconscientemente adotada ou

conscientemente assumida, é indispensável à viabilização da decisão e da ação administrativa de

arrogância da razão pura, que conduz à simplificação do mundo social e ao ingênuo e autoritário

encontro de pretensas verdades ‘irrefutáveis’ ou à impotência decisória face situações

complexas”. Esse mesmo professor acredita que “não exploramos sistemática e conscientemente,

para não dizer ‘racionalmente’, os aspectos teóricos e práticos da intuição, de forma a dominar

seus correspondentes valores, conhecimentos, atitudes e habilidades de aplicação.” Ele faz um

alerta: “Há, no entanto, muita estrada a percorrer, se desejarmos evoluir com racionalidade e

intuição neste caminho, driblando tanto o racionalismo preconceituoso quanto o misticismo

barato dos mais afoitos.”

Assim, permanecem as críticas de Guerreiro Ramos (1983a, 1983b, 1989), Serva (1990),

Covre (1991), Fischer (1986, 1993, 2001, 2003) que advogam a ineficácia da atual formação

acadêmica do administrador.

Este capítulo apresentou os resultados e as análises, confrontando-se aqueles com o

arcabouço teórico desenvolvido. A opção metodológica do autor da pesquisa foi utilizar-se do

Benzer Belgeler