De acordo com Fischer (1986, 2001), Serva (1990), Barros e Passos (2000), Rodrigues e
Carrieri (2001) e Andrade e Amboni (2004), o ensino formal de administração no Brasil, iniciou-
se na década de 50, caracterizado pela americanização curricular, racionalidade técnica,
eficientização das organizações e pela lógica funcionalista, formando administradores aptos para
atenderem ao processo produtivo industrial da época.
Tais características, comprovam os mesmos autores, continuam a estar presentes nos
atuais cursos de formação dos administradores. Por conseguinte, as críticas ao ensino
administrativo brasileiro não são poucas.
Para Serva (1990) formam-se administradores muito menos no “domínio do pensar” do
que no “domínio do fazer”, pois o ensino é por demais “tecnicista” e grande parte dos enfoques
teóricos ensinados é de cunho normativo, tendo como conseqüência a transmissão de prescrições
antigas para os novos e desafiantes problemas que o administrador enfrenta na sua vida cotidiana.
Fischer (1986, p. 170) é ainda mais contundente:
Os modelos de desenvolvimento de pessoal para a administração pública (outrora transplantados) estão esgotados. Reeditar o passado será incorrer nos mesmos erros. Outras propostas em novas bases devem ser estabelecidas com novas formas de investigar, ensinar e aprender adequadas á especialidade cultural da organização pública brasileira.
Guerreiro Ramos (1983b) em conferência realizada em 1970, já chamava a atenção para a
contextualização do ensino de administração à realidade na América Latina. Para o autor, há um
flagrante processo de dissonância cognitiva para os administradores, ao se tentar trazer soluções
estrangeiras para problemas domésticos, exigindo-se, portanto, um estilo administrativo
humanístico, suscitando-se o debate entre a legitimidade e a eficácia administrativa.
Para Barros e Passos (2000) a própria sociedade capitalista influencia a formação
acadêmica do administrador: ela é carreada de uma base filosófica instrumental que sustenta o
projeto pedagógico como um todo. Os autores sustentam que a formação do administrador é
fundamentalmente baseada nas práticas administrativas instrumentais, na perpetuação de sua
análise e de seu uso, enquanto ação transformadora das organizações, da sociedade e do homem.
Covre (1991) ao expender sobre a formação e a ideologia do administrador nos confirma
que a ideologia neocapitalista, a produtividade e a eficiência são realidades que acompanham e
influenciam o administrador no seu processo de desenvolvimento intelectual, alertando, ainda
que: “se mantido esse tipo de formação mais técnica, está se criando seres humanos–máquinas,
instrumentos passivos ao processo capitalista (selvagem)” (COVRE, 1991, p. 195-196). Para a
autora há necessidade de uma formação acadêmica equilibrada – técnica e humana – que deve
exigir muita reflexão por parte de todos os atores envolvidos (alunos, professores e demais
elementos inseridos no processo formativo).
O panorama acadêmico pouco mudou no decorrer dos anos. A influência estrangeira ainda
é uma constante, o que implica um reforço da racionalidade e do imediatismo. Tais constatações
já foram objeto de estudo de vários autores, destacando-se os de Vergara e Carvalho Jr. (1995),
Vergara e Pinto (2001) e Rodrigues e Carrieri (2001), embora Fischer (2003) afirme que a
influência americana começou a ser contestada por radicais críticos como Maurício Tregtemberg
influência não teve respaldo nos cursos de graduação e sua incorporação foi pontual e efêmera.
Vergara e Peci (2003) atestam que os métodos tradicionais de orientação positivista (originário da
concepção funcionalista) têm prevalecido nos estudos organizacionais.
Uma possível explicação para tais fatos, pode ser encontrada no estudo realizado por
Cabral-Cardoso (2001, p. 145-146) ao afirmar que:
O horizonte temporal da gestão é consideravelmente mais curto do que no meio acadêmico. As atividades desenvolvidas por todos os colaboradores, cientistas e engenheiros incluídos, devem, em última análise, traduzir-se na comercialização de produtos ou serviços, o que sublinha a importância da unidade de esforços e do empenhamento na organização. Ou seja, a cultura empresarial não atribui valor particular ao conhecimento em si, se este não for traduzível em bens ou serviços negociáveis no mercado.
A partir da destacada importância na racionalidade, os programas de educação para a
Administração são orientados mais para a formação de pretensos analistas e solucionadores de
problemas do que para estrategistas e profissionais de visão a longo prazo, habilidades
necessárias aos tomadores de decisões gerenciais.
Interessante ressaltar a posição de Motta (1988) que constata uma dicotomia existente: de
um lado, se intensifica o estudo da Administração academicamente e, do outro, que a formação
advinda desses cursos mostra-se pouco útil para a capacitação gerencial.
Nesse sentido, os cursos de Administração continuam formadores, predominantemente, de
técnicos em Administração.
Em conseqüência disso, o educando em Administração vive dentro de um ambiente
completamente adverso ao crescimento de sua capacidade intuitiva, limitando-se a reproduzir os
Por conseguinte, as palavras de Guerreiro Ramos (1989) são mais do que válidas; servem
para que possamos suplantar a realidade vigente, buscando um caminho mais reflexivo no ensino
da administração:
A teoria da organização, tal como tem prevalecido, é ingênua. Assume esse caráter porque se baseia na racionalidade instrumental inerente à ciência social dominante no Ocidente. Na realidade, até agora essa ingenuidade tem sido o fator fundamental de seu sucesso prático. Todavia, cumpre reconhecer agora que esse sucesso tem sido unidimensional e, [...] exerce um impacto desfigurador sobre a vida humana associada. [...] hoje haverá algumas pessoas que prefiram suspender a crítica à teoria organizacional corrente, porque, embora sendo pobre em sofisticação, ela funciona. Contudo, para fazer isso, é preciso que se finja que a ingenuidade é o certo, enquanto a sofisticação teórica é o errado. [...] A palavra ingenuidade é usada aqui no sentido em que a empregou Husserl, que reconheceu que a essência do sucesso tecnológico e econômico das sociedades industriais desenvolvidas tem sido uma conseqüência da intensiva aplicação das ciências naturais. No entanto, a capacidade manipuladora de tais ciências não constitui, necessariamente, uma indicação de sua sofisticação teórica. [...] No fim de contas, as ciências naturais podem ser perdoadas por sua ingênua objetividade, em razão de sua produtividade. Mas essa tolerância não pode ter vez no domínio social, onde premissas epistemológicas errôneas passam a ser um fenômeno cripto-político – quer dizer, uma dimensão normativa disfarçada imposta pela configuração de poder estabelecida. (GUERREIRO RAMOS, 1989, p. 1-2).
Barros e Passos (2001) ao concluírem seu artigo concordam com o pensamento de
Guerreiro Ramos ao revelarem que a lógica capitalista que vem subjugando todos os pressupostos
de orientação da vida humana, sob a égide de um racionalismo comprometido com o modo de
reprodução e com o discurso hegemônico do capital, constitui-se na grande “maré” da sociedade
ocidental, cabendo aos educadores a promoção de alternativas ao modelo de educação vigente na
sociedade capitalista, uma vez que os seres humanos têm uma racionalidade plena que lhes é
inerente, substantiva e emocional.
Porém, nos alertam Vergara e Branco (1994, p. 131):
Em várias áreas do conhecimento, o processo de mudança conquista espaço em debates, como os travados na administração. Em comum, verifica-se a constatação de que, se de um lado se compreende e aceita intelectualmente que é ilusório enfocar o mundo à sua volta a partir de lentes forjadas no reducionismo e nas limitações da casualidade linear que caracterizam a visão mecanicista, por outro só se dispõe de uma formação que sempre privilegiou a compartimentalização e a fragmentação do saber.
Na presente dissertação, prefere-se acreditar que as movimentações em busca de uma
melhor forma de se decidir já se fazem presentes. Não seria outra a opinião do autor desta
dissertação se não acreditasse em mudanças, pelo próprio fato de se desenvolver o estudo em
lide.
Vergara (1991) privilegia a questão da racionalidade cartesiana ao alegar que acadêmicos
e administradores vêm fazendo críticas contundentes ao ensino de Administração, uma vez que a
realidade organizacional já é caracterizada pela falta de programação racional e linearidade e que
as tomadas de decisões organizacionais estão baseadas tanto em múltiplas racionalidades quanto
na intuição.
O curso de Administração e o papel do Administrador profissional são elementos
sustentadores do crescimento econômico e do aprimoramento social de qualquer país. Influências
de natureza ideológica quanto à educação dos administradores, entretanto, têm reduzido a
utilidade e a abrangência do seu papel como impulsionador do desenvolvimento.
O profissional da Administração tem muito mais a contribuir. Entretanto, sua formação
necessita ser estudada sob novas perspectivas e sob um novo ideário. Necessita-se de estudos que
aprofundem reflexões e conseqüentes ajustes para que o Administrador exerça, com plenitude, o
seu poder de influenciar e promover o desenvolvimento integral da sociedade.
Contudo, o CFA parece ir de encontro às necessidades que se fazem prementes. As suas
últimas Resoluções Normativas realmente possibilitarão um ensino melhor ou fragmentará ainda
A qualidade que Fedro buscou na sua jornada em Pirsig (2000) espelha que o processo de
ensino em Administração necessita mais de reflexões, interações e críticas do que a pretensa
reserva de mercado que é sinalizada pelo CFA.
Vergara (2003, p. 132) comenta que “a relação ensino–aprendizagem em administração
não pode estar dissociada da realidade das organizações”, defendendo que o espaço pedagógico
deve ser caracterizado pela desconstrução, construção e reconstrução do conhecimento.
O que se procurou neste capítulo foi justamente isso. Cada abordagem foram momentos
de desconstrução, construção e reconstrução da compreensão da Administração como área de
conhecimento. A partir da contextualização da realidade vigente e da identificação da
preponderância da racionalidade instrumental como característica intrínseca da organização nos
suscita a tentativa de desconstruir um conceito arraigado. A partir da verificação que a
racionalidade substantiva é capaz de proporcionar uma emancipação do homem dialeticamente,
(re)construiu-se um novo conhecimento. Ao se apontar críticas ao ensino em administração,
espera-se que no processo dinâmico que envolve o conhecimento, que abarca todos os atores
envolvidos, seja privilegiado o autoconhecimento, ampliando-se novas formas do pensar,